Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O nome é o de menos: o que conta é o conteúdo

Por Luiz Weis em 17/09/2009 | comentários

Na última segunda-feira, 14, o executivo-chefe da empresa que edita o New York Times, Arthur Sulzberger, e a presidente da companhia, Janet Robinson, distribuíram um memorando interno comemorando os ganhos da “estratégia de circulação” do jornal.


Mas o que chamou a atenção no texto foi outra coisa – o seu penúltimo parágrafo, em que a dupla define a organização como “uma empresa de notícias, não uma empresa de jornal”.


Nunca antes nos 158 anos de história do mais celebrado jornal do mundo, os seus controladores disseram coisa parecida – o que poderiam teoricamente ter feito quando a empresa entrou no negócio do jornalismo de rádio, com a sua emissora WQXR.


O fim de uma era, seria o caso de dizer. Mas o essencial não muda. Leia-se a continuação:

“Temos o compromisso”, escreveram Arthur & Janet, “de oferecer aos nossos consumidores – [vejam bem: consumidores, não leitores] – nosso conteúdo seja lá onde e quando o desejem e até por meios que talvez não tenham imaginado, impressos ou online, em textos, gráficos, audio, vídeo e mesmo eventos ao vivo. Devido ao nosso jornalismo de alta qualidade, temos marcas poderosas e acreditadas, que atraem públicos educados, afluentes e influentes.”


O sujeito da oração, portanto, é “jornalismo de alta qualidade” – o conteúdo. E nada é mais importante do que isso quando se fala em jornalismo – em qualquer formato. A pergunta ainda não respondida é se os novos formatos, pelo que são e pelo que se pode (ou não) fazer com eles, favorecem o jornalismo de alta qualidade tanto, menos, ou, quem sabe, mais do que o formato tradicional.


E este ainda predomina. Uma pesquisa citada pelo estudioso da imprensa Michael Massing, em artigo publicado no New York Review of Books, com data de capa de 24 de setembro, descobriu que, apesar da explosão da internet – no ano passado, os americanos ficaram em média 53 minutos por semana lendo jornais online, ante 41 minutos em 2007 –, 96% do tempo dedicado a leitura de jornais foi gasto com a versão impressa. No mesmo período, aliás, dos US$ 38,5 bilhões desembolsados nos Estados Unidos em anúncios na imprensa, só US$ 3 bilhões foram para as edições online de jornais e revistas.


Está claro, portanto, que o desafio para as empresas jornalísticas consagradas é investir na informação pelos meios digitais sem privar os seus produtos impressos dos recursos que os consagraram. A redação do New York Times, por exemplo, consome anualmente qualquer coisa como US$ 200 milhões. E, tendo de cobrir o papel e a tela, o cobertor ficou curto para todo mundo.


No seu memorando, Arthur & Janet celebram o fato de que o ano passado foi o melhor da história da empresa em matéria de rendimentos da circulação (assinaturas e venda avulsa) do seus diários em papel. Depois do NYT, impresso em 26 lugares nos Estados Unidos, o mais importante é o Boston Globe.


“Por que os leitores continuam fiéis à versão impressa?”, perguntam, retoricamente. A resposta é boa:


“Por que os jornais, que sobrevivem há mais de 400 anos, funcionam. As pessoas entendem como os jornais são organizados – se uma matéria está acima da dobra, é mais importante do que aquela abaixo da dobra. Se sai na primeira página, é mais valiosa do que as das páginas internas. Os leitores usufruem da possibilidade inesperada de encontrar coisas novas em relação às quais nem sabiam que poderiam estar interessados antes de descobri-las nas páginas de seus jornais. Eles são portáteis. E marcam a passagem do tempo das notícias.”


O NYT gasta mais do que qualquer outro jornal com jornalistas e outros profissionais da sua edição online. Entre os que ali “trabalham febrilmente para combinar as práticas jornalísticas tradicionais com os superpoderes da internet”, escreve Massing, há times inteiros do que a empresa chama “futuristas” e “tecnólogos criativos”.


São eles que criam seções interativas em que o leitor pode clicar, por exemplo, numa colagem de fotos de soldados americanos mortos no Iraque e no Afeganistão e chamar um miniperfil de cada um deles. Ou, além de ler um relato sobre a desnutrição na África, ver o autor da matéria entrevistando algumas de suas vítimas.


Mas não há futurismo nem criatividade tecnológica que promovam à primeira classe uma reportagem de segunda. Apesar de todo o deslumbramento que a net provoca.


