Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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O maior problema da Terra pode ser ainda pior

Por Luiz Weis em 24/02/2006 | comentários

Com medo de parecerem ecochatos, os editores de Ciência dos maiores jornais e revistas só a conta-gotas publicam matérias sobre o que sem dúvida é o maior problema da Terra: o aquecimento global produzido pelo efeito estufa. É o aprisionamento na atmosfera do calor solar que se dissiparia naturalmente, não fossem as emissões colossais de gás carbônico resultantes do uso maciço de derivados de petróleo. Daí o nome gases estufa.

Mesmo na semana do primeiro aniversário da entrada em vigor do Protocolo de Kyoto contra o aquecimento global – sem que houvesse nada a comemorar, como assinalou a Folha – parece que faltou “vontade jornalística” para levar ao leitor as descobertas científicas mais recentes sobre a calamidade que “viaja na pista expressa” da Terra, para citar uma metáfora comum entre os pesquisadores.

Nenhum jornal brasileiro registrou, por exemplo, a descoberta de um especialista em paleoclimatologia [estudo da história antiga do clima terrestre] segundo o qual a atividade humana libera gases de estufa num ritmo 30 vezes mais veloz do que o das mesmas emissões que desencadearam um período de extremo aquecimento global, no passado do planeta.

Por isso, achei que era o caso de transcrever os principais trechos da matéria sobre o assunto, publicada no site americano de divulgação científica Physorg

Sei que não é a leitura pré-carnavalesca ideal, mas, ainda assim, lá vai, até por ser exemplo de jornalismo científico bem feito e acessível ao leitor medianamente preparado:

“As emissões que causaram esse episódio passado de aquecimento global provavelmente duraram 10 mil anos. Ao queimar combustíveis fósseis, provavelmente emitiremos o mesmo volume nos próximos três seculos”, diz James Zachos, professor de ciências da terra na Universidade da Califórnia em Santa Cruz.

Zachos apresentou suas descobertas esta semana na reunião anual da Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS, na sigla em inglês) em Saint-Louis, Missouri.

Ele é um dos principais especialistas no episódio de aquecimento global no período paleoceno-eoceno, quando as temperaturas globais subiram 5 graus C. Essa mudança abrupta no clima terrestre ocorreu há 55 milhões de anos, em consequência de uma liberação maciça de carbono na atmosfera, sob a forma de dois gases estufa: metano e dióxido de carbono.

Estimativas anteriores falavam na emissão de 2 trilhões de toneladas de carbono, mas Zachos mostrou que mais do que o dobro disso – cerca de 4,5 trilhões de toneladas – pairaram na atmosfera durante 10 mil anos. Se a presente tendência se mantiver, o mesmo volume de carbono será emitido nos próximos 300 anos pela indústria e os veículos movidos a derivados de petróleo, explica Zachos.

A partir do momento em que o carbono penetra na atrmosfera, leva muito tempo até que os mecanismos naturais, como a absorção pelos oceanos e as mudanças na estrutura das rochas, removam o excesso de carbono do ar e o depositem no solo e em sedimentos marinhos.

O desgaste das rochas terrestres remove permanentemente do ar o dióxido de carbono, mas o processo é lento, requerendo dezenas de milhares de anos. O oceano absorve o dióxido de carbono muito mais depressa – porém só até certo ponto. O gás primeiro se dissolve na fina camada superficial da água, mas esta logo fica saturada, diminuindo a sua capacidade de absorver mais gás carbônico.

Apenas a mistura com as camadas oceânicas mais profundas pode restaurar a capacidade da superfície de absorver mais dióxido de carbono da atmosfera. Mas os processos naturais que misturam e fazem circular a água entre a superfície e camadas mais profundas do oceano funcionam muito devagar. Um completo ciclo desses leva de 500 a mil anos, informa Zachos.

