Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O jornalismo como destilaria

Por Luiz Weis em 15/09/2009 | comentários

O bom de ler textos sobre jornalismo escritos por jornalistas confortáveis com o seu ofício é que dão o que pensar sobre a distância entre as convicções que os animam e os resultados que alcançam.

Isso não é para desmerecer a profissão. Se na prática a teoria é outra, como se diz, já pensaram no que seria a prática sem teoria, o trabalho sem referência, ainda quando esmaecida, a princípios?

Entre outras consequências, a própria observação da mídia ficaria pendurada no ar. Pois só se pode julgar a qualidade – e a integridade – de um relato jornalístico tendo como referência os padrões pelos quais a imprensa deveria se pautar.

Ninguém vai cobrar seriedade, rigor e ética de um tablóide sensacionalista. Mas é o que se tem o direito de esperar de uma publicação que diz obedecer a compromissos profissionais com a busca da excelência e o respeito pelo leitor.

O gancho para esse lembrete é o seguinte:

Nos Estados Unidos, o colunista Roger Cohen, do International Herald Tribune, e a primeira-dama do jornalismo na internet, Arianna Huffington, dona do site Huffington Post, iniciaram uma polêmica sobre twiteiros e repórteres.

Começou, apropriadamente, com um comentário do colunista a propósito do maior momento, até agora, do chamado jornalismo-cidadão em todo o globo – o dilúvio de imagens e palavras enviadas das ruas de Teerã, via celular, sobre a repressão aos protestos contra a fraude nas eleições iranianas de 12 de junho.

Ele prestou o devido tributo aos incontáveis manifestantes que mantiveram o mundo a par do que se passava em seu país, quando o regime expeliu os correspondentes estrangeiros e apertou a mordaça na imprensa local.

Mas depois que as passeatas cessaram, notou o colunista, não ficou ninguém para investigar as mais de 70 mortes da repressão e as torturas de que foram vítimas centenas de manifestantes presos.

E escreveu: “Ser jornalista é prestar testemunho. O resto é enfeite. Prestar testemunho significa estar lá – e isso não sai de graça. Nenhum motor de busca transmite o cheiro de um crime, o tremor no ar, os olhos que ardem, a cadência de um grito.”

Arianna objetou. “A verdade é que você não precisa ‘estar lá’. E você pode estar lá e não prestar testemunho”, fustigou no seu site.

Com o risco de tornar a discussão bizantina, Cohen retrucou que prestar testemunho a distância é tão possível como fazer uma omelete sem quebrar os ovos. Mas, isto posto, “estar lá” é – apenas e tudo isso – um começo.

O resto, o que faz a diferença entre a captação instantânea e a informação estruturada, é jornalismo. E jornalismo é “destilação”, a antítese do material cru difundido pelas novas mídias sociais, como o Twitter, que funcionam como sistemas de alerta, indicadores de interesses globais, meios de relacionamento e integração.

Destilar, para o colunista, é selecionar e ordenar os registros brutos de modo a oferecer “a mais verdadeira e imparcial, a mais vívida e completa representação de uma situação”.

O eventual leitor seria capaz de citar, de bate-pronto, uma reportagem que o tivesse impressionado por ser “a mais verdadeira e imparcial, a mais vívida e completa representação de uma situação”?

Mas Cohen não está falando por falar. Em 29 de abril de 2000 ele publicou no New York Times o que o blogueiro ainda hoje considera a matéria mais próxima de todos aqueles atributos que já se fez sobre o Carandiru.

É um exemplo do jornalismo possível, como inteligência organizada, sensibilidade organizada – nas palavras do colunista no seu debate com Arianna Huffington. Depende de “estar lá” – e da arte de destilar os fatos.

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