Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O melhor e o pior do Roda Viva: 13 perguntas e 15 respostas

Por Luiz Weis em 08/11/2005 | comentários

Visto antes pelo ângulo das perguntas dos entrevistadores do que pelas respostas do entrevistado, o milésimo – e por mil e uma razões especialíssimo – Roda Viva da TV Cultura, com o presidente Lula, deixou uma forte impressão:

Saiu ganhando mais o espectador que foi dormir quando faltavam três minutos para a meia-noite, ao final do quarto bloco do programa gravado de dia no Palácio do Planalto, do que aquele que ficou diante do televisor até as despedidas do apresentador Paulo Markun e as cenas de congraçamento mostradas em seguida, às 10 para uma da madrugada de hoje, ao final da maratona de meia centena de indagações, respostas e réplicas.

Nos primeiros 59 minutos da emissão, descontados os intervalos comerciais, os seis jornalistas em campo – o apresentador e cinco dos seus antecessores na dura função, aos longo dos 19 anos do consagrado Roda – chegaram muito mais perto do que depois do padrão profissional que o público tinha o direito de exigir.

Principalmente os dois ainda no ramo do jornalismo diário, Augusto Nunes (Jornal do Brasil) e Heródoto Barbeiro (CBN e Cultura), além de Markun, foram direto ao nervo exposto do terceiro ano da era Lula – a roda viva da crise da corrupção – deixando o presidente claramente incomodado.

Justiça se faça, quem primeiro observou na internet que deles partiam as perguntas mais quentes da entrevista foi a cientista política Lúcia Hippólito, entrando no blog do Noblat quando o programa ainda girava. [Para entender a importância do registro, leia, ou releia, a nota “Lula no Roda Viva: olho nas perguntas”, cujo link está disponível aí ao lado.]

Veja só uma amostra do que perguntaram, apartearam e afirmaram -– e do que disse também a jornalista mais acesa do outro grupo, Rosely Tardelli, de uma agência de notícias sobre aids:

1) “O senhor não tem nenhuma responsabilidade pelos fatos que escandalizaram a nação?” (Markun)

2) “É verdade que o senhor chorou quando o deputado Roberto Jefferson foi lhe denunciar o mensalão? e “Foi aquela a primeira vez que ouviu falar nisso?” (Augusto)

3) ”E se o PFL pedir o seu impeachment?” (Heródoto)

4) “Por quem o senhor foi traído, como declarou?” e “Por que o senhor tem evitado a imprensa?” (Rosely)

5) “E o cheque em branco que o senhor disse que daria a Roberto Jefferson?” (Augusto)

6) “Se é tudo denuncismo vazio, como o senhor afirma, por que caiu o ministro Dirceu?” (Rosely)

7) “O senhor reconhece que foi eleito com dinheiro do caixa 2 do PT?” (Heródoto)

8) “E de onde saiu o dinheiro que o Duda Mendonça diz ter precisado receber no exterior?” (Augusto)

9) “Caixa 2 houve. A discussão é sobre o quanto, não é?” (Heródoto)

10) ‘Se o senhor garante que ainda não decidiu se será candidato à reeleição, por que disse uma vez “eles vão ter que me engolir”?” (Augusto)

11) ‘O senhor acha que a imprensa o está linchando? (Heródoto)

Uma questão de abalar a República

A essa altura, quando se dissolveu em risos uma resposta de Lula à réplica de Heródoto, emendada por Rosely, sobre a raridade das entrevistas de Lula à imprensa – “com Fernando Henrique era mais fácil”, espetou Heródoto – ficou claro que os entrevistadores começavam a perder o gás.

Ainda assim, se salvariam nos três derradeiros blocos duas perguntas de Markun:

1) sobre os R$ 5 milhões investidos pela Telemar numa firma do filho do presidente;

2) e sobre os supostos dólares de Cuba para a sua campanha.

Salvou-se ainda um comentário de Augusto desmontando a alegação de Lula de que nunca tentou barrar a CPI dos Correios.

Mas foi nesse pedaço que a roda saiu dos eixos quando Matinas Suzuki se permitiu proferir a seguinte questão de abalar a República: “Já estamos [os corintianos] com a mão na taça?”

