Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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O leitor bem-servido

Por Luiz Weis em 18/06/2008 | comentários

Os jornais desta quarta-feira estão cheios de furos – no bom sentido –, sinal de que pelo menos um punhado de repórteres está gastando sola de sapato para ir onde interessa.

Na Folha, a repórter Denise Menchen apurou que “militares já tinham levado dois moradores do Morro da Providência para outra favela, há cerca de três meses. [Felizmente, eles conseguiram escapar.] A fonte são “motoristas que trabalham ao lado da Companhia de Comando do Exército, na Rua Santo Cristo”.

A revelação põe em xeque a teoria de que a monstruosidade praticada pelo tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade que levou à tortura e assassínio de três moradores da Providência foi um ato isolado, sem precedentes, de um “marginal”, como o chamou o governador Sérgio Cabral.

No Estado, o repórter Marcelo Auler, e, no Globo, o repórter Fábio Vasconcelos, com base em documento confidencial do Exército, demonstram ser falsa a versão da Arma segundo a qual a tropa subiu o morro apenas para dar cobertura aos engenheiros militares e trabalhadores civis ocupados com o projeto Cimento Social, de reforma de casas.

O documento de nove páginas, assinado pelo general que comanda a 9.a Brigada de Infantaria Motorizada, diz o que a tropa deve fazer na Providência, na “Operação de garantia da lei e da ordem” (GLO). Mas operações desse tipo, de evidente caráter policial, só podem ser executadas por decreto presidencial, em raras circunstâncias previstas na Constituição. “Portanto”, escreve Marcelo, “a ação militar do morro está à margem da legalidade”. Também com base nisso, movimentos de defesa dos direitos humanos querem que a Justiça mande retirar os efetivos acantonados na favela.

Ainda no Estado, o repórter Eduardo Reina apresenta ao leitor o empresário José Amaro Ramos Pinto, de “grande proximidade com políticos do PSDB. Ele se dizia “amigo fraterno” do grão-tucano Sérgio Motta, já falecido, e montou um jantar para o então ministro das Relações Exteriores Fernando Henrique, em Washington, onde ele representava o Brasil na primeira posse de Bill Clinton na Casa Branca, em 1993. Um dos comensais era um certo Jack Cizain. Ele dirigia uma certa Gec Alsthom, que virou a afamada Alstom suspeita de subornar autoridades tucanas em São Paulo. Ramos Pinto admite que trabalhou para a Alstom, mas diz que “nunca” fez intermediação de negócios. É o que o Ministério Público está investigando, segundo a reportagem exclusiva do jornal.

Mais ainda no Estado, o repórter Ribamar de Oliveira produziu a manchete do dia, ao descobrir mais um episódio suspeito no caso Varig. Pagando a taxa legal de R$ 0,84, ele obteve uma cópia do parecer do então procurador-geral da Agência Nacional de Aviação Civil, João Ilídio de Lima Filho. Datado de 11 de dezembro de 2006, quase seis meses depois da venda da VarigLog para a empresa Volo do Brasil – controlada pelo fundo americano de investimentos Matlin Patterson, com três sócios brasileiros tido como laranjas – o parecer diz que a autorização da Anac para o negócio foi uma “evidente violação” da lei.

Só que a decisão da agência, em 23 de junho de 2006, se baseou, para todos os efeitos legais, em outro parecer – emitido naquele mesmo dia pelo mesmo procurador. A então diretora da Anac, Denise Abreu, disse, primeiro ao Estado, depois no Senado, que a Casa Civil induziu Lima Filho a dar esse parecer, a ponto de pedir que deixasse o hospital onde estava internado para redigi-lo.

Têm razão os observadores Alberto Dines e Luciano Martins Costa quando criticam a imprensa pela fragmentação da cobertura do caso Varig. Falta, de fato, articular a massa de informações que pipocam nos jornais dia sim, o outro também, sobre essa história em que nenhum dos participantes parece inocente. Mas, de peça em peça, o cenário vai ficando cada vez mais alarmante. E se um dia a Justiça anular a venda da VarigLog, a compra da Varig pela VarigLog e, enfim, a compra da Varig pela Gol, a imprensa terá feito a sua parte para tal.

A propósito, no Correio Braziliense, o repórter Ricardo Brito traz outra novidade que indica como são turvas as águas em que navegam os espertos negociantes e os seus influentes patronos empenhados em destruir a Varig para salvá-la, como dizia nos anos 1960 um general americano ao explicar por que mandara bombardear uma aldeia vietnamita, suspeita de abrir guerrilheiros do Viet Cong.

