Sábado, 15 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O leitor participa e gera a questão: a mídia é tola ou cúmplice?

Por Alceu Nader em 23/01/2006 | comentários

Uma das grandes virtudes do blog é a resposta imediata do leitor e sua multiplicidade de opiniões e avaliações. O comentário sobre a omissão do publicitário Nelson Biondi em reportagem da revista Veja (ler posts anteriores) construiu uma das circunstâncias pretendidas pelo Contrapauta – a da livre-exposição de idéias.


A réplica à má-criação da revista gerou dez comentários entre os leitores. O número é ínfimo se comparado a outros blogs de maior audiência, embora nem sempre o número de intervenções dos leitores acompanhe proporcionalmente o número de leitores. Assim como há os comentários de baixa audiência, mas alto coeficiente de participação, há também os que não motivam a grande parte dos leitores que acessaram a página.


Das inserções dos leitores até 18h desta segunda-feira, quatro animaram as linhas abaixo.


O administrador Célio dos Santos, de Curitiba, chama a atenção para um aspecto interessante da cruzada das grandes empresas de mídia: indignação e ‘certo clima de piedade’, que resultam em tomada de posição reversa à opinião predominante do noticiário. O malufismo é um desses exemplos, mas não vem ao caso explorá-lo aqui.


Célio dos Santos conta:



‘Esta semana numa pizzaria ouvi um bate-papo, em que várias pessoas se mostravam indignadas com o tiroteio da revista Veja sobre o governo Lula. Havia um certo clima de piedade, tipo: ‘ele não fez grande coisa, mas não merece isso…’. Um senhor, mais revoltado, disse: ‘Votei no Serra, mas dessa vez vou votar no Lula, só pra contrariar esse pessoal da Veja… Detesto ser manipulado!’. Não sei quantos pensam como este senhor, mas de uma coisa eu sei, o brasileiro tem por hábito torcer pelos ‘mais fracos’.’


A observação do leitor serve como conselho não só aos profissionais de mídia que influenciam na formação da opinião pública (muitas vezes os veículos confundem suas opiniões com a do público, mas isso também é outra história), como também à despudorada categoria dos políticos brasileiros.


A crise política, com ativa participação da mídia, fez com que noticiário atual esteja impregnado da impudência de líderes políticos. Ontem, esses senhores eram personagens de tenebrosas transações com dinheiro público; hoje, nas mesmas páginas, são vestais de ilibado comportamento. O prontuário anterior é ignorado, e vence a superficialidade. Para figurar na imprensa, basta uma frase espirituosa ou um discurso violento. O que fizeram e embolsaram caiu na desmemoria.


Para o leitor, que não é bobo nem personagem idiota de história em quadrinhos, esse ‘esquecimento’ soa como cumplicidade.


O empresário Welington Heringer, de Belém, credita ao jornalista-responsável pelo Contrapauta o elogioso adjetivo de ‘isento’. Com todo respeito à avaliação postada, a isenção não existe. Não há como não imprimir a visão pessoal na interpretação ou relato de qualquer fato. É inescapável. Como diz o velho ditado, há pelo menos três versões em qualquer relato: a minha, a sua e a do outro. O jornalista honesto cede espaço no que escreve às opiniões e conclusões que não são exclusivamente suas; o desonesto, no extremo, segue orientações superiores e deforma a realidade para enquadrá-la em uma opinião que nem dele é.


O jornalista José Edi Nunes da Silva, de Porto Alegre, envia estímulos para que o Contrapauta ‘desmascare semanalmente’ as manipulações da revista Veja.

Já a engenheira Regina Alves Pereira, Cascavel, no Oeste do Paraná, observa, com propriedade, que ‘está ficando chato ler o Contrapauta‘, porque não passa uma semana sem citar a revista Veja. ‘Não é mais jornalismo, é pinimba mesmo’, julga Regina. O jornalista-responsável pelo Contrapauta confessa que as incongruências da semanal amargam mais seu fígado do que os demais veículos. A constante citação da revista poderia ser justificada com o argumento de que, sendo a maior em circulação do país, merece estreita vigilância. Não por ressentimentos ou coisa que o valha – não há um único fato desabonador, rancor ou inimizade que possa ser citado –, mas há a força de laços sentimentais atados nas duas passagens do responsável pelo blog pela revista.


Regina chama ainda a atenção para uma das grandes indecências ocorridas na semana passada – o da pesquisa de preferência eleitoral encomenda pela revista Istoé ao Ibope.


Relembrando, os jornais divulgaram num dia os resultados da pesquisa limitada ao primeiro turno, mas, no dia seguinte, descobriram que o serviço também incluía sondagem sobre a preferência do eleitor no segundo turno. Mais ainda, como a própria Veja deu nobre destaque, as perguntas do questionário do Ibope privilegiavam o pré-candidato Anthony Garotinho, hoje no PMDB.


Obrigado à leitora por criar a oportunidade. As pesquisas eleitorais viraram produto de ocasião para políticos que com intenções malignas de manipulação do eleitorado e da mídia. O fato em si é escandaloso. O que causa estranheza é o silêncio dos editoriais contra a manobra.


Como ocorre na projeção de ex-corruptos fantasiados de vestais, a mídia pode estar no papel de cúmplice do bandido.

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