Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O mea-culpa de Mangabeira Unger

Por Luiz Weis em 07/05/2007 | comentários

Ponto para a Folha pela primeira entrevista de um jornal brasileiro com o filósofo do direito Roberto Mangabeira Unger, o professor da Universidade Harvard que em 2005 pediu o impeachment do presidente Lula, em 2006 participou de sua campanha e neste ano virou o 37º ministro do segundo mandato, como titular da recém-criada Secretaria de Ações de Longo Prazo.

Na entrevista ao repórter Plínio Fraga, em Cambridge, Massachusetts, onde trabalha e reside, Unger guardou-se de repetir a tosca versão para a reviravolta, espalhada pelo o senador Marcelo Crivella, segundo violino do PRB a que o intelectual se filiou. [O primeiro é o vice José Alencar, que articulou a filiação.]

Crivella argumentou, com a maior cara-de-pau, que Unger, vivendo fora do Brasil, se pautou apenas pelo que a imprensa da terra dizia do presidente, no bojo do escândalo do mensalão. Mais bem informado, mudou de opinião. Simples assim.

Na entrevista, o filósofo se justificou – ‘não sou museu, estou vivo; posso rever minhas idéias -, bateu no peito dizendo que errou e foi ‘injusto’ com Lula, atribuiu o erro ao ‘calor do embate’, teorizou que ‘o ardor precisa ser qualificado pela humildade, pela dúvida, pela abertura de espírito’ e cobriu Lula não mais de impropérios, porém de elogios:

‘Ao convidar a mim, que combati com veemência o seu primeiro governo, o presidente demonstrou magnanimidade, que costuma ter duas raízes: força interior e preocupação com o futuro. O mesmo presidente que eu havia atacado em termos tão veementes me convida para participar dessa obra de transformação. Eu posso dizer não? Essa é uma concepção moral em política que eu não compartilho.’

Há, como diriam os colegas do professor, um non sequitur nesse raciocínio. Afinal, se Unger afirma que errou e foi injusto com Lula, não deveria se sentir diante de nenhum dilema moral para aceitar o convite do magnânimo presidente que desde o ano passado já sabia de sua auto-crítica.

A concepção de moral política da qual Unger não compartilha só entraria em cena se ele ainda achasse que o governo Lula foi o mais corrupto da história, como escreveu. Mas, por rejeitar a concepção, não teria impedimentos éticos para não participar da ‘obra de transformação’ à qual foi chamado a contribuir pelo presidente ‘possuído’, de mais a mais, ‘por um sentimento de tarefa’.

Agora, inconvicente mesmo foi o seu palavreado para explicar por que tirou da internet o artigo publicado na Folha em novembro de 2005, pedindo a destituição de Lula:

‘É documento de combate. […] A indagação que se põe é se eu devo continuar a divulgá-lo quando não mais expressa a minha posição. A resposta é que não devo. Seria irresponsável, frívolo, imoral, manter o texto. […]

Sem todo esse lero-lero, outro intelectual, Fernando Henrique Cardoso, deu o dito pelo não dito com uma recomendação pá-pum, num jantar com empresários: ‘Esqueçam o que escrevi.’

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 10/05/2007 Marilene Gava

    Pelo que me lembro o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva sempre foi a favor do aborto. Como presidente aceito que ele tenha um discuros para cada platéia de aparência dúbia. Aliás, ele passou a dizer que sempre foi contra por causa da ‘ ocorrida na ocasião de sua primeira candidatura, quando a mãe de sua filha vendeu a informação de que ele havia obrigado-a a fazer aborto… Seria bonito e teria um belo efeito se ele, se redimisse dessa estória e, até, se confessasse arrependido e agradecido a avó da Lurian que a criou. Aí, ficaria bonito… Afinal, é sempre legal se redimir quando a oportunidade aparece. Ah! É cristão também.

  2. Comentou em 08/05/2007 LUIZ carlos Bernardo

    O ‘mea-culpa’ de Mangabeira Unger reflete, ao meu ver, o estado terminal da sociedade brasileira. O que interessa mesmo, sem sofismas, é o interesse individual, seja de intelectuais ou não. O interesse coletivo que se dane! Não vejo tal postura como sendo um reconhecimento de que errou ao criticar tão ferozmente o presidente Lula. O presidente, na realidade, tapou a boca do atual ministro. É o jogo dessa nossa malfadada política. Perdeu-se a vergonha e em consequência disso a ética é coisa do passado.

  3. Comentou em 08/05/2007 Carlos N Mendes

    Recebo uns 2 e-mails por semana, com aquelas apresentações de PowerPoint (muito bem-feitas, coisa de publicitário) dizendo ou sugerindo que Lula bebe além do aceitável. Se esse senhor realmente beber tudo isso, e ainda assim consegue dar golpes de gênio como esse – destruir um pilar de sustentação da oposição apenas atiçando sua vaidade – eu mesmo levo o presidente ao AAA. Se conseguir seguir o programa à risca, eu garanto que ele chega à estatura de Churchill, com certeza.

  4. Comentou em 07/05/2007 levisclei Casagrande

    Em seis meses,este moço estará,sentado a mesa á convite da Febraban, e dizendo que foi mal interpretado e até negando parte dos texto,abaixo de sua autoria.
    1Fugindo do que importa

    Roberto Mangabeira Unger,
    Que rumo deve tomar o Brasil?
    Como aproveitar a sucessão presidencial de 2006 para tomá-lo?
    É isso o que importa. Em vez de obter respostas a essas perguntas, assistimos a um desfile das ilusões dos últimos trinta anos: construir consenso político para blindar a economia, fazer reforma política antes de discutir a direção do país e convocar assembléia constituinte para apressar blindagens e reformas. Cada uma dessas idéias representa a vitória do medo conservador sobre a inteligência transformadora.
    O problema do Brasil não é falta de consenso; é falta de dissenso. O país precisa mudar de rumo. Quer mudar de rumo. Resiste à tentativa de intimidá-lo com o refrão incessante dos inimigos da mudança: qualquer alternativa seria aventura irresponsável, destinada a acabar em caos. Mas não sabe precisar a alternativa. Só a definirá quando pensamento e ação se juntarem em meio à luta pelo poder.
    A ameaça que paira sobre a economia brasileira não é que o modelo econômico atual se fragilize; é que ele persista. Foi ele que deixou 60% dos trabalhadores brasileiros condenados à informalidade; gerou queda continuada da participaç

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