Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1014
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O jornalismo ‘preguiçoso’

Por Carlos Castilho em 16/09/2010 | comentários


Participei do programa do Observatório na TV, na terça-feira (14/9), e, enquanto debatíamos o tema Jornalismo sem Jornalistas, o telespectador Valtencir, do Pará, perguntou se os profissionais não estavam ficando mais preguiçosos em matéria de produção de informações.


A pergunta, aparentemente, estava apoiada na percepção de que a avalancha informativa provocada pela internet tornou muito mais fácil o acesso às notícias, o que estaria provocando uma burocratização da reportagem e o fato de ninguém gastar mais sola de sapato para investigar denúncias ou fatos novos.


A observação do telespectador paraense é importante porque ela nos leva a dois fenômenos que precisam ser mais discutidos. O primeiro é o de que os repórteres não saem mais às ruas, não ‘gastam mais solas de sapato’. E o segundo é a mudança de ênfases na produção de informações jornalísticas.


É fato que há proporcionalmente muito menos jornalistas nas ruas do que antes da era da internet. As razões são o enxugamento das redações pelos cortes orçamentários realizados pelas indústrias da comunicação e a presença cada vez maior dos informantes autônomos ou cidadãos que praticam atos jornalísticos, sem no entanto serem profissionais da notícia.


Numa cidade de 600 mil habitantes, um jornal médio necessitaria ao redor de 60 a 70 repórteres para cobrir minimamente os eventos e problemas que afetam a vida das pessoas morando em bairros. É óbvio que são rarissimas as empresas que podem assumir uma folha de pagamentos como esta, ainda mais levando em conta que os repórteres precisam de apoio em transportes, equipamentos e comunicações.


O cálculo foi feito com base numa média estabelecida nos Estados Unidos, de um repórter para cada 10 mil habitantes. Dependendo do local e da situação, este número pode ser ridiculamente pequeno, mas serve para efeitos de materialização dos problemas enfrentados pelas empresas. Ao mesmo tempo multiplicou-se exponencialmente o número de pessoas que têm telefone celular e câmeras digitais, bem como acesso à internet para divulgar notícias de interesse comunitário.


Se por um lado pode parecer que os jornalistas se tornaram mais preguiçosos, por outro a mudança de ênfases no processo de produção de informações jogou sobre eles uma carga extra de trabalho. A avalancha informativa obriga os profissionais a contextualizar as notícias para que as pessoas possam identificar sua relevância, atualidade e confiabilidade. Dependendo do tipo de informação, isto pode ser uma tarefa extremamente complexa a exigir até mesmo o início de uma reportagem investigativa.


Esta contextualização das informações já era necessária antes mesmo da chegada da internet, mas agora se tornou simplesmente obrigatória porque fica cada dia mais difícil separar o joio do trigo em matéria de notícia. Se vocês querem um exemplo, basta ver o noticiário sobre a campanha eleitoral brasileira. É um tiroteio informativo que nos obriga a desconfiar de tudo.


Assim, não dá para dizer que a preguiça tomou conta das redações e nem que os jornalistas trocaram as ruas pelo monitoramento de blogs, twitters, chats, fóruns e comunidades virtuais na web. Hoje, o ritmo de trabalho num jornal ou site de notícias tornou-se frenético e é justamente aí que está o problema.


Com redações cortadas até o osso, resta pouco ou nenhum tempo para a contextualização e os repórteres se concentram apenas nos eventos que garantem grandes audiências, como crimes, corrupção, tragédias e escândalos. São obrigados a pular de escândalo para escândalo e os problemas que realmente interessam à população como saúde, educação, segurança e transporte perdem relevância na pauta em favor da cobertura da luta pelo poder.


Não dá para cobrar dos jornalistas e das redações uma performance igual à dos tempos pré-internet porque a realidade mudou. Mas os leitores podem, sim, exigir uma adequação aos novos tempos e às novas necessidades informativas da sociedade.

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