Quarta-feira, 14 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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O ouro puro que não foi manchete

Por Luiz Weis em 20/05/2007 | comentários

A manchete da Folha deste domingo é o tipo da notícia ‘cachorro morde homem’:


‘Guatama é suspeita em licitação de R$ 1,6 bi’.


Nada contra, em princípio. È o assunto quente dos últimos dias, desde que a Polícia Federal mostrou quem e onde foi cortado pela Operação Navalha.


Mais eis que o leitor bate os olhos na metade de baixo da página, depois da dobra, topa com um título em duas colunas, ‘Economia do país nunca esteve tão bem, diz estudo’ e se põe a ler:


‘O Brasil vive o melhor momento econômico de sua história, superior ao chamado milagre econômico dos anos 70, diz estudo da Tendências’.


E fica boquiaberto.


Ele está diante do tipo da notícia ‘homem morde cachorro’ – meio caminho andado para ser alçada ao topo da página, sem falar da gritante importância do assunto em si.


A notícia é inusitada – daí o ‘homem morde cachorro’, porque o principal sócio da Tendências Consultoria não é outro se não o ex-ministro da Fazenda, crítico duro e obsessivo do governo Lula, economista Maílson da Nobrega, que escreve aos domingos no Estado.


Não é todo dia que um jornal põe as mãos em mercadoria dessa qualidade e procedência – ouro puro, como se diz ou se dizia nas redações. Tanto que a Folha o esparramou por boa parte de quatro das dez páginas do seu caderno Dinheiro.


O jornal, naturalmente, ouviu quem torce o nariz para o trabalho da Tendências e usou no sub-título da matéria principal do pacote a expressão ‘estudo controverso e contestado’, explicando no texto de abertura:


‘Evidentemente, muitos economistas e empresários discordam da tese [da inigualável situação da economia nacional]. Apontam a alta carga tributária, a necessidade de reformas e carências estruturais como impedimentos para uma expansão sustentável.’


Exemplo desses ‘muitos economistas’ é outro ex-ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser-Pereira. Diz:


‘Estamos fracassando miseravelmente há 27 anos. Estamos ficando para trás, para trás e para trás, e faço questão de dizer três vezes, para que não haja sombra de dúvidas.’


Na outra ponta, a mais vigorosa declaração é do empresário Luiz Largman, diretor da Construtora Cyrela:


‘Se o pessoal da Tendências estiver errado é porque eles estão sendo conservadores.’ 


Se isso não vale manchete, não sei mais o que a palavra significa.


***


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