Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CÓDIGO ABERTO >

O marketing dos cadáveres políticos

Por Carlos Castilho em 23/10/2011 | comentários

Agora virou moda. Depois do romeno Nikolai Ceausescu, do iraquiano Saddam Hussein, do saudita Bin Laden, coube agora ao líbio Muammar Kadhafi o triste privilégio de aparecer nas primeiras páginas de quase todos os jornais do mundo na condição de cadáver. São fotografias chocantes de mortos ilustres, apresentados como troféu pelos supostos vitoriosos, mas que na realidade demonstram uma inequívoca preocupação com vingança.
 

O fuzilamento de Ceausescu, o enforcamento de Saddam e as execuções de Bin Laden e Kadhafi foram registradas — em sua maioria por celulares — por pessoas mais interessadas em faturar do que em registrar momentos históricos. Daí a escassa preocupação com a ética e os mínimos sentimentos de sensibilidade humana na hora de exibir corpos desfigurados de personagens caídos em desgraça.
 

No caso de Kadhafi, o dirigente líbio acabou sendo objeto de atos que poderiam ser classificados como selvageria política, praticada por pessoas que mais parecem delinquentes do que militantes de uma causa politica.
 

Evidentemente, a maioria dos adversários do coronel líbio que governou o país durante 40 anos não é formada por milicianos ou “rambos” de ocasião. Havia um claro cansaço popular com o autoritarismo de Kadhafi e com os seus desmandos econômicos.
 

Mas os confusos incidentes em torno da sua morte/execução lançam uma séria dúvida sobre a transição politica, já que os novos governantes terão como missão inicial controlar os grupos de rebeldes que atuaram por conta própria na derrubada do ditador.
 

A herança do coronel ficou ainda mais pesada por conta da ameaçadora presença de milicianos armados até os dentes e dispostos a saquear tudo o que lembrar o antigo regime.
 

As fotos de Khadafi morto e de milicianos exultantes deitados sobre o cadáver fazendo gestos de vitória causam repugnância mesmo naqueles que nunca morreram de simpatias pelo coronel líbio. Os detalhes da morbidez ficaram evidentes na exibição do corpo num açougue na cidade de Misrata.

 

O que impressiona é a insensibilidade dos editores de primeiras páginas de muitos jornais que se deixaram levar pela voyeurismo, tanto quanto os irresponsáveis editores de blogs sensacionalistas. A polêmica gerada pelas fotos não estava vinculada ao seu efeito ético, mas à curiosidade em saber se foram tiradas enquanto Khadafi estava ainda vivo ou já era um cadáver. Diferença absolutamente insignificante se levarmos em conta o efeito visual da foto.
 

Se o procedimento de exibir o cadáver de derrotados como símbolo da vitória de forças opositoras for transformado em rotina política e consagrado pela imprensa, nós estaremos enterrando junto o que nos resta em matéria de dignidade jornalística.

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