As emissões de gases estufa que desencadearam o episódio no passado remoto da Terra conhecido como PETM [Paleocene-Eocene Thermal Maximum] inicialmente excederam a capacidade de absorção do oceano, permitindo o acúmulo de carbono na atmosfera.

Infelizmente, os humanos parecem adicionar dióxido de carbono ao ar em ritmo muito mais veloz: aproximadamente o mesmo volume de carbono (4,5 trilhões de toneladas), mas em poucos séculos em vez de 10 mil anos. O que foi emitido há 55 milhões de anos ao longo de um período de aproximadamente 20 ciclos oceânicos é agora emitido numa fração de um único ciclo.

“O ritmo com que o oceano absorve carbono logo diminuirá”, diz Zachos.

Não bastasse isso, é possível que temperaturas mais altas retardem o processo de mistura no oceano, reduzindo ainda mais a capacidade das águas de absorver dióxido de carbono. Daí resultaria um processo de realimentação que preocupa os climatologistas: menos absorção, mais dióxido de carbono deixado no ar, mais calor.

Temperaturas oceânicas mais elevadas também poderiam liberar lentamente volumes maciços de metano congelado em depósitos marinhos. Um gás de estufa 20 vezes mais potente que o dióxido de carbano, a presença acrescida de metano na atmosfera aceleraria ainda mais o aquecimento global.

Essa realimentação ou “efeito limiar” deve ter se feito sentir no passado, acredita Zachos, e isso pode se repetir. É possível que já estejamos nos estágios iniciais de uma mudança climática similar, afirma.

“Registros de mudanças climáticas passadas mostram que a transformação começa devagar e depois se acelera”, comenta. “O sistema atravessa uma espécie de limiar.”

Pistas sobre o que aconteceu antigamente jazem nos sedimentos das profundezas do mar, que Zachos e seus colegas vêm pesquisando. Composto principalmente de barro e conchas carbônicas de microplâncton, o sedimento se acumula lenta, mas constantemente – à razão de até 2 centímetros por milênio. A camada depositada no aquecimento do período paleoceno-eoceno conta uma história clara e convincente de mudança súbita e recuperação lenta.

As pesquisas de Zachos levaram-no a estimar que levou 100 mil anos depois daquele episódio até os níveis de dióxido de carbono no ar e na água voltarem ao normal. Essa descoberta é consistente com o que os geoquímicos têm previsto a partir de modelos que simulam a resposta do ciclo global de carbono a emissões de dióxido de carbono resultantes da queima de combustíveis fósseis.

“Levará dezenas de milhares de anos antes que o dióxido de carbono na atmosfera volte aos níveis anteriores à era industrial”, sustenta Zachos. “Mesmo que cessemos de queimar combustíveis fósseis, os efeitos das queimas acumuladas serão de longa duração.”

***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/03/2006 Patricia Lopes Galassi Galassi

    Pior que isto é sentir-se triste de imaginar um futuro como este que se apresenta para as futuras geraçoes, nosso filhos e netos parecem padecer de um terrivel fim, o amargedon da biblia é muito menos aterrorizante no que diz respeito ao futuro da humanidade.
    Nem nostradamus pode supor algo tao terrivel quanto ao efeito estufa de que todos os cientistas falam e predizem, nós os humanos padecemos de todas as formas das dores insuportaveis do aprendizado forçado a que nos levam a aprender atraves de nossos proprios erros.
    Até quando suportaremos ou vamos nos sucumbir e nos levar a morte por pura incompetência, a vida é pela vida, e até os dinossauros foram extintos pela vida em prol de outra vida.
    Sera este o nosso destino? Enquanto isto o homem sobe as alturas procura outras vidas em outros planetas, sendo que não consegue ao menos dar conta da vida deste em que esta.