Não me entendam mal. Acho que momentos de leveza e humor cabem perfeitamente numa longa sessão de perguntas sobre graves questões políticas e econômicas – desde que essa entrevista não fosse literalmente excepcional, e não fosse de crise o momento do país.

Se o presidente se deixasse sabatinar pela mídia uma vez por mês, como dele se cobrou a certa hora, e se a sabatina não girasse em torno dos ilícitos de que o partido do governo é acusado, pondo em questão até a responsabilidade pessoal do seu líder máximo, nada contra uma pergunta gênero happy-hour sobre futebol. Mas nas circunstâncias, foi constrangedor.

Também saiu mal na fita a cena explícita de confraternização do presidente com os entrevistadores, enquanto rolavam os créditos do programa.

De novo não me entendam mal. Apesar de sermos todos brasileiros, e não americanos ou membros de qualquer outro povo que abomina contatos físicos mais próximos do que um aperto de mãos, e apesar do fato de que boa educação nunca é demais, ficou esquisito o abraço apertado de Lula a dois dos operadores de uma roda viva que se destinava a entontecê-lo. Seria melhor para a imagem da mídia se na hora do dá-cá-aquele-abraço as luzes já se tivessem apagado.

Não sabe porque o PT errou

Ao se dirigir a Lula pela última vez, o apresentador Paulo Markun lhe perguntou se “valeu a pena” ser presidente. E a entrevista, é o caso de perguntar, valeu a pena?

Sim, principalmente por aqueles 59 minutos iniciais em que metade da bancada fez o que todos deveriam ter feito o tempo todo: levar o entrevistado às cordas. Porque esse é o papel de jornalista, como cobrador da sociedade – e não o de levantar a bola para sua excelência ou baixar a temperatura do confronto com questões absolutamente irrelevantes, na circunstância.

Do ângulo das respostas, valeu a pena também. Os brasileiros puderam ouvir do seu presidente as seguintes enormidades:

1) a sua responsabilidade por denúncias de corrupção que atingem o seu governo consiste apenas em “mandar apurar”;

2) ele ainda não resolveu se irá para a reeleição;

3) foi traído por “todos” os companheiros cujo comportamento não se coaduna com a história do PT, mas não quer citar nomes porque tem horror a condenar sem provas;

4) mesmo assim, com as investigações ainda em curso, a denúncia de envolvimento do Banco do Brasil é “absurda” e o mensalão é “folclore” – ou seja, afirmar não se pode, negar se pode;

5) não tem evitado a imprensa porque chegou a fazer até oito pronunciamentos num mesmo dia – “tem dia que eu canso de mim mesmo” – e isso deve ser notícia;

6) não acha “prudente” dar entrevistas toda semana ou mesmo “todo mês”;

7) caixa 2 na sua campanha “cheira a fantasia”;

8) não pode responder “pelo Duda”;

9) os jornais publicam o que os seus donos entendem que deva ser publicado;

10) na presidência, trabalha mais do que quando era torneiro-mecânico;

11) o resultado de suas viagens ao exterior está no superávit da balança comercial;

12) é hipocrisia e cinismo falar do “avião de Lula”, como se o levasse consigo quando terminar o seu mandato – o que nunca um jornalista ou político disse;

13) o negócio da Telemar com seu filho foi “transparente”;

14) não pode acreditar nos dólares de Cuba porque o país vive num “miserê danado” – e não porque nem o PT pediria nem Cuba aceitaria cometer o que na legislação brasileira é crime eleitoral e primeiro motivo para um partido ser cassado;

15) não sabe o que levou o PT a errar.

P.S.

Transcrevo, por oportuno, trecho do comentário de hoje do jornalista Alberto Dines, no blog Observatório no rádio:

‘O presidente Lula repetiu algumas vezes uma, digamos, impropriedade e nenhum dos presentes chamou a sua atenção: disse ele que o deputado Roberto Jefferson foi cassado porque fez uma denúncia sem fundamento. Ora, Jefferson perdeu o mandato porque assumiu que foi corrompido. E se o corrompido foi castigado faz todo o sentido que o corruptor também o seja.’

***

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