Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O personagem é o cônsul

Por Luiz Weis em 14/01/2007 | comentários

Precisa ser muito mais bem contada a história que a Folha traz hoje sobre o jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura no DOI-Codi de São Paulo em 25 de outubro de 1975.


O dono da história é Paulo Egydio Martins, 79 anos, governador de São Paulo à época. No livro de memórias que sairá em março – baseado no seu depoimento de 600 páginas ao Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC) – ele afirma ter ouvido do então cônsul inglês George Hall, pouco depois da morte de Vlado, que ‘ele prestava serviços para o serviço secreto inglês’ (britânico, a rigor).


Hall, na mesma ocasião, lhe teria dito que foi ‘a última pessoa [sic] que o Herzog viu antes de morrer’.


O diplomata, que chegou a embaixador do Reino Unido no Brasil, morreu em 1980. Segundo Egydio, ‘de morte súbita’. O ex-governador disse à repórter Mônica Bergamo: ‘Alguma coisa esquisita ocorreu. Para mim é um mistério até hoje.’


A viúva de Vlado, Clarice, considera a história ‘uma invencionice que não tem pé nem cabeça. E até uma afronta ele (o ex-governador) contar uma história dessas quando nenhum dos envolvidos está aqui para desmenti-lo’.


Os pesquisadores do CPDOC não foram os únicos a quem Egydio falou da conversa com ocônsul inglês. Ele deu a mesma versão a pelo menos um jornalista – que a descartou por achá-la um despropósito.


Evidentemente, é difícil provar uma negativa. No caso, que Vlado não trabalhou para o Serviço Secreto de Inteligência britânico (SIS, na sigla em inglês), o conhecido MI6.


Mas pelo que conheci dele durante 18 anos de amizade próxima e trajetória profissional – para não falar de Clarice e de outros amigos íntimos – acho mais fácil ganhar toda semana R$ 52 milhões na Mega Sena com uma aposta de R$ 1,50 do que Vlado ter colaborado alguma vez com os serviços britânicos. Ou de qualquer outro país.


Os seus algozes tentaram vender a versão de que ele era agente da KGB soviética e ‘se suicidou’ ao ser apanhado. Seria ridículo se não fosse trágico.


Mas a história do diálogo entre o consul George Hall e o governador paulista não pode ficar pendurada na versão que aparece no seu livro.


[O autor, aliás, se cerca de cuidados. Diz que considerou o informe do consul ‘absolutamente estapafúrdio, mas achou que tinha a obrigação de divulgá-lo ‘perante a história’.]


Deixando de lado a hipótese não de todo estapafúrdia de que Hall disse uma coisa e Egydio entendeu outra sobre Vlado e os ingleses – ele havia trabalhado no Serviço Brasileiro da BBC de Londres – o foco da questão é o suposto encontro entre o jornalista e o diplomata, o que teria levado este último a se dizer ‘a última pessoa que o Herzog viu antes de morrer’.


Na noite de 24 de outubro, uma sexta-feira, os belzeguins do DOI-Codi foram prender Vlado na TV Cultura, onde era diretor de jornalismo. Mas aceitaram que ele se apresentasse na manhã seguinte, logo cedo. Seria acompanhado pelo setorista da emissora no II Exército, Paulo Nunes.


Nunes dormiu na casa de Vlado. Os dois saíram da TV diretamente para lá, em companhia de Clarice.


E da casa, na Rua Oscar Freire, os dois seguiram para a Rua Tutóia, onde ficava o DOI-Codi. Chegaram ali às 8h25 da manhã. Teriam feito uma escala em algum lugar para Vlado encontrar-se com Hall? Altamente improvável, dada a presença de Paulo Nunes.


Teriam se falado por telefone? Também improvável. O cônsul disse que o Vlado o ‘viu’.


Aliás, por onde anda Paulo Nunes? A Folha, aparentemente, não tentou ou não conseguiu localizá-lo. A matéria é omissa nesse ponto.


Será então que o cônsul delirava quando falou com Paulo Egydio? Descontada a expressão dramática da ‘última pessoa’, não necessariamente, a julgar por uma hipótese que ouvi.