  2. Comentou em 07/03/2006 João Mutaf

    Notei, como em outras publicações, uma tendência maior ao cetiscismo que à crença diante de afirmações de cientistas acerca das possíveis (prováveis?) conseqüências da ação humana sobre o planeta. Chama a atenção o ímpeto com que alguns se põem ‘contra’ os alertas (ímpeto equiparável à própria veemência das matérias que criticam), numa atitude que nos remete a análises psicanalíticas: ‘o medo de que seja tudo verdade faz a pessoa negar a ´realidade´ dos fatos, invertendo as probabilidades’. Assim, fazem parecer mais provável estar errada a ciência do que nós, leigos e curiosos (no melhor sentido). Não que a ciência esteja sempre certa; é que ela pode não estar errada, mesmo quando suas afirmações nos põem contra a parede de nossos medos. Uma atitude científica é necessária justamente por isto: para evitar as decisões irracionais, místicas, baseadas muito mais naquilo que gostaríamos que fosse do que naquilo que é necessário que seja.
    Assim como aprendemos a duras penas, ao longo de séculos de dependência ‘espiritual’, que não devemos nos deixar cegar por dogmas religiosos, tampouco devemos nos deixar cegar pela luz da ciência, pois o que hoje é cientificamente verdadeiro poderá não sê-lo amanhã. Isto não porque a verdade científica era falsa, mas porque as condições do mundo terão mudado (as da Terra idem). E terão mudado porque no meio de tudo estão as políticas dos humanos.

  3. Comentou em 03/03/2006 Cristina França

    O problema não é da Terra, é do homem. E este não conta séculos, conta segundos na velocidade da Internet, depois do acontecido.
    Alguém vai chorar antecipado?

  4. Comentou em 27/02/2006 Thomaz Magalhães

    Não concordo que os grandes veículos não falem , especialmente sobre o aquecimento da Terra. Uma olhada mais atenta mostra que o assunto é abordado à exaustão. Mais ainda em publicações de entretenimento, nas revistas especializadas em ‘vida moderna’ e quetais.

    Mas não confio na qualidade dessas matérias. Porque são enquadradas sempre no espírito ecológico do ‘bem’, que não dá a mínima para a verdade, ou para o contraponto. Essa, por exemplo, e nada a ver com o autor, mas com o estudo do ‘cientista’, que não fala, não compara que a produção dos gases via combustíveis fósseis é SEMPRE e MUITO menor que a de origem animal. Que, portanto, a solução seria matar seres vivos, o que é uma sinuca de bico.

    Criticam os EUA por não entrarem nessa do protocolo miojo, e não explicam que o fazem por não acreditar eficiente a meta. Acham que o avanço tecnológico na produção de máquinas e produtos diminuirá a produção de gases inconvenientes de forma mais efetiva.

    Esse tipo de informação não ‘rola’ na grande mídia, que prefere o estilo greenpeace, panfletário e pouco eficiente. Exemplo: petróleo, fóssil, substituido por hidrogênio como combustível. Não vai demorar para a tecnologia ser aplicada comercialmente. E o resultado serão bilhões de metros cúbicos de petróleo abandonados embaixo da terra, por falta de demanda. Mas a bicharada continuará comendo, arrotando e flatulando.

  5. Comentou em 25/02/2006 Alamir Rodrigues Rangel Jr

    No trexo:

    ‘Estimativas anteriores falavam na emissão de 2 trilhões de toneladas de carbono, mas Zachos mostrou que mais do que o dobro disso – cerca de 4,5 trilhões de toneladas – pairaram na atmosfera durante 10 mil anos. Se a presente tendência se mantiver, o mesmo volume de carbono será emitido nos próximos 300 anos pela indústria e os veículos movidos a derivados de petróleo, explica Zachos.’

    O pesquisador se esqueceu que as reservas de petróleo só durarão no máximo 80 anos, então a tendência é que as emissões de carbono nos próximos século diminuam, certo? A respeito do circulo vicioso que agravaria o efeito estufa, o pesquisador está se baseando em modelos teóricos, não se pode saber de fato o que irá acontecer, a terra já passou por outros períodos de aquecimento, e nem por isso a vida deixou de existir. Acho um pouco catastrófico demais as considerações levantadas.

