Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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O futuro da imprensa pode estar na fórmula Gillette

Por Carlos Castilho em 13/09/2012 | comentários

Já não há mais muitas dúvidas de que a sobrevivência de empresas jornalísticas passa ao largo da venda direta de notícias ao público e tudo indica que caminhamos para a aplicação de um modelo de negócios similar ao adotado, no início do século 20, por King Gillette, o empresário norte-americano que popularizou as lâminas de barbear ao dar barbeadores quase de graça.

Multiplicaram-se nas últimas semanas, na internet, as referências a novas estratégias de comercialização de notícias a partir da venda de aplicativos, de novas versões de softwares e até da formação de comunidades de leitores, onde o jornalismo é apenas um dos itens. Todas essas possibilidades têm em comum o fato de que a notícia será gratuita, ou quase, mas para ter acesso a ela o público terá que pagar pelo aplicativo que a disponibiliza na internet.

A crescente importância adquirida pelos aplicativos, os softwares e equipamentos de acesso à internet,  acelerou a concorrência entre as empresas do ramo e está provocando “casamentos de interesses” entre produtores de conteúdos informativos e criadores de novos programas para computadores, smartphones e tablets. É o fenômeno classificado por Nicholas Carr, do The New York Times, como appification.

O economista Hal Varian, professor da Universidade Berkeley e uma das estrelas da equipe pensante da empresa Google,  cunhou, junto com seu colega Carl Shapiro,  a expressão versionning para expressar sua tese de que a nova fórmula para arrancar dinheiro dos consumidores será o desenvolvimento e comercialização de versões sucessivas de um mesmo software ou hardware (equipamento físico), sem os quais o acesso a itens essenciais como a informação ficará muito dificultado ou inviável.

Essas alternativas ganharam relevância na medida em que a estratégia do paywall (cobrança de acesso a noticias online), apesar do seu sucesso imediato, mostra debilidades criticas no médio e no longo prazos. É que o ritmo de crescimento da receita oriunda de assinaturas de acesso às versões online não alcança a perda de faturamento publicitário e a desvalorização dos ativos de uma empresa jornalística. 

The New York Times tem a experiência mais bem sucedida de paywall, já com 500 mil assinantes, e, segundo o especialista em estratégias digitais Rex Sorgatz, precisaria de no mínimo dois milhões de assinantes da versão online para se equilibrar e conseguir sobreviver como empresa produtora de notícias. É consenso geral que esse volume de assinaturas não pode ser alcançado no curto ou médio prazo, levando-se em conta a diversidade de oferta de notícias e a fluidez do mercado jornalístico.

Sorgatz sugere que o NYT pense na formação de comunidades de leitores, que se aglutinariam em torno de uma marca, mais do que em torno de notícias. A marca seria o elemento que daria aos membros da comunidade o acesso a itens como descontos em restaurantes, ingresso de cinema, teatro, shows e por aí vai. Num  contexto como esse, a credibilidade do Times seria o motivador da aglutinação de leitores, mas a informação acabaria sendo apenas um plus gratuito.

Em todas essas alternativas, o retorno do investimento na notícia viria por meio da associação com outros negócios, já que ela, segundo o jargão dos economistas, passou a ter valor marginal zero, ou seja, quase gratuito. Esta nova mixagem entre notícia, informação e negócios, como aplicativos, versioning e marcas, passa a ser uma característica do mundo empresarial jornalístico, abalando a retórica tradicional por meio da qual os executivos da imprensa tentavam atrair a credibilidade do público para o produto-notícia ao apregoar a sua independência em relação aos interesses comerciais.  

Essa combinação inevitável entre negócios e notícia, que até agora era dissimulada, passa a ser cada vez mais aberta, por uma questão de sobrevivência. Isso cria um novo ambiente informativo e abre espaço para a produção não comercial de informações com base em iniciativas independentes — tanto por indivíduos como por grupos de indivíduos.  É o contraponto para a "fórmula Gillette", que discutiremos noutro post.

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