Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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O jornalismo cidadão ganha adeptos apesar das críticas

Por Carlos Castilho em 03/01/2006 | comentários


As análises sobre a crise dos jornais na Europa e Estados Unidos ofuscaram neste fim de ano uma sucessão de notícias indicando que apesar dos prognósticos sombrios muita coisa está mudando na imprensa mundial. Mudanças que apontam cada vez mais no sentido da participação dos leitores na produção e distribuição de informações.


O The New York Times (exige cadastramento gratis), por exemplo, é famoso por seu conservadorismo editorial, mas nem por isto deixou de quebrar uma série de tabus durante a cobertura da greve de transportes públicos de Nova Iorque, que deixou quase cinco milhões de pessoas sem transporte durante três dias, no início de dezembro.


Os editores foram surpeendidos pela avalancha de visitas à versão online do jornal por pessoas buscando informações. O Times reagiu rapidamente criando um mapa virtual de Manhattan  onde as pessoas tanto podiam deixar mensagens contando como estavam enfrentando as consequências da greve, como obtinham informações sobre transportes alternativos. Foi a primeira vez que a cúpula do NYT cedeu ao jornalismo cidadão em grande estilo.


Já o jornal News & Record , da cidade de Greensboro, na Carolina do Norte, resolveu apostar tudo na parceria com os seus leitores. O News já havia revolucionado os formatos jornalísticos, em 2005, ao criar uma área chamada Town Square (Praça da cidade) na parte mais nobre de sua edição web, destinada aos leitores e visitantes.


A ‘Praça’ inclui blogs de leitores, podcasts (mensagens em áudio) e um inédito sistema de Hometown Hubs (terminais públicos) onde quem não tem computador em casa pode colocar mensagens e interagir com o jornal e outros leitores.O News & Record montou quatro terminais em diferentes bairros de Greensboro e anunciou a instalação de mais cinco em 2006.


A tentativa de trazer os leitores para a internet é a grande aposta do jornal Reporter  que será lançado no dia 9 de janeiro na África do Sul e que é uma das primeiras experiências clonagem do jornal sul-coreano OhmyNews , a mais bem sucedida experiência de jornalismo feito por cidadãos comuns em todo o mundo.


O jornal sul-africano tem o patrocínio de uma empresa de educação online e terá como público alvo os jovens, especialmente os estudantes secundários e universitários. Os colaboradores serão organizados em três categorias segundo a qualidade de seus textos e apenas os mais qualificados receberão o equivalente a 15 reais por história aprovada.


A aposta dos sul-africanos é arriscada porque o país está muito distante da Coréia do Sul em matéria de capilaridade da rede de computadores. Além disso a internet é majoritariamente acessada por brancos, que formam apenas 20% da população do país. Mas pesquisas realizadas pelo Laboratório de Novas Midias da Universidade Rhodes  garantem que há cerca de 12 mil potenciais jornalistas cidadãos apenas na província Oriental do Cabo, na África do Sul.


As universidades também já começaram a dar-se conta da importância do fenômeno da socialização da informação. Em fevereiro deve começar a funcionar o Centro para Mídia Cidadã (Center for Citizen Media ) vinculado à Escola de Jornalismo, da Universidade da Califórnia, em Berkeley e ao Centro Berkman para Internet e Sociedade , da Universidade Harvard.


O centro é uma instituição não lucrativa que fará pesquisas sobre o papel dos cidadãos na produção e distribuição de notícias. Um dos criadores do Centro para Mídia Cidadã será o jornalista Dan Gillmor, o badalado autor do livro We The Media  . Será o primeiro centro de pesquisas do gênero no mundo.


A multiplicação de experiências e projetos antecipou o surgimento de um acirrado debate em torno das características da participação dos cidadãos na produção e distribuição de notícias de interesse comunitário.


O pomo da discórdia é se este processo será marcado pelo individualismo, seguindo a linha dos weblogs pessoais, ou predominará a autoria compartilhada, cujo principal exemplo é a bem sucedida experiência da Wikipédia . Por enquanto ainda é impossivel dizer qual tendência predominará.


Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/01/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Excelente. Me parece que a evolução do jornalismo unidirecional para o muldirecional (para usar a linguagem de Pierre Levy) é uma tendência sem volta. Afinal, toda inovação tecnológica abre uma porta que ultrapssada dá acesso a um caminho sem volta. Sempre achei o Roberto Campos o que existe de mais fino em matéria de reacionarismo político. Entretanto, ele estava certo quando afirmava que ‘em tempos de trem bala, não tem sentido discutir o trem a vapor mais moderno’. Você está antenado no que ocorre no mundo. E no Brasil, em que velocidade o jornalismo está se modernizando à velocidade de trem bala ou a vapor?

  2. Comentou em 05/01/2006 wagner maia

    O artigo da Constituição Federativa do Brasil, aprovado em 1988, que mais me agrada é o art. 5º, no capítulo I, referente aos ‘Direitos e Deveres Individuais e Coletivos’. Nada que defina o papel do jornalista, ou da empresa jornalística, mas precisa em 77 parágrafos e dois incisos alguns limiares de um cidadão comunicativo. Porém, o relacionamento que pode-se ter com um veículo midiático sem se constar da folha de pagamento tem-se por público. E qualquer tentativa de trazer o público para dentro do local da redação de um jornal pode até ganhar uma denominação semelhante a ‘turismo informativo’, ou ‘humanismo informacional’, ou qualquer promoção ligado a Relações Públicas da empresa. Do mais, preocupar-se com o seu público e procurar conhecê-lo é uma obrigação de qualquer veículo que preza pela função que desempenha na sociedade contemporânea, incluindo a de buscar apoio e credibilidade do público para causas e reinvindicações políticas e sociais. Qual é a preocupação jornalística? A participação do público na produção da notícia? A perda do emprego? Qualquer nacionalista sabe que a liberdade de expressão é assegurado por lei.

  3. Comentou em 04/01/2006 Marconi Canuto Brasil

    Ótimo. Mas imaginem isso tudo no Brasil: os ‘habitantes’ da Internet são, em grande maioria, das Classes A e B, ou seja, uma turminha conservadora – agora, imaginem que tipo de ‘jornalismo cidadão’ iria surgir!Basta uma olhadela nos comentários em sites de relacionamentos… Abraços.

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