  6. Comentou em 24/02/2006 Celso Chino

    As pessoas comuns,que não têm uma formação científica mínima,imaginam que a Ciência Moderna lida com certezas absolutas,como se fosse uma nova religião(minúscula mesmo!). Isto é um crasso erro,fruto da projeção de ideais Religiosos profundos(Jung fala em ‘instinto religioso’,algo comum a todos) em alvo errado,devido à ‘morte de todos os deuses'(Nietzsche) na Sociedade Ocidental Moderna,morte que deixou um vazio tremendo no interior de grande parte da população daqui.Assim sendo,os resultados publicados em revistas científicas devem ser lidos com cautela,devemos aplicar a eles o mesmo ceticismo/criticismo que tanto cultivam os cientistas,pois estes não são deuses nem profetas mas experimentadores guiados por paradigmas,teorias… A Ciência Moderna lida com hipóteses, PROBABILIDADES,e raras certezas(leiam ‘O Fim das Certezas’ do grande físico Ilya Prigogine),portanto as conclusões do artigo citado pelo Weis são HIPOTÉTICAS e podem ser revistas a qualquer momento(assim como o tal de Inverno Nuclear sumiu das especulações acadêmicas por inconsistência).O artigo não traz nada de muito original,mas mal lido pode alimentar a histeria dos eco-terroristas que desejam voltar à taba.Lembro por fim que as Ciências Ambientais ainda estão na pré-história,são um bêbê de poucas décadas.

  7. Comentou em 24/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    Os ecologistas e jornalistas que medrontam a população com esta história de armagedom provocado pela queima de combustíveis fósseis (proporcionando plataformas a políticos demagogos que usam o temor para obter o voto do eleitor amedrontado) deveriam estudar um pouco de geologia. Em escala geológica nada do que está ocorrendo agora é tão importante. Desde que a terra existe bilhões de espécies surgiram e entraram em extinção. Extinções naturais continuam ocorrendo e ocorrerão naturalmente no futuro. Eventualmente nossa própria espécie pode entrar em extinção caso outra mais apta se desenvolva e comece a competir conosco nos mesmos nichos ecológicos. Na pré história a terra era mais quente do que hoje. Já passou por glacioações. O formato dos continentes já foi outro e daqui a alguns bilhões de anos é bem possível que estejam rearumados. O mar de Tétis era o dobro do Mediterâneo, que tende a desaparecer quando a África encostar na Europa (hipótese que deixa os europeus racistas bastante anciosos). Portanto, sugiro ao autor do artigo MENOS ecologia e MAIS geologia, quem sabe assim possa fazer uma GENALOGIA do surgimento e do desenvolvimento da ecochatismo (que é uma versão requentada do antropocentrismo europeu do século XIX).

  8. Comentou em 24/02/2006 Luia Antônio Puton

    Com o que já possímos de tecnologia, seria possível absorver parte dese dióxido?
    Se fosse possível, o que fazer com o produto ‘armazenado’?

  9. Comentou em 24/02/2006 taciana oliveira

    É aterrorizante, principalmente se se levar em conta que não há muita alternativa de solução imediata e que quem mais poderia fazer alguma coisa( USA, p.e.)não está interessado.
    O modo de vida atual do predador humano não nos faz vislumbrar o’como’parar esse processo, principalmente porque em decorrência das mudanças climáticas já provocadas por ele, maiores quantidades de matéria poluidora serão jogadas no ar cada vez mais.
    O que não ví até agora e tenho grande curiosidade sobre o asssunto, é se existem estudos sobre alteração no peso da terra, reacomodação de camadas e outras coisas, em decorrência da extração cada vez maior de minerais, inclusive os fósseis.
    Quem não leu, seria interessante ler um livro de Isaac Asimov chamado ‘Fundação’, principalmente no tocante ao aspecto físico do planeta Terra, para aumentar ainda mais o medo.
    Bom carnaval!

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