Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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O nome da coisa

Por Luiz Weis em 23/11/2007 | comentários

Ontem foi dia de dilema nas redações brasileiras: como batizar a denúncia do procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, contra o ex-governador, ex-presidente do PSDB e senador Eduardo Azeredo, o seu vice no governo e, ultimamente, ministro de Relações Institucionais, Walfrido Mares Guia?

O resultado está nas edições de hoje – e não parece respaldar em geral a teoria conspiratória de que a mídia iria jogar fumaça nos olhos do leitor para que não equiparasse o desvio de R$ 3,5 milhões dos cofres públicos de Minas na frustrada campanha de reeleição de Azeredo, em 1998, à compra de políticos no primeiro governo Lula, que entrou para a história sob o codinome mensalão.

Diga-se desde logo que a equiparação faz sentido. Nas palavras do procurador, uma coisa foi o “laboratório” da outra. É verdade que ele também afirma que as situações não são exatamente iguais.

“Exatamente” não são. O mensalão, por exemplo, teve periodicidade – daí o rótulo [criado pelo autor da denúncia, então deputado Roberto Jefferson]. Os seus beneficiários diretos já exerciam mandato parlamentar. No caso anterior, o período foi o de uma temporada eleitoral, quando se usaram recursos públicos estaduais para financiar candidatos – que, uma vez eleitos, decerto retribuiriam a ajuda do principal interessado, e o primeiro dos “ajudados”, Eduardo Azeredo.

Isto posto, quando já se desconfiava de que o procurador-geral seria tão pouco leniente com os tucanos como foi com os petistas, houve quem previsse que a mídia, ela sim, cobriria a esperada denúncia com a preocupação de distinguir as duas ‘situações’, como diria o procurador – embora tenha sido um jornal insuspeito de lulismo, o Globo, o primeiro a revelar o escândalo. Por sinal, em julho de 2005, quando a barca do mensalão corria em todas as manchetes.

Hoje, os termos “mensalão tucano de Minas” estão na manchete do Globo. Já a Folha estampou no alto da primeira página as palavras “esquema de corrupção do PSDB”.

O Estado também falou em “mensalão tucano”. Mas, no sub-título, usou “esquema de caixa 2”. Se de caixa 2 se trata – como querem os tucanos que se puseram a absolver de antemão o seu senador – mensalão não é. E vice-versa.

No Valor – espantosamente, dada a costumeira qualidade da cobertura política desse jornal voltado para a economia – o assunto só aparece numa página interna e de forma peculiar: abaixo da saída de Mares Guia e sob um título que é um despiste – “Caixa 2 do PSDB mineiro chega ao Supremo”.

Dos quatro, com a agilidade costumeira, a Folha foi o único a já sair com editorial a respeito. Mas o texto tropeça nos próprios cadarços ao falar em “mensalão mineiro” logo antes de falar em “mensalão petista”.

A assimetria é clara. Mensalão mineiro faz par com mensalão nacional, ou federal. E mensalão petista, também por uma questão de coerência, demanda que se escreva mensalão tucano.

Pior foi o cacoete de chamar Mares Guia nos títulos de “ministro de Lula”, como se pudesse ser ministro de outro alguém. Lula, aliás, aparece ao lado dele, desacorçoado, com a mão na testa, tanto na primeira da Folha como na do Estado. Tudo bem: é foto para ninguém pôr defeito. Mas que faz falta, ali, uma imagem de Azeredo, vai sem dizer.

Jornalisticamente, a pá de cal no contorcionismo tucano de sugerir que Azeredo – se tanto – cometeu um pecado venial, ao passo que o pecado petista era mortal, foi a analogia da manchete da página 12 do Globo:

“FH repete Lula e pede apuração sobre Azeredo”.

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