Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

O leitor participa e gera a questão: a mídia é tola ou cúmplice?

Por Alceu Nader em 23/01/2006 | comentários

Uma das grandes virtudes do blog é a resposta imediata do leitor e sua multiplicidade de opiniões e avaliações. O comentário sobre a omissão do publicitário Nelson Biondi em reportagem da revista Veja (ler posts anteriores) construiu uma das circunstâncias pretendidas pelo Contrapauta – a da livre-exposição de idéias.


A réplica à má-criação da revista gerou dez comentários entre os leitores. O número é ínfimo se comparado a outros blogs de maior audiência, embora nem sempre o número de intervenções dos leitores acompanhe proporcionalmente o número de leitores. Assim como há os comentários de baixa audiência, mas alto coeficiente de participação, há também os que não motivam a grande parte dos leitores que acessaram a página.


Das inserções dos leitores até 18h desta segunda-feira, quatro animaram as linhas abaixo.


O administrador Célio dos Santos, de Curitiba, chama a atenção para um aspecto interessante da cruzada das grandes empresas de mídia: indignação e ‘certo clima de piedade’, que resultam em tomada de posição reversa à opinião predominante do noticiário. O malufismo é um desses exemplos, mas não vem ao caso explorá-lo aqui.


Célio dos Santos conta:



‘Esta semana numa pizzaria ouvi um bate-papo, em que várias pessoas se mostravam indignadas com o tiroteio da revista Veja sobre o governo Lula. Havia um certo clima de piedade, tipo: ‘ele não fez grande coisa, mas não merece isso…’. Um senhor, mais revoltado, disse: ‘Votei no Serra, mas dessa vez vou votar no Lula, só pra contrariar esse pessoal da Veja… Detesto ser manipulado!’. Não sei quantos pensam como este senhor, mas de uma coisa eu sei, o brasileiro tem por hábito torcer pelos ‘mais fracos’.’


A observação do leitor serve como conselho não só aos profissionais de mídia que influenciam na formação da opinião pública (muitas vezes os veículos confundem suas opiniões com a do público, mas isso também é outra história), como também à despudorada categoria dos políticos brasileiros.


A crise política, com ativa participação da mídia, fez com que noticiário atual esteja impregnado da impudência de líderes políticos. Ontem, esses senhores eram personagens de tenebrosas transações com dinheiro público; hoje, nas mesmas páginas, são vestais de ilibado comportamento. O prontuário anterior é ignorado, e vence a superficialidade. Para figurar na imprensa, basta uma frase espirituosa ou um discurso violento. O que fizeram e embolsaram caiu na desmemoria.


Para o leitor, que não é bobo nem personagem idiota de história em quadrinhos, esse ‘esquecimento’ soa como cumplicidade.


O empresário Welington Heringer, de Belém, credita ao jornalista-responsável pelo Contrapauta o elogioso adjetivo de ‘isento’. Com todo respeito à avaliação postada, a isenção não existe. Não há como não imprimir a visão pessoal na interpretação ou relato de qualquer fato. É inescapável. Como diz o velho ditado, há pelo menos três versões em qualquer relato: a minha, a sua e a do outro. O jornalista honesto cede espaço no que escreve às opiniões e conclusões que não são exclusivamente suas; o desonesto, no extremo, segue orientações superiores e deforma a realidade para enquadrá-la em uma opinião que nem dele é.


O jornalista José Edi Nunes da Silva, de Porto Alegre, envia estímulos para que o Contrapauta ‘desmascare semanalmente’ as manipulações da revista Veja.

Já a engenheira Regina Alves Pereira, Cascavel, no Oeste do Paraná, observa, com propriedade, que ‘está ficando chato ler o Contrapauta‘, porque não passa uma semana sem citar a revista Veja. ‘Não é mais jornalismo, é pinimba mesmo’, julga Regina. O jornalista-responsável pelo Contrapauta confessa que as incongruências da semanal amargam mais seu fígado do que os demais veículos. A constante citação da revista poderia ser justificada com o argumento de que, sendo a maior em circulação do país, merece estreita vigilância. Não por ressentimentos ou coisa que o valha – não há um único fato desabonador, rancor ou inimizade que possa ser citado –, mas há a força de laços sentimentais atados nas duas passagens do responsável pelo blog pela revista.


