Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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‘iTunes’ de reportagens faz sucesso entre leitores e jornais

Por Carlos Castilho em 03/11/2014 | comentários

Os maiores jornais do mundo já estão com as barbas de molho porque um projeto lançado na Holanda, há menos de seis meses, pode colocar de pernas para o ar todo o sistema de acesso pago ou assinaturas online. A plataforma Blendle funciona como uma banca de jornal online, só que ela vende os artigos que interessam ao leitor, que não precisa comprar uma edição inteira só para ler um texto.

A novidade vendeu como pão quente na Holanda, onde todos os jornais e revistas de circulação nacional já fecharam parcerias com o projeto desenvolvido por um grupo de jornalistas e programadores com menos de 30 anos. A página do Blendle tem 130 mil usuários registrados, que pagam o equivalente a 20 centavos de dólar (R$ 0,60) por artigo, podendo o assinante pedir o dinheiro de volta caso não gostar do que leu, ouviu ou viu.

Empresas estrangeiras como a revista britânica The Economist , o jornal americano The New York Times e o grupo midiático alemão chefiado pelo todo poderoso Axel Springer já formalizaram parceiras com o Blendle, recebendo 70% do valor arrecadado com cada artigo vendido. Os jornalistas holandeses lançaram o seu projeto com dinheiro do próprio bolso, mas hoje já têm financiamentos assegurados no valor de 3 milhões de euros (cerca de 9,5 milhões de reais).

O mundo dos negócios da imprensa está chamado o projeto holandês de “iTunes da notícia”, numa alusão ao site iTunes, da Apple, onde o cliente pode comprar uma única música em vez de um CD inteiro. O estrondoso sucesso do iTunes acabou criando um varejo musical de grandes proporções, frequentado especialmente por jovens.

A segmentação dos conteúdos jornalísticos já é uma tendência mundial em que se destacam projetos como The MediumLong FormLongForm Stories e LongReads, que se especializaram na oferta de artigos produzidos por jornalistas, pesquisadores e escritores autônomos ou vinculados a empresas jornalísticas ou editoras de livros. São textos voltados para um público que deseja ler narrativas literárias e jornalísticas, não vinculadas a livros ou veículos de comunicação da imprensa. Curiosamente, os jovens compõem uma parcela considerável da audiência desses sites.

A multiplicação deste tipo de projeto mostra também que existem pessoas interessadas em textos mais longos que ficam a meio caminho entre a notícia do dia a dia e as grandes reportagens ou obras literárias de ficção e não ficção. The Medium distribui quase diariamente uma lista de artigos para assinantes online fornecendo como atrativo uma indicação do tempo de leitura. LongReads também estima o tempo de leitura, mas se especializou em selecionar artigos já publicados. A seleção é feita por um grupo de curadores e por sugestões dos assinantes.

Long Form, criado em 2010, é um projeto da Universidade de Pittsburgh (Estados Unidos) que oferece aos seus assinantes artigos produzidos por intelectuais e jornalistas independentes, cujos trabalhos são selecionados por uma equipe de professores acadêmicos e críticos literários. O site também publica, no formato podcast, entrevistas e depoimentos sonoros com escritores. Todos esses projetos possuem páginas web mas trabalham basicamente a partir de aplicativos para smartphones e tablets, onde está a maioria esmagadora dos seus usuários.

O sucesso dos projetos de segmentação e personalização de textos jornalísticos acelera a transformação dos jornais em núcleos de produção de conteúdos informativos em vez de empresas voltadas para a industrialização da notícia e reportagens. É mais um indício de que o modelo atual de negócio das empresas jornalísticas está se esgotando mais rápido do que imaginam os seus executivos.

É todo um conjunto de novas soluções tecnológicas que mudam hábitos de leitura e alteram radicalmente os sistemas de produção de conteúdos. São projetos que mostram como a internet não é obrigatoriamente um sistema que impõe a superficialidade e a trivialidade. Há espaço para a experiências literárias e jornalísticas mais densas, um campo que muitos consideram um privilégio exclusivo dos textos impressos.

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