Naqueles idos de outubro, com as prisões em sequência de jornalistas acusados de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro, Vlado decerto sabia que, também no caso dele, era tudo uma questão de tempo. Não é impossível que tenha procurado o cônsul britânico em São Paulo para pedir, se sobreviesse o pior, proteção para os seus filhos, Ivo e André, nascidos em Londres e cidadãos britânicos, portanto.


Se isso aconteceu, o cônsul teria de comunicar o fato ao embaixador de seu país – e este talvez tenha incluído a informação nos seus relatórios periódicos sobre o Brasil enviados à seção brasileira ou latino-americana do Foreign Office, o ministério britânico do Exterior. Ainda mais com a repercussão internacional da morte de Vlado.


Isso e tudo mais que possa dizer respeito às atividades de George Hall como cônsul em São Paulo e embaixador em Brasília, sem esquecer a sua ‘morte súbita’ em 1980, que Paulo Egydio diz achar uma ‘coisa esquisita’, devem ser o núcleo da pauta da(s) necessária(s) matéria(s) que deve(m) se seguir à de hoje na Folha.


Não para checar a preposterous idea, como dizem os ingleses, de que Vlado era informante britânico, mas para saber se Hall o conhecia, se e quando Vlado o procurou, se ele de fato disse a Paulo Egídio o que este lhe atribui – e se existe alguma base para a sua estranheza diante das circunstâncias (quais, exatamente?) da morte do diplomata.


O caminho das pedras é a Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act) que permite a qualquer pessoa requisitar documentos oficiais britânicos passíveis de divulgação, depois de um certo número de anos. E já lá se foram 31, no caso.


Os pedidos podem ser negados se a autoridade entender que a liberação criará problemas para a segurança nacional e as relações exteriores da Grã-Bretanha. Mas o requerente pode recorrer da recusa.


O primeiro passo é escrever para: Information Rights Team, Information Management Group, Foreign and Commonwealth Office, Old Admirality Building, London, SW1A 2PA.


Ou, mais simples ainda, mandar um e-mail para dp-foi.img@fco.gov.uk


O pedido deve ser o mais detalhado possível. Mas o interessado não precisa dizer por que deseja a informação – e não será perguntado sobre isso. Coisas da democracia.


Em até 20 dias úteis, o Foreign Office confirmará ou negará ter a informação solicitada. No primeiro caso, poderá liberá-la desde logo. Ou explicará por que não o faz, citando as exceções previstas no Freedom of Information Act.


Se a resposta for insatisfatória, o interessado poderá pedir que seja revista pelo próprio órgão. Mantida a decisão, cabe recurso ao Diretor de Informação. Ver detalhes em www.informationcommissioner.gov.uk


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/01/2007 Ivan Moraes

    Nota rapida: mandei um email para o endereco, aonde eu enviaria cc diretamente pra voce, Weis? (IAMoraes@aol.com)

  2. Comentou em 15/01/2007 ubirajara sousa

    Caro Luiz Weis, já que você ensinou o caminho das pedras, por que não o segue? Vou aguardar o seu artigo esclarecedor. Quem melhor do que você para fazê-lo? Um abraço.

  3. Comentou em 15/01/2007 Amyr Fontenele

    É interessante, comecei exatamente hoje a ler o livro de Ricardo Kotcho, no qual ele cita o caso de Vlado que por mim era desconhecido. Tenho 28 anos, sou estudante de jornalismo e fico muito triste com esses fatos passados. Deixo aqui minha enorme admiração pelo observatório da imprensa e meu abraço a sra. Clarice Herzog.

  4. Comentou em 15/01/2007 Paulo Bandarra

    Por isto que não se pode aceitar a morte de Celso Daniel assim no mais, como crime comum. Veja só este caso do Herzog até hoje com meandros obscuros. Assim como George Hall, sem esquecer a sua ‘morte súbita’! Achar que prefeitos do PT morrem na rua sem mais nem menos seria ingenuidade!

  5. Comentou em 15/01/2007 Wilson Oda

    Acho que em 1975, o governo britânico era comandado pelo ultra-esquerdista Partido Trabalhista cujo líder era Harold Wilson, ex-guerrilheiro trotkista e mentor intelectual de Tony Blair. Assim faz sentido, a ditadura militar ter torturado e matado um agente de um pais revolucionário que desejava impor ao mundo: o chá das cinco…
    Meus respeitos à família do Herzog pela brincadeira,, mas é somente com um certo cinismo é que a matéria da folha deve ser lida.