Regina chama ainda a atenção para uma das grandes indecências ocorridas na semana passada – o da pesquisa de preferência eleitoral encomenda pela revista Istoé ao Ibope.


Relembrando, os jornais divulgaram num dia os resultados da pesquisa limitada ao primeiro turno, mas, no dia seguinte, descobriram que o serviço também incluía sondagem sobre a preferência do eleitor no segundo turno. Mais ainda, como a própria Veja deu nobre destaque, as perguntas do questionário do Ibope privilegiavam o pré-candidato Anthony Garotinho, hoje no PMDB.


Obrigado à leitora por criar a oportunidade. As pesquisas eleitorais viraram produto de ocasião para políticos que com intenções malignas de manipulação do eleitorado e da mídia. O fato em si é escandaloso. O que causa estranheza é o silêncio dos editoriais contra a manobra.


Como ocorre na projeção de ex-corruptos fantasiados de vestais, a mídia pode estar no papel de cúmplice do bandido.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/02/2006 José Carlos Figueira

    A mídia não é tola, mas sim; cúmplice, a mídia só ataca quem está no poder maior, porque para eles quanto mais pior melhor, não entendo poucos comentam ‘a tal lista de furnas, falça ou não’, sabem porque?… tem muita gente graudas, os verdadeiros caciques da lama política que sempre esconderam a prodidão e que viveram as custas da nação; fazendo de todos nós idiotas.
    Parece até que a imprensa televisionada protegem os grandes. Quando um aparecem algem que pensa em proteger o pobre, está sendo contra a elite.

  2. Comentou em 29/01/2006 Helmuth Klugfuss

    Olha, falar da imprensa brasileira é fácil. Os jornalões são realmente coisa de louco em termos de censura. Não deixam mesmo qualquer jornalista tentar ter uma atitude isenta e crítica frente a qualquer assunto ou tema, se não render algo ou alguma acusação contra o Governo Federal. Mas isso não é novidade. Os donos de jornalões são assim mesmo. Nojento, ‘schiffoso’ mesmo, é o jornalista de aluguel , o bajulador do prefeito, do governador, do senador….de outro estado…Um exemplo dessa espécie é modernamente apontado por todos os frequentadores de blogs: o Ricardo ‘Magalhães’ Noblat. Êta sujeitinho viscoso! Como pode puxar o saco do ACM desse jeito! E ainda por cima, com aquele enorme ‘banner’da Bahiatursa no seu blog, como se sabe, o orgão estadual de turismo que foi gatunado em somente R$ 104 milhões segundo relatório que descansa em alguma gaveta do TCE Baiano.E que a Carta Capital já cansou de revelar, sem sucesso. Ou melhor, com muito sucesso comercial , já que a edição de duas semanas atrás desapareceu das bancas antes que pudesse ser lida, comprada que foi pelo ‘carlismo’. O pior é que Noblat apenas imita seu Mestre, Alberto Dines, que no tempo do reinado de Jaime Lerner, era pago a peso de ouro, hospedando-se nos cinco estrelas de Curitiba para falar bem do ‘genial’ flibusteiro que quase quebrou o Estado do Paraná na imprensa carioca e paulista. ‘Quosque tandem…

  3. Comentou em 25/01/2006 fernando yassu

    Alceu, eu pensei que a Veja fazia um mal jornalismo por incompetência, mas, pela persistência, faz um mal jornalismo por má fé. Era assinante não só da Veja mas também da Exame. Deixei de ser assinante e comecei a comprar as edições na banca. Hoje, nem isso. A Veja e Exame nos tratam como se todos não tivéssemos cabeças para pensar e formar juízo dos assuntos.

    Fernando

  4. Comentou em 25/01/2006 Ide Pereira

    Não senhores, a mídia não é tola. Ela tenta a todo custo manipular opiniões, e consegue até certo ponto, pois pessoas há que acreditam piamente em tudo que lêem, ouvem, sem analisar, pensar, procurar informações outras que não sejam as de revistas e tvs manipuladoras…Mas ainda resta uma esperança, pois dentro do quarto poder, há os que realmente são dignos, coerentes,se esforçam para informar a verdade, a esses D. Quixotes modernos o nosso reconhecimento!!!!!!!!