Direto da Barrica


O leitor pode não ter percebido, mas a Folha de S.Paulo desconsiderou nesta quinta-feira, 17, a decisão judicial que proibiu O Estado de S.Paulo de publicar matérias baseadas na Operação Boi Barrica, da Polícia Federal, sobre os negócios de Fernando Sarney, o filho do presidente do Senado que toca as empresas da família.


A decisão, sob a forma de liminar, foi concedida em 31 de julho pelo então relator da ação movida pelo empresário junto ao Tribunal de Justiça do Distrito Federal, desembargador Dácio Vieira. Anteontem, o Conselho Especial do TJ afastou Vieira do caso, por suspeição, como pleiteava o Estado – mas manteve o seu ato, que equivale a censura prévia.


Um outro relator terá de decidir se banca ou revoga o parecer de Vieira.


Aliás, quando parecia que o parecer tinha sido invalidado com o afastamento do autor, o Estado publicou imediatamente na internet duas matérias com dados da Boi Barrica prontas desde o dia 15 de agosto. Os textos sumiram assim que ficou claro que a censura foi mantida.


Já o que a Folha fez foi informar que o senador José Sarney, ao contrário do que disse em plenário no início de agosto, participava, sim, de decisões administrativas da fundação que leva o seu nome, em São Luís. Sarney negou a participação depois que o Estado revelou desvio de parte da verba de R$ 1,34 milhão concedida à entidade pela Petrobras a título de patrocínio.


Mas o que tem isso a ver com a censura ao Estadão?


Tudo que interessa do ponto de vista da liberdade de imprensa. Pois a matéria que desdiz Sarney se baseia em “telefonemas e e-mails interceptados pela Polícia Federal”. A rigor, um telefonema e um e-mail, transcritos na reportagem.


E essas interceptações, também se lê na matéria, foram obtidas pela PF, com autorização judicial, “durante a operação que, desde 2007, investiga os negócios de Fernando Sarney”.


Essa operação é a própria Boi Barrica – nome que a Folha omitiu para não ostentar que deu de ombros para a liminar que amordaçou o concorrente. Além disso, o jornal sempre poderá alegar que não publicou nada da operação que dissesse respeito ao filho do senador.


De qualquer forma, já que o Estado resolveu cumprir a determinação judicial enquanto dela recorre – foi sugerido que o jornal a ignorasse, num ato de desobediência civil –, quanto mais matérias extraídas da Barrica saírem em outros jornais tanto melhor para a prevalência do direito da sociedade à livre informação.

Todos os comentários

  1. Comentou em 04/12/2009 maria alcina dias torgo torgo

    Temos que dar apoio a CPI do JUDICIARIO,que está investigando a venda de sentenças,que é real ,muitas familias tem perdido seus patrimonios,para grupos de empresarios,principalmente construtoras,inclusive estelionatarios de São Paulo,com em presas de fachada,com patrocinio de grandes escritorios de desembargadores,é a máfia da toga,ela é verdadeira,e está tomando as terras da BARRA DA TIJUCA,RECREIO DOS BANDEIRANTES,como por exemplo:ESPOLIO DE ELYSIÁRIO JOSÉ VIEIRA,ESPOLIO DE ADELINA RIVETTI,ESPOLIO DE MANUEL FRANCISCO SOBREIRO,ESPOLIO DE SEBASTIÃO DA COSTA BARBOSA,ANTONIO SARAIVA DE OLIVEIRA,entre outros ,que estarão listados na CPI,para serem investigados.

  2. Comentou em 21/09/2009 Clever Mendes de Oliveira

    Luiz Weiss,
    O que ocorre com os jornalistas com base no Estadão? Estariam eles perdendo a dimensão da realidade. Olhe bem o que você escreveu:
    ‘Já o que a Folha fez foi informar que o senador José Sarney, ao contrário do que disse em plenário no início de agosto, participava, sim, de decisões administrativas da fundação que leva o seu nome, em São Luís. Sarney negou a participação depois que o Estado revelou desvio de parte da verba de R$ 1,34 milhão concedida à entidade pela Petrobras a título de patrocínio.’
    Então a conversa gravada entre José Sarney e a neta (E qual é a justificativa para a Polícia Federal gravar a conversa entre José Sarney e a neta? Nos Estados Unidos, gravação assim, levaria algum dos poderes a uma melindrosa explicação) provaria que José Sarney participa da administração da Fundação José Sarney?
    Será que José Sarney com os quase 80 anos deixou os jornalistas numa enrolada sem fim? Vocês correm, correm, correm e ele chega à frente.
    Além disso, você afirma que ‘o Estado revelou desvio de parte da verba de R$ 1,34 milhão concedida à entidade pela Petrobras a título de patrocínio’. O desvio foi revelado ou há indícios. E se indícios, o Estadão revelou os indícios ou a existência de inquérito ou de ação proposta pelo Ministério Público, ou constatação do TCU? Que tal esperar a sentença transitado em julgado?
    Clever Mendes de Oliveira
    BH, 20/09/2009

  3. Comentou em 20/09/2009 Luciano Prado

    O Estadão está adorando o status que se doou de CENSURADO.
    Ave Sarney!

