Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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O jornalismo entre a automação e a agregação de valor

Por Carlos Castilho em 29/11/2014 | comentários

Cada vez que o tema novas tecnologias na comunicação e informação entra na agenda jornalística, ele divide opiniões e provoca posicionamentos apaixonados. Num extremo estão os que demonizam os bytes e bits, enquanto no outro agrupam-se os que consideram a internet uma especie de nirvana jornalistico . Entre os dois opostos há uma enorme gama de posicionamentos intermediários e um desafiador ponto de interrogação.

Há um segmento crescente de profissionais que defende a necessidade dos jornalistas saberem desenvolver e programar algoritmos (softwares específicos para determinadas funções) diante da automatização irreversível dos processos editoriais. O conhecimento tecnológico não só ajudaria a controlar a avalancha informativa gerada pela Web, como permitiria uma redução de custos considerável.

Já os adeptos do que poderia ser chamado de jornalismo puro (a arte de escolher o que vai ser noticiado, decidir como serão investigados os temas escolhidos, pilotar o desenvolvimento de textos ou audiovisuais e finalmente publicar o resultado final) minimizam o papel das ferramentas digitais alegando que elas não substituem o cérebro humano na hora de produzir informações.

Tanto os tecnófilos como os tecnófobos no campo da notícia parecem condenados à marginalização no debate, pois o grande desafio é identificar qual a dose certa de tecnologia e de inspiração capaz de fornecer a receita para o jornalismo em ambiente digital. A discussão vai longe porque ela muda alguns parâmetros-chave na definição dos valores, normas e rotinas do jornalismo contemporâneo.

Mas algumas coisas já podem ser consideradas mais prováveis do que outras. Sem tecnologia, em especial sem os algoritmos, o jornalismo deixa de ver viável como ferramenta de disseminação de notícias, de produção de conhecimento e, consequentemente, de capital social. Mas sem o foco na função social da notícia e na leitura crítica dos números, fatos e eventos a serem disseminados, também não há jornalismo.

Quando se fala em tecnologia, estamos nos referindo, prioritariamente, aos softwares de gestão e participação em redes sociais como o Facebook, Twitter, Google +, Ello, Linkedin, Reddit, YouTube, Flickr, sem falar no incessante lançamento de novos programas voltados para a curadoria e agregação de notícias online, como Scoop, Trove, Newsly, Feedly, Gnosy, Narrative Science, Floppy, Spotify, para mencionar apenas os mais badalados. 

A combinação adequada de tecnologia e habilidade jornalística vai variar de caso a caso porque será determinada pelo contexto social, econômico, político e cultural onde ela será aplicada. É uma exigência nova que caminha no sentido da valorização da especialização, regionalização e localidade. Só isso já quebra o grande paradigma de indústria da comunicação jornalística, toda ela baseada na concentração, hierarquia, padrões e normas de produção, linha de montagem e globalização.

O sistema fordista adotado pela esmagadora maioria das empresas de comunicação jornalística, impressa e audiovisual, busca a uniformização como instrumento para reduzir custos e erros. A globalização noticiosa permitiu que uma reportagem sobre um atentado no Iraque possa ficar mais barata que a cobertura de um protesto de rua numa cidade brasileira. Mas, por outro lado, gerou uma alienação informativa que nos leva a conhecer mais detalhes sobre as usinas nucleares japoneses do que sobre os mananciais de água que abastecem a população de São Paulo.

alienação informativa provocada pela globalização dos processos de produção noticiosa afastou o público de jornais, revistas e telejornais, levando as empresas a investirem ainda mais na tecnologia tentando compensar a queda de receitas. O jornalismo puro foi perdendo cada vez mais espaços, criando condições para que a notícia digital conquistasse cada vez mais adeptos.

As TICs (tecnologias de informação e comunicação) foram uma benção e um dilema para a indústria dos jornais, por exemplo. Se por um lado permitiram baratear os custos de produção, por outro quebraram um modelo de negócios e, principalmente, retiraram dos jornalistas o controle sobre a captação e distribuição de notícias. As empresas 100% digitais como Google e Facebook monopolizam hoje, respectivamente, a coleta de dados e a distribuição de informações. O jornalismo tende cada vez mais a ficar restrito à agregação de valor.

É na agregação de valor que ocorre a fase crítica da polêmica entre tecnófilos e tecnófobos no jornalismo. Os tecnófilos contam com o apoio velado dos produtores de softwares e dos que lucram com a redução de custos e aumento de eficiência gerados pela inovação tecnológica. Os jornalistas, herdeiros dos valores da imprensa pré-internet, não são e nem podem ser avessos aos novos recursos. Mas não há dúvida de que as TICs ameaçam um status quo profissional e consequentemente geram tensões que se manifestam na forma de argumentos teóricos contra a automação da agregação de valor às notícias.

Se levarmos em conta que a nossa sociedade é cada vez mais movida a dados (big data), e que estes dados passam a ser analisados por softwares analíticos que apontam correlações entre fatos, números e eventos, não fica difícil constatar como as máquinas estarão produzindo notícias. O projeto Laboratórios Vivos, em desenvolvimento no MIT, nos Estados Unidos, já fornece dados captados por sensores instalados em pessoais vivas. São notícias geradas por monitoramento de ações e atitudes. Caberá aos jornalistas ampliar a contextualização dessas notícias.

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