A abertura da matéria:

‘O escritório de advocacia de Roberto Teixeira orientou com e-mails e fax para que o fundo Matlin Patterson, sócio estrangeiro que comprou a VarigLog, transferisse US$ 85 milhões da conta da sociedade na Suíça para a conta do fundo de investimentos sediado em Nova York. Logo após a exclusão dos sócios brasileiros da administração da VarigLog, determinada pela Justiça paulista em 1º de abril, o chinês Lap Chan voou para a sede do fundo e de lá, com a ajuda da filha de Roberto Teixeira, Valeska Martins, e do advogado Cristiano Martins, tentaram fazer a remessa desses recursos para os Estados Unidos.

Os US$ 85 milhões depositados na Suíça são parte dos US$ 320 milhões pagos pela Gol na compra da VarigLog, adquirida no início de 2007. Lap Chan costurou a operação assim que o juiz José Paulo Magano, da 17ª Vara Cível de São Paulo, responsável pelo processo de dissolução da sociedade, excluiu os sócios brasileiros do negócio por desvio de recursos e má gestão. Na prática, Magano deu ao chinês poder para administrar sozinho a sociedade, mas não para movimentar recursos para o fundo de investimentos.’

Pelo menos hoje não se pode acusar os jornais de faltar com o leitor.

Todos os comentários

  1. Comentou em 19/06/2008 marina chaves

    a imprensa faz uma confusao entre varig e variglog que eu fico perdida…. ‘os 85 milhoes de dolares depositados na suiça sao parte dos 320 milhoes de dolares pagos pela gol na compra da variglog…’ pelo o que eu sei, o que a gol comprou da variglog foi a varig , empresa que transporta passageiros…. a variglog, empresa de cargas, foi comprada muto antes pelos socios brasileiros e pelo socio chines da varig, quando ela ja tinha grandes dividas e se desfez das operaçoes de transporte de carga…… entao, tinhamos a variglog, que transportava cargas e que foi vendida, e a varig que tranportava passageiros…. quando a varig entrou na agonia final, a variglog se ofereceu para compra-la, e enquanto a decisao nao saia, o fundo de investimentos injetou dinheiro para que a varig pudesse cumprir compromissos minimos…. entao, a variglog comprou a varig, e depois a gol comprou a varig da variglog…. foi isso o que eu acompanhei pela imprensa em 2006…. eu continuo com a mesma opiniao: se o governo lula fosse serio, teria trabalhado para salvar a varig…. até eu achei engraçado outro dia o presidente lula, em discurso, reclamando da qualidade da aviaçao civli na america latina… e afirmou com pompa: que iria criar um empresa aerea estatal…. pena que isso teve pouco destaque na midia…

  2. Comentou em 19/06/2008 Ivan Moraes

    ‘(…)descobrir porque em São Paulo onde os ‘governistas’ como dizem vcs, enterram ou jogam “para debaixo do tapete” qualquer CPI que possa atingir a imagem do Serra’: corrupcao paulista requere elaborada fabricacao e manutencao de favelados. Sao Paulo eh uma fabrica de favelas que depende de acusar os ‘grotoes’ dos outros estados pra viver enquanto nega a existencia do proprio estado das coisas por la. Falando em Rio de Janeiro…

  3. Comentou em 18/06/2008 Gersier Lima

    Quero deixar bem claro que não aprovo o comportamento do tenente que supostamente entregou os três jovens para uma facção rival de uma outra comunidade.Se errou tem que ser punido e exemplarmente.Mas o que quero comentar é que esses repórteres que vc elogiou por gastar solas de sapatos para “apurar” os fatos, tivessem a mesma disposição para nos mostrar o que está acontecendo no Rio Grande do Sul e descobrir porque em São Paulo onde os ‘governistas’ como dizem vcs, enterram ou jogam “para debaixo do tapete” qualquer CPI que possa atingir a imagem do Serra.Porque não questionam nada?Porque acreditam no que falam os demos e tucanos?Dois pesos,duas medidas?Ou será porque as empresas onde trabalham querem que nesses locais ele continuem sentados e não apurem nada?A empresa onde esses repórteres trabalham não é a mesma que mandou um repórter ouvir alguém em Nova York sobre o caso Varig,mas mandou os repórteres europeus ficarem sentados no caso Metrô?
    Como diria aquele macaco,não precisa explicar,eu só queria entender.

  4. Comentou em 18/06/2008 vanda vl

    LW, voce finaliza assim: pelo menos não se pode acusar os jornais de faltar com os leitores!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Voce assina em baixo e nos garante que tudo que foi dito é VERDADEIRO ou só porque saiu nos jornais PASSOU a ser verdade ABSOLUTA.

  5. Comentou em 18/06/2008 Marco Antônio Leite

    A operação GLS não convence ninguém, na realidade o Exército esta no morro da providência a fim de levar o terror aos moradores honestos do morro em questão. Quem deve fazer incursão no morro é a polícia militar do Rio de Janeiro, há não ser que ela não tenha competência para tal finalidade.

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