  4. Comentou em 20/09/2009 Moacyr Pinto Costa Junior

    Excelente o artigo. Parabéns ao autor

    MOACYR PINTO COSTA JUNIOR
    Advogado e Professor Universitário
    http://mpcjadv.blogspot.com

  5. Comentou em 18/09/2009 Cristiana Castro

    Sabe que é verdade, essa coisa do direito da sociedade à livre informação é agrado pra nossa mídia. Ainda bem que temos essas intrépidas organizações para defender nossos direitos. Só falta agora esse povo chato da rede dizer que não lê e nem assiste nos jornais e telejornais, que uma parcela da sociedade está pedindo a revisão das concessões, sobretudo a da Rede Globo. eu tenho certeza, que todos os jornais estão dando a devida atenção ao direito, sagrado, da sociedade a livre informação. Pra forjar uma fraude nas eleições do Irã, a internet teve crdibilidade, mas pra comunicar a população do movimento anti-mídia que corre solto na web…

  6. Comentou em 18/09/2009 Teócrito Abritta

    E a censura na internet? Será que existe? Pelo sim, pelo não, ao tentar acessar certo ‘portal’, recebi a mensagem que pode ser lida e conferida no link abaixo:
    http://blogln.ning.com/main/index/banned
    O termo usado é adequado em uma sociedade democrática? Será correto monitorar computadores de terceiros? Não seria mais ético solicitar uma senha de acesso para indesejáveis?

  7. Comentou em 18/09/2009 Roberto Ribeiro

    Na verdade na frase ‘Devido ao nosso jornalismo de alta qualidade, temos marcas poderosas e acreditadas, que atraem públicos educados, afluentes e influentes” o termo ‘jornalismo de alta qualidade’ é o núcleo do ADJUNTO ADVERBIAL, o sujeito do predicador de base é ‘nós’ (nós temos) e o sujeito da oração subordinada integrante é ‘marcas poderosas’. Não é carrancismo gramatical, mas mostrar a hierarquia das coisas: ‘nós’ (NYT) é o centro da questão, ‘marcas poderosas’ é sujeito subordinado, só lá no fim, como adjunto adverbial é que vem o tal ‘jornalismo de qualidade’. Ou seja, o negócio é ‘nós’ ganharmos dinheiro com ‘marcas poderosas’, por um acaso quase ridículo, por meio do jornalismo (poderia ser por meio de refrigerantes ou hamburqueres). Tanto é que, como o articulista nota, não se fala de ‘leitor’, mas de ‘consumidor’. É atochar informação no bucho do ‘consumidor’ como se atocha batata frita. O capitalismo anglo-saxão é delicioso em sua falta de pudor. Nada do discurso tupiniquim de ‘defensores da democracia’, a empresa jornalística é uma empresa e está aí para vender, ponto final.

  8. Comentou em 17/09/2009 maria alcina dias torgo torgo

    a mordaça dos jornais e outros meios de comunicação,que não tem envolvimentos com o crime ,também amordaça a justiça,onde o grupo Globo e seus testas de ferro,empresas de fachada e similares,ganham na Justiça do Estado do Rio de Janeiro,ações judiciais,impossiveis,diante das provas robustas e irrefutaveis contra estes bandidos,assim vem ocorrendo com as terras do espolio de adelina rivetti,até o perito do juiz não viu e nem conhece as terras de currupira,vejam o blog currupira,examinem os processos judiciais, e o risco de morte de quem é honesto,com moral profissional ilibada,o que é isso,estamos perdidos,precisamos de asilo em outros jornais,nossa imprensa está muito comprometida,com record e globo,assim vamos muito mal,e que herança deixaremos para os nossos filhos,netos,essa imprensa mentirosa,e que vende produtos estrangeiros,para pobres e miseraveis de nosso povo tão maravilhoso deste nosso maravilhoso Brasil.

Código Aberto

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem