Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O jornalismo como destilaria

Por Luiz Weis em 15/09/2009 | comentários

O bom de ler textos sobre jornalismo escritos por jornalistas confortáveis com o seu ofício é que dão o que pensar sobre a distância entre as convicções que os animam e os resultados que alcançam.

Isso não é para desmerecer a profissão. Se na prática a teoria é outra, como se diz, já pensaram no que seria a prática sem teoria, o trabalho sem referência, ainda quando esmaecida, a princípios?

Entre outras consequências, a própria observação da mídia ficaria pendurada no ar. Pois só se pode julgar a qualidade – e a integridade – de um relato jornalístico tendo como referência os padrões pelos quais a imprensa deveria se pautar.

Ninguém vai cobrar seriedade, rigor e ética de um tablóide sensacionalista. Mas é o que se tem o direito de esperar de uma publicação que diz obedecer a compromissos profissionais com a busca da excelência e o respeito pelo leitor.

O gancho para esse lembrete é o seguinte:

Nos Estados Unidos, o colunista Roger Cohen, do International Herald Tribune, e a primeira-dama do jornalismo na internet, Arianna Huffington, dona do site Huffington Post, iniciaram uma polêmica sobre twiteiros e repórteres.

Começou, apropriadamente, com um comentário do colunista a propósito do maior momento, até agora, do chamado jornalismo-cidadão em todo o globo – o dilúvio de imagens e palavras enviadas das ruas de Teerã, via celular, sobre a repressão aos protestos contra a fraude nas eleições iranianas de 12 de junho.

Ele prestou o devido tributo aos incontáveis manifestantes que mantiveram o mundo a par do que se passava em seu país, quando o regime expeliu os correspondentes estrangeiros e apertou a mordaça na imprensa local.

Mas depois que as passeatas cessaram, notou o colunista, não ficou ninguém para investigar as mais de 70 mortes da repressão e as torturas de que foram vítimas centenas de manifestantes presos.

E escreveu: “Ser jornalista é prestar testemunho. O resto é enfeite. Prestar testemunho significa estar lá – e isso não sai de graça. Nenhum motor de busca transmite o cheiro de um crime, o tremor no ar, os olhos que ardem, a cadência de um grito.”

Arianna objetou. “A verdade é que você não precisa ‘estar lá’. E você pode estar lá e não prestar testemunho”, fustigou no seu site.

Com o risco de tornar a discussão bizantina, Cohen retrucou que prestar testemunho a distância é tão possível como fazer uma omelete sem quebrar os ovos. Mas, isto posto, “estar lá” é – apenas e tudo isso – um começo.

O resto, o que faz a diferença entre a captação instantânea e a informação estruturada, é jornalismo. E jornalismo é “destilação”, a antítese do material cru difundido pelas novas mídias sociais, como o Twitter, que funcionam como sistemas de alerta, indicadores de interesses globais, meios de relacionamento e integração.

Destilar, para o colunista, é selecionar e ordenar os registros brutos de modo a oferecer “a mais verdadeira e imparcial, a mais vívida e completa representação de uma situação”.

O eventual leitor seria capaz de citar, de bate-pronto, uma reportagem que o tivesse impressionado por ser “a mais verdadeira e imparcial, a mais vívida e completa representação de uma situação”?

Mas Cohen não está falando por falar. Em 29 de abril de 2000 ele publicou no New York Times o que o blogueiro ainda hoje considera a matéria mais próxima de todos aqueles atributos que já se fez sobre o Carandiru.

É um exemplo do jornalismo possível, como inteligência organizada, sensibilidade organizada – nas palavras do colunista no seu debate com Arianna Huffington. Depende de “estar lá” – e da arte de destilar os fatos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/09/2009 maria alcina dias torgo

    gostaria que este grande jornalista ,fizesse uma matéria sobre o poder judiciário e a globo e seus laranjas,empresas de fachadas criadas para tomar tudo dos pobres,até herança da familia rivetti em currupira-recreio dos bandeirantes,eles estão invadindo,apos comprarem o terreno vizinho se estenderam no restante do imovel da currupira-recreio dos bandeirantes,documentos todos falsificados e em nome da dermesil uma coligada da festa do grilo de terras,até quando vai esse poder.Um dia a casa cai!

  2. Comentou em 17/09/2009 Roberto Ribeiro

    Suely, o que está acontecendo com o Jornalismo é a chamada ‘crise dos paradigmas’. Uma forte crise de paradigmas atingiu a Sociologia e a História na década de 90, foi uma crise que varreu estas ciências como um tornado, não deixando pedra sobre pedra. Há vinte anos atrás, todo historiador, todo sociólogo, todo antropólogo tinha certezas absolutas, hoje não é mais assim. Os jornalistas vivem agora sua crise de paradigmas, o que representa, em termos pessoais, uma crise de identidade. Os jornalistas se imaginavam super-qualquer-coisa, hoje descobrem que têm de procurar um nicho espremidos entre o fofoqueiro e o especialista. Antes jornalistas podiam viver de fofocas, de denúncias de buracos nas ruas, de coberturas de jogos florais no interior e podiam viver também de opinar sobre os altos píncaros da Teologia, da política, da moda, do que quer que fosse ‘formando opinião’. Hoje ele descobre que não é qualquer coisa que é informação, nem qualquer coisa é opinião. É este ponto que o jornalista tem de encontrar, entre o superficial demais e o veneravelmente profundo. Mas qual é esse ponto?

  3. Comentou em 17/09/2009 Ibsen Marques

    “a mais verdadeira e imparcial, a mais vívida e completa
    representação de uma situação”. Se ele colocasse possível ao final
    da frase tudo bem, mas assim fica muito arrogante. Mas o que é
    mesmo a verdade e a imparcialidade? Me parece que, cada vez mais,
    a verdade se tornou relativa e visível diferentemente sob muitos
    ângulos, quanto à isenção, essa é uma impossibilidade humana.
    Precisaremos também que as destilarias abriguem os jornalistas
    porque duvido muito que a notícia não pereça com o fim do momento
    sensacional. Quando a coisa é velha, simplesmente é abandonada
    pelos jornalistas (com ou sem um ponto final), pois como vemos, a
    gripe suína parece nunca ter existido, o Sarney sempre foi um poço de
    honestidade, retidão e dignidade em seus atos como congressista.
    Não tem conversa, a notícia só permanece viva enquanto o
    leitor/ouvinte estiver disposto a consumi-la, depois que fica velha é
    descartada e muito poucas vezes reciclada. Depois de algumas
    semanas haverão notícias mais quentes para se trabalhar. A palavra
    de ordem no jornalismo moderno é: Sensacionalismo.

  4. Comentou em 17/09/2009 Sueli Montenegro

    Para Roberto Ribeiro, arqueologo e duble de sociologo:

    A discussão não é em relação à profundidade científica do tratamento das informações, mas de estar lá para poder reportar da melhor maneira o que esta acontecendo. Sociólogos, antropólogos, historiadores etc têm papel diferente do jornalista na análise e na interpretação dos fatos. O que não significa, como em todas as ciencias sociais, que o relato deles seja absolutamente isento de ideologias, apesar da exigência do chamado rigor científico.
    Jornalistas reportam o cotidiano, o que não significa que seus relatos precisam ser superficiais ao extremo, como voce diz. A função do jornalista é realmente, como diz o texto, destilar a partir da apuração e da ordenação dos fatos. Tentar juntar de forma coerente o que aparece fragmentado nas redes sociais e no chamado jornalismo cidadão. Sempre ouvindo o maior numero de versões possível para dar maior credibilidade ao relato. O timing, no entanto, é diferente para jornalistas e academicos, se vc ainda não percebeu. O que não nos desqualifica se realmente formos profissionais sérios.

  5. Comentou em 16/09/2009 Roberto Ribeiro

    Bem, sem querer entrar na discussão da diferença entre comprehensio e simplex aprehensio à qual chegará esta história, o jornalista não é o fim e o cabo da interpretação dos fatos. Os fatos são interpretados pelos sociólogos (ah, eu tenho tb um diploma de sociologia e que não é profissão regulamentada), pelos historiadores (outra profissão não regulamentada), etc. Um sociólogo ou um historiador analisam um fato com uma profundidade ‘pré-salina’ em comparação à interpretação que é esperada de um jornalista. Jornalista que passa 3 semanas analisando um fato já é considerado profundo, imagine um antropólogo que passa a vida inteira analisando os costumes de casamento de uma tribo. O jornalista mexe na pele dos fatos, é o dermatologista da sociedade, o cientista político é o fisioterapeuta, o sociólogo e o historiador são os anatomistas. Continuando com a analogia, o problema é que de dermatologista para cosmetólogo é um passo e de cosmetólogo para maquiador, mais rápido ainda.

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