Sexta-feira, 24 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

CÓDIGO ABERTO > A comercialização do jornalismo

O noticiário olímpico como megafeirão de marcas e personalidades

Por Carlos Castilho em 30/04/2015 | comentários
A cobertura prévia das Olimpíadas indica que jornais, revistas e a televisão apostarão tudo no jornalismo-show em prejuízo da investigação.

Uma das consequências mais perversas da transformação da notícia numa mercadoria para troca por publicidade é o avanço avassalador da associação do jornalismo com entretenimento e publicidade. O fenômeno não é novo, mas ganhou muito mais força atualmente com a busca frenética de mais faturamento para tentar contornar a crise no modelo de negócios em jornais, revistas e telejornais.

A informação como bem público necessário para que as pessoas tomem decisões pessoais e comunitárias está praticamente deixando de existir em beneficio da informação como um espetáculo comandado por jornalistas transformados em estrelas. Chegamos ao cúmulo de os telejornais darem mais importância ao repórter e suas peripécias do que aos fatos. Um terremoto passou a ser o pano de fundo para a performance de um enviado especial.

A comercialização do jornalismo é mais evidente nos telejornais e programas esportivos supostamente noticiosos. Novos lançamentos de programas, novelas e projetos das emissoras ocupam espaços generosos nos telejornais, confundindo o telespectador que tem cada dia mais dificuldade para distinguir o que é realmente notícia e o que é marketing empresarial.

Os programas esportivos foram transformados num desfile de peças publicitárias para promover competições onde as emissoras têm interesses porque venderam o patrocínio das transmissões. As notícias passaram a ter “cara” de show. A polêmica e a investigação foram substituídos por apresentações musicais, desafios com prêmios para o público e os inevitáveis concursos entre musas de clubes e torneios.

olimpiadas

Estamos entrando na reta final das Olimpíadas de 2016. Na cobertura prévia, o público é levado a acreditar que se trata de um acontecimento pautado pelo chamado espírito olímpico onde o importante é competir, quando na verdade é um megafeirão de marcas, produtos, serviços e personalidades. Tudo travestido de jornalismo e apresentado como notícia para uma audiência cada vez mais desorientada em relação ao que vai assistir.

As competições esportivas, com a participação fundamental das emissoras que transmitem jogos e eventos, apresentam um intrigante paralelismo entre os resultados e as estratégias de promoção publicitária. Fica-se com a desconfortável sensação de que poderia haver uma coordenação entre patrocinadores, emissoras e organizadores das competições.

As distorções do jornalismo esportivo são apenas a face mais visível do acelerado processo de inversão de valores no processo de produção de notícias em empresas de comunicação pressionadas pelas mudanças tanto nos comportamentos do público como nos sistemas de produção de material jornalístico.

Enquanto as emissoras de TV apostam no jornalismo como uma nova modalidade de show business, a imprensa escrita vai fundo na vinculação da notícia a interesses político-eleitorais e corporativos.

Nada contra o fato de as empresas tentarem sobreviver ao choque da digitalização. O problema é que elas dissimulam os seus objetivos comerciais e financeiros sob a capa de jornalismo, o que na prática equivale a transmitir uma falsa realidade ao leitor, ouvinte, telespectador e também aos internautas, oferecendo a eles conteúdos com aparência de notícia e que na realidade são peças de publicidade e marketing.

A herança da cultura informativa, desenvolvida nos tempos em que a notícia era escassa e os veículos de transmissão ainda mais limitados, retarda a percepção do público de que ele não está recebendo os dados de que tanto precisa para tomar decisões. A mudança de comportamentos e valores sempre é muito mais lenta do que a introdução de novas tecnologias, serviços e sistemas de produção. Mas a história mostra que ela é irreversível. Isto talvez sirva de consolo para os jornalistas que encaram sua profissão como algo maior do que um emprego.

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