Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1014
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O ‘jumbo’ de Araraquara

Por Mauro Malin em 24/07/2006 | comentários

Que boas imagens jornalísticas perderam emissoras de televisão e diários ausentes de Araraquara desde quando o furacão da reportagem – tardia e fugaz – abandonou a cidade onde a prisão mais moderna de São Paulo foi inteiramente destruída e 1,6 mil presos ficaram amontoados num pequeno espaço, sem telhado: celulares e carregadores escondidos, com requintes de perícia artesanal, dentro de uma peça de mortadela, um sabonete, uma sola de tênis, uma embalagem de pão de forma, uma rapadura moldada em torno de telefone e bateria, entre outros artifícios. As visitas estão proibidas, mas na semana passada foi autorizada a entrada de “jumbos”, pacotes de produtos levados por familiares. Na revista, alguns desses contrabandos foram descobertos.


Veja algumas fotos feitas por Sério Pierri que ilustraram reportagem de Cláudio Dias publicada hoje na Tribuna Impressa, de Araraquara, sobre a descoberta dos celulares:








Mas o caso aconteceu no mesmo período em que transcorria o julgamento do grupo Richtofen/Cravinhos. Se os grandes jornais tivessem a cabeça em cima do pescoço, e não os olhos na nuca, voltados para a televisão, teriam dado dez linhas sobre o resultado do julgamento e cento e dez linhas sobre funcionamento do júri, lei de execuções penais (os réus confessos de um assassinato horroroso como esse vão sair da cadeia dentro de poucos anos), temas de relevância social. E, principalmente, teriam mantido espaço mais amplo para a cobertura sobre o PCC, a ação policial, a situação nos presídios.


Não. Só quando houver o próximo espasmo de violência (pode estar mais próximo do que muita gente imagina, comentam alguns repórteres de polícia).


Enquanto isso, alguém tem idéia do que anda acontecendo nas cadeias paulistas? Como anda o famoso “controle”, palavra que o governador Claudio Lembo se arrependeu de ter empregado?


Não se tem idéia. É uma crônica jornalística para lá de imperfeita.


O autor da reportagem da Tribuna Impressa, Cláudio Dias, chama a atenção para o fato de que, se 12 celulares e carregadores foram detectados, “mais de cem devem ter passado”, porque a fila tinha 700 pessoas com sacolas ou pacotes.


A função dos celulares em Araraquara não é apenas permitir que presos conversem com familiares. Um grupo de direitos humanos local justificou o contrabando sob o argumento de que, se o Estado não garante a comunicação entre presos e parentes prevista em lei, os parentes precisam dar um jeito informalmente. É um argumento aparentemente amalucado. Filosoficamente, faria sentido – a lei não prevê que uma pessoa em estado de necessidade roube para comer, ou mate em legítima defesa? Faria sentido se os celulares não fossem usados para transmitir ordens – muitas vezes mortíferas – do PCC. Por sinal, dos oito integrantes do primeiro escalão do grupo listados hoje em reportagem da Folha de S. Paulo, três estavam até recentemente em Araraquara.


Eis a reportagem (copyright Tribuna Impressa):









Sérgio Pierri
Mortadela, pão, chinelo, tênis, cigarro, xampu, margarina, sabonete e até rapadura escondiam telefones celulares


Cláudio Dias


Doze aparelhos, entre celulares e carregadores, foram encontrados, esta semana, camuflados dentro de objetos, após a entrada do “jumbo” (como são chamados os produtos levados por familiares) na Penitenciária de Araraquara. Telefones foram escondidos dentro de tênis, sabonetes e até no meio de uma peça de mortadela. O material foi levado por alguns dos quase 700 visitas que formaram uma grande fila para ingressar com sacolas de roupas e comida para os parentes detidos na unidade prisional da cidade.
A Tribuna teve acesso ao material apreendido no 1º Distrito Policial (DP) que surpreendeu até os policiais em razão da criatividade dos familiares dos presos. O caso mais interessante foi um celular  colocado dentro de uma mortadela. O curioso é que, aparentemente, a embalagem não foi violada, apesar de guardar um telefone completo.


Rapadura


Em um outro caso, uma visita teve a preocupação de moldar uma rapadura ao redor do telefone e de um carregador. Para tirar o volume, só foi deixada a placa do carregador dentro do doce. Quando os agentes passaram o alimento no aparelho de raio-X encontraram o celular entre quase 200 gramas de rapadura. Em outros dois casos, pessoas esconderam telefones dentro do saco de pão de forma. O flagra ocorreu quando os funcionários manuseavam o saco e sentiram um peso extra.
Também foram barrados dois sabonetes porque guardavam um celular e um carregador com um chip. Para burlar a segurança, o visitante emendou o sabonete e lacrou a caixa. Quase da mesma forma, um outro aparelho foi encontrado dentro de um maço de cigarros. Dois xampus também não chegaram ao seu destino. A embalagem foi cortada e o telefone, guardado dentro de uma camisinha. Em outro caso, uma margarina com fundo falso guardava um telefone, também embrulhado em um preservativo.
Ainda na revista, os agentes encontraram um celular e uma bateria camuflados na sola de um chinelo e, depois, o mesmo material escondido dentro de uma sandália. Um tênis que não custou menos do que R$ 60 foi usado para ocultar um telefone e uma placa de carregador. Eles estavam na sola do calçado. Os presos e os familiares foram identificados. Os parentes podem ser punidos com a suspensão temporária da visita.


Mulheres se preparam para revista


Mulheres de presos ouvidas pela Tribuna admitiram ter errado ao tentar entrar com telefones celulares na Penitenciária. Por isso, elas sabem que a revista, esta semana, será mais rígida e muitos alimentos e produtos como tênis e chinelos devem ser barrados pela direção da unidade. Mesmo assim, elas não contam como articulam a entrada de celulares. “Tentei colocar os dois celulares dentro do  pão só que não teve muito jeito”, diz uma pessoa, cujo nome foi preservado. Os próprios agentes penitenciários reconhecem que se barraram doze aparelhos, muitos outros entraram no presídio. As esposas e mães não confirmam se droga foi levada até os internos. “Prefiro nem comentar isso aí”,  fala uma delas. (Cláudio Dias)


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