  5. Comentou em 25/01/2006 Célio dos Santos

    Alceu,

    Agradeço pelo destaque dado ao meu comentário. Fico feliz em saber que aqui os comentários são lidos, o que não acontece em muitos outros blogs.
    Aproveito para acrescentar algo ao meu comentário anterior.
    As pessoas naquela pizzaria estavam perplexas com a 1a. VEJA do ano, que tinha na capa um garoto e falava do aprendizado com video-games, tvs, computadores, etc.
    Essa VEJA critica Lula em matérias que nada tem haver com política:
    1.A matéria da capa, que fala sobre educação, aproveita para criticar o filho do Lula.
    2.A matéria sobre literatura, critica um livro e diz que Rosinha Garotinho deu este livro para Lula, e aproveita para afirmar que Lula não gosta de ler.

    Quem pegar a 1a. Veja de 2006, poderá confirmar como o nome de Lula aparece de maneira difamatória uma infinidade de vezes e em várias matérias distintas.

  6. Comentou em 24/01/2006 eric issao

    Diariamente,ha mais de um ano e meio,a primeira coisa que faço quando ligo o computador é acessar os sites e blogs de noticias e este observatório é e continua sendo o primeiro que leio antes dos outros.Da para contar nos dedos de uma mão os comentarios que ja postei neste site,mas creio eu, que sao raros os dias em que não comente com amigos,familia , colegas de trabalho e ate no orkut o que leio aqui e em outros sites.
    A abrangencia e repercussão do que se escreve neste site é infinitamente maior,do que os posts aqui colocados dão a entender.
    A decepção com este governo e com os politicos de uma forma geral é e sempre foi muito grande, a novidade é que esta decepção esta contaminando a credibilidade dos orgãos de imprensa escrita que sempre levantaram a bandeira de independentes,mas agora que são grandes conglomerados,ficaram miopes.
    Perderam o foco,o rumo,depois perderão os leitores, consequentemente o mercado, e por fim os lucros.
    Lucros estes que foram a unica razão destes jornais e revistas se tornarem grandes conglomerados…

  7. Comentou em 24/01/2006 Antonio Luiz Teixeira

    Por quaisquer avenidas que se transite por São Paulo ver-se-á em outdors que o Serra faz a mais intensa e propalada campanha de tapa-buracos na cidade. Está certo, mesmo em época de chuvas? Está! Há corrupção com empreiteiras? Não! Elas só faturam pelo que foi exatamente executado e medido! Por quê suspeitar? Serra é do ‘bem’.
    Pelo Brasil afora a operação de restauro das BRs, chamada de ‘tapa-buraco’ pela oposição e pela mídia, é inoportuna e burra, pois ocorre em período chuvoso e mais, é corrupta, pois as empreiteiras sobrefaturam no efetivado e medido. Neste caso, ainda bem, atendendo os aclamos da vigilante mídia, deputados, senadores, TCUs e MPs estão de olho.
    A mídia é apenas tola?
    Acho que não. É partidarizada e tem sua ideologia, seu lado.

  8. Comentou em 24/01/2006 eric issao

  9. Comentou em 24/01/2006 Haroldo M. Cunha

    Sr. Alceu, sobre somente 10 leitores externarem sua opinião você já disse: Eu só estou escrevendo esse para corrobora seu texto, ficar opinando sobre tudo fica maçante, por isso sei de várias pessoas que comentam seu blog comigo e jamais escreveram uma linha sequer para um comentário. Quantidade não é qualidade!!
    Continue assim.

