Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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O grito primal dos ‘indignados’

Por Carlos Castilho em 18/10/2011 | comentários

Já são quase 900 as cidades ao redor do mundo onde ocorreram manifestações orientadas pelo slogan Ocupar…….. Segundo o jornal inglês The Guardian, o total de participantes dos protestos classificados pelo repórter Nicholas Kristoff, do The New York Times, como um grito primal, superam os oito milhões. São números que impressionam porque foram simplesmente escondidos pela imprensa brasileira cuja cobertura é a mais burocrática possível.

 

O grito primal de milhões de indignados em redor do mundo configura um dos mais surpreendentes movimentos políticos das últimas décadas porque consegue unir sob um mesmo slogan segmentos sociais tão díspares como a classe média norte-americana, os estudantes chilenos, funcionários publicos egípcios, intelectuais israelenses e sindicalistas espanhóis.

 

A expressão usada por Kristoff é muito feliz porque o movimento não tem plataforma política e nem objetivos claros. É um grande desabafo, um grito que sai do âmago de pessoas que já não aguentam mais a desigualdade econômica, a discriminação e a injustiça social. Começa a surgir uma possível catarse planetária que ainda não foi suficientemente estudada porque os formadores de opinião continuam vendo-a como um protesto convencional.

 

Diante dos olhos mesmerizados da imprensa começa a se esboçar, de forma absolutamente empírica, uma nova estratégia de ação social, fruto mais da emoção e do impulso do que de sofisticadas análises e interpretações da realidade. Temos a comunista chilena Camila Vallejos, nos seus 23 anos, usando quase os mesmos adjetivos do liberal americano Howard Rheingold, de 64 anos, para definir seu estado de espírito diante da crise financeira de 2011.

 

O movimento dos indignados ocupantes da praça Zuccotti, em Wall Street, e todos os seus seguidores ao redor do mundo pode não mudar o planeta, mas tudo indica que eles vão conseguir introduzir na agenda mundial o tema da desigualdade. Depois de duas crises bancárias consecutivas no espaço de quatro anos, quando os 99% mais pobres tiveram que salvar o 1% mais rico da população, as disparidades ganharam a luz do dia e as páginas de jornais conservadores.

 

O campeão do grito primal da desigualdade parece ser Nicholas Kristoff, do insuspeito The New York Times, um jornal que sempre foi considerado uma bíblia politica dos ricos norte-americanos, o 1% cujos bens superam os de 90% da população norte-americana. O fato do Times, bem como o Guardian, tolerarem que seus repórteres e comentaristas assumam, em suas páginas, posições a favor dos indignados é algo muito raro na imprensa mundial. Idem para o espaço que esses e outros jornais estão dando aos comentários de leitores.

 

Isso também é um fato novo que precisa ser levado em conta. O grito das ruas já não consegue mais ser ignorado nem mesmo por jornais que sempre colocaram a isenção como uma espécie de biombo contra o envolvimento em questões sociais complexas. Não há dúvida de que há algo de novo no horizonte político.

 

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