Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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O jornalismo como parte do capital social nas comunidades

Por Carlos Castilho em 16/11/2010 | comentários

O jornalismo, como o conhecemos hoje em dia, está agonizante não
porque seus valores e rotinas tenham se esgotado, mas porque a realidade onde
ele se insere mudou. A teoria do jornalismo atual foi concebida num contexto em
que a indústria da comunicação, da qual faz parte a indústria dos jornais, era
quem ditava as normas no relacionamento entre emissores e receptores de
notícias, um tipo particular de informação.


A norma estava baseada no princípio de que as notícias eram um produto que
precisava ser processado numa linha de produção e comercializado para
gerar lucros capazes de manter a atividade industrial das empresas de
comunicação.


Mas a avalancha informativa provocada pela internet mudou este esquema. A
notícia tornou-se um elemento essencial na formação do capital social nas
comunidades, uma função mais relevante que a mero produto mercantil, destinado a
garantir a sobrevivência de corporações da mídia.


Com isso, o jornalismo tende a ser cada vez menos uma atividade industrial e
mais uma função social. O que era um exercício retórico torna-se uma
necessidade concreta. Até hoje, o discurso do jornalismo como função social era
usado para amenizar o seu compromisso empresarial.


Agora, a atividade jornalística passa a ser, cada vez mais, associada a
geração de um fluxo de informações voltada para o desenvolvimento da
confiança
mútua entre membros de comunidades sociais. Não se trata de
filantropia jornalística. Pelo contrário.


A geração de capital social em comunidades é um pressuposto para o
desenvolvimento econômico em bases sustentáveis, a meta futura vista como a mais
viável para a sociedade atual garantir sua sobrevivência futura.


Valores jornalísticos como urgência, ineditismo e exclusividade tendem a
perder importância porque estão associados a interesses e estratégias
corporativas. Em compensação a veracidade, contextualização, interatividade e
diversidade
tornam-se simplesmente essenciais à manutenção da base de
confiança que dá aos cidadãos condições de viver em comunidades.


Estes são alguns dos elementos básicos para uma reflexão sobre o novo
papel do jornalismo
num contexto no qual a preocupação social começa a ser
reconhecida como relevante não por militantes políticos ou ativistas ambientais,
mas por pensadores que procuram entender para onde as novas tecnologias da
informação e da comunicação estão nos levando.


O tema é complexo demais e precisa ser debatido pelo maior número possível de
pessoas. Mesmo que a discussão seja caótica, demorada e, em alguns momentos
possa parecer inconclusiva. Não temos outra alternativa, pois estamos entrando
na era do conhecimento coletivo e da sabedoria das multidões.


O jornalismo é uma das atividades mais afetadas pelas transformações geradas
pelas novas tecnologias da informação e comunicação. E tudo indica que ele vai
continuar sob o impacto de mudanças que tendem a afastá-lo cada vez mais do
contexto mercantil. Para uns é um sonho, para outros um
pesadelo
.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/11/2010 Ibsen Marques

    Roberto, belo resumo histórico, e é verdade, o Iluminismo guiou o direito individual a impressão lá em Mill e Tocqueville, porém, com a revolução industrial esse direito foi suprimido ao indivíduo e repassado sem mais às empresas de imprensa e agora conglomerados midiáticos que, apesar de pessoas jurídicas,desenvolveram uma tremenda cara de pau para falar de liberdade.

  2. Comentou em 19/11/2010 Roberto Ribeiro

    Ibsen tem razão quanto a concentração futura da internet. Também a imprensa foi, a princípio, bem mais democrática. No Renascimento era relativamente fácil imprimir um jornal ou um livro, desde que se escapasse da censura e da Inquisição. Bastava um tipógrafo e dois ajudantes para se ter uma ‘folha volante’. Com a Revolução Industrial é que o jornalismo se tornou profissional e empresarial. Se durante a era da prensa manual era possível ter um jornal com 200 exemplares, a partir do século XIX isso se tornou inviável, a não ser em províncias distantes como a Paraíba. Quando o meio eletrônico se estabilizar, surgirão as grandes empresas jornalísticas digitais e os pequenos blogs amadores sumirão. O que acontesse hoje é que ninguém sabe como será o modelo dessas empresas. E, cara jornalista, o tripé iluminista caiu com o surgimento do capitalismo industrial, já faz uns 200 anos que a função do jornalista é vender jornal e não esclarecer a humanidade.

  3. Comentou em 17/11/2010 Márcia Coelho

    O jornalismo sempre tirou das teorias iluministas o argumento que sustenta a sua função vital na sociedade: esclarecimento, compromisso com a materialidade e debate na esfera pública. Então, se a imprensa e as teorias de Comunicação abandonam esse tripé, deveriam, igualmente, abdicar do discurso que justifica o jornalismo como atividade vital da sociedade democrática. O que se vê, hoje, é uma esquizofrenia: continuam usando o argumento iluminista para justificar a importância social e democrática do jornalismo, mas chutam as teorias do esclarecimento.

  4. Comentou em 17/11/2010 Ibsen Marques

    Primeiro não acho que o jornalismo seja uma das áreas mais afetadas, acho que o mundo como o conhecíamos se transformou de tal forma que se hibernássemos do início da década de 90 até hoje, o mundo seria totalmente desconhecido. As relações de trabalho estão absoluta e irremediavelmente transformadas, a virtualização do capital é definitiva e a oligopolização do poder global uma realidade temerária. Não compartilho da idéia de uma ‘sabedoria das multidões’ porque acho que a concentração de informação na Net é uma questão de tempo ( o Google já põe suas manguinhas de fora, só para começar). Para se ter um mínimo de organização na informação na NET, será preciso capital, pois o usuário não costuma aceitar pagamentos em troca de informação, daí voltamos à dependência do poder econômico dos anunciantes, mas, mesmo se não houver a concentração, a informação disponível na Net é caótica e, via de regra, as pessoas acessam sites e blogs afins ao seu modo de ver o mundo, daí que parece que fica tudo mais ou menos no mesmo. tudo não, quase tudo. É fato que o jornal em papel que já tinha uma fraca audiência tenda a desaparecer, basta que os grandes anunciantes reconheçam na Net um investimento de retorno mais rápido e seguro. Enquanto não houver educação capaz de elevar espíritos e desfragmentar as pessoas, não haverá informação suficiente capaz de transformá-las.

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