  10. Comentou em 24/01/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Lentamente as pessoas descobriram que a Internet é uma ferramenta mais democrática do que o voto. Três são as razões para este fenônemo: 1º os partidos são matilhas em que o cidadão comum não tem a menor possibilidade de expressar sua opinião e se o fizer a mesma será desconsiderada pelos ‘donos’ das agremiações; 2º o voto é obrigatório de maneira que somos constrangidos a legitimar um sistema político no qual não podemos interferir; 3º as hipóteses de participação popular na adminitração do Estado são irrisórias e mesmo aquelas que existem (como a iniciativa legislativa popular) ficam na dependência da aprovação das matilhas políticas que controlam o Estado. Na Internet não precisamos de representantes, portanto, o poder deles é nulo. Já existem condições técnicas para que a democracia volte a ser direta como foi na Grécia de Péricles. Afinal, qualquer cidadão conectado está ou pode ficar em condições de apresentar suas propostas aos órgãos públicos e votar nas decisões legislativas e judiciárias. Mas não creio que as matilhas que controlam os três poderes tenham interesse em abandonar os pedestais e, principalmente, as verbas que administram como se fossem suas.

  11. Comentou em 23/01/2006 Eduardo Guimarães

    O senhor acertou na mosca: a mídia – e não só a imprensa escrita – subestima o público. Será possível que todo mundo é descerebrado neste país e esqueceu do por que elegemos Lula? Será que todo mundo esqueceu de todas as tragédias que caracterizaram a Era FHC? Será possível que alguém acredita quando lê Alberto Dines dizer que ‘Lula massacra a imprensa’? É inacreditável como a mídia subestima seu público. Acredita-nos, de fato, Homers Simpsons, no máximo. Confunde os que sempre foram anti-Lula e anti-PT com a parte da população que só torce para times de futebol e para suas vidas melhorarem e por isso não têm o ódio das elites à esquerda, e que não gosta de ser ofendida como é quando a mídia classifica como imbecil alguém que emula a maioria esmagadora dos brasileiros, como acontece com o presidente Lula.

  12. Comentou em 23/01/2006 Humberto Amadeu Capellari

    Talvez seja tola, na medida em que se acha muito esperta ou se leva tão a sério.Porém, dado que torna-se protagonista no jogo, é cúmplice, já que nota-se possuir interesses obscuros.
    Claro que ‘mídia’ engloba diversos veículos, até mesmo aquela chamada ´alternativa´ ou ´indepedente´, geralmente tendendo à esquerda.
    Creio que o problema – apesar de nem sempre conseguir enxergar aquilo que os profissionais do ramo vêem, portanto baseio-me em minhas impressões,que são superficiais, como convèm a um leigo – é de ordem moral.Aloísio Biondy dizia que os jornais – acentuadamente no período FHC, reforço eu – invertiam as coisas, criavam manchetes que pouco tinham a ver com o texto,
    ocultavam o principal, a verdadeira informação ‘nas ultimas quatro linhas’ entre outras manobras para manter o público leitor desinformado ou levemente (bem levemente) a par dos assuntos fundamentais que lhe diziam respeito.Mas, mesmo nas últimas quatro linhas, lá estava a informação.
    Atualmente, pouco se percebe destas práticas.
    Foram substituídas por invenções movidas a ma-fé(quando não mentiras descaradas), falta total de escrúpulos, perseguições, despreocupação quanto à veracidade dos fatos e dados apresentados, daí prá pior.
    Reportagens publicadas que parecem saídas dos piores momentos do stalinismo ou de algum delírio kafkiano, tal o grau de manipulação intencional ou de incoerência e absurdo.

  13. Comentou em 23/01/2006 Cesar Pereira

    Estamos, sim, atentos. A mídia, nesta década, não é tola, é cúmplice dos donos das redações, dos inventores de ‘verdades’, dos vestais da moralidade com seus rabos encobertos por penas de pavão. E à leitora Reginademeutambémsobrenome uma observação: chato mesmo de ler é a destemperada catilinária da Veja e de alguns apaniguados. Mas, mesmo que chato, leiamos, leiamos todos. A mentira, mesmo que intensamente publicada, um dia escorrerá em vermelho das páginas dos que a criam. Cabe-nos, como leitores, exercer nossa opinião crítica. E permaneçamos atentos. E permaneceremos atentos. A história não tem a limitação da curta semana em que revistas como a Veja distilam seu veneno. A história é escrita, para sempre, pela multiplicidade dos eventos, atos e atitudes, dos que, com dignidade, a escrevem (e bem sabem ler e digerir).

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