  6. Comentou em 15/01/2007 Marco Costa Costa

    Senhora Rosa, você demostra ser uma direitista convicta, que faltou com os princípios básicos de boa educação com o meu comentário. Vale dizer, naquela época vc não foi importunada pôr ser uma bajuladora costumas do sistema capitalista canibal. Procure usar o bom senso para fazer criticas a quem quer que seja. Esclareço que, ser de esquerda é uma virtude que defende uma ideologia política que trabalha em defesa dos mais carentes. No seu caso específico, extrema direita, tem como ideologia defender os donos do patrimônio existente no país, bem com dos meios de produção.

  7. Comentou em 15/01/2007 Wilkner Anderson da Silva

    Meio complicado esse senhor dizer sobre o assunto neste momento. Penso que é uma maneira dessa pessoa voltar a mídia – o sr. ex-governador. Herzog é um ícone do jornalismo brasileiro e uma das marcas da cruel ditadura. Portanto é um ídolo a ser respeitado.

  8. Comentou em 14/01/2007 clarice herzog

    Obrigada Weis. pelos seus comentários e sobretudo pela dicas de como a Folha pode ir em busca da verdade.
    Quando a Mõnica me ligou há dois dias, disse a ela que era um absurdo a Folha publicar tal estaparfúdia e que deveria ir esclarecer o que realmente ocorreu ao invés de simplesmente ser porta voz de declarações que denigrem a imagem de um colega jornalista. Sugeri que falasse com o Paulo Nunes que acompanhou o Vlado de casa até o Doi Codi – pelo jeito não tiveram tempo ou não se interessaram.

    Um beijo

    Clarice

  9. Comentou em 14/01/2007 Cid elias

    Desculpe fugir do assunto Senhor Luiz, mas o senhor não soube que uma das acusadas pelo suposto desvio de R$ 33.000.000,00 do erário, em suposta cumplicidade com o paladino da moralidade Jungmann, é simplesmente a esposa do teu ex-colega de Estadão, Ricardo Noblat? Claro que não exigiria aquele tipo ‘para petistas’ de condenação sumária como várias vezes presenciei no OI, mas nem uma linha sobre o caso… Em Pernambuco é notória a amizade entre eles, dizem que de longa data. A Sra. Rebeca administrou vultuosas quantias de campanhas publicitárias e outros, exatamente na época que o marido era o chefão do Correio Brasiliense, que por sua vez publicava apenas notícias favoráveis ao Jungmann e ao seu ministério. Coincidência a imprensa ter calado sobre o assunto, não achas? E o OI? Ninguém ´´sabia´´? Observar a imprensa de verdade não inclui denunciar quando ela omite fatos como este, visto o sr noblat ter passado dois anos em campanha contra o Lula no blog premiado como ‘o mais importante’ blog político tupi? grato cid

  10. Comentou em 14/01/2007 Rosa Mônica Cassimiro

    Não, Sr. Marco Costa Costa, esse assunto não está de todo superado. Não sei porque todo esquerdista metido a revolucionário tem que ser chato. Aliás, é sempre bom reviver essas histórias e você deve agradecer em viver hoje porque se fosse naquela época com esse seu esquerdismo radical seria bem capaz que fosse importunado pela repressão e não raro sofreria coias bem piores.

  11. Comentou em 14/01/2007 arnaldo boccato

    Revelar e discutir momentos importantes do nosso passado recente deve interessar a qualquer cidadão, a qualquer tempo. Apurar novos indícios num episódio visto, revisto e comprovado como esse é dever da imprensa para ajudar a escrever melhor nossa história, até para que não fique qualquer dúvida. E a história nunca será assunto superado. Colocar os fatos do passado em perspectiva correta pela mídia serve para que o cidadão entenda melhor e reflita sobre os descaminhos que levaram, por exemplo, à descaracterização da representatividade no Senado e na Câmara Federal. Sofremos, sim, com os atos de exceção que criaram biônicos e falsos representantes de grupos, partidos, sub-partidos e pseudo-partidos que se perpetuaram no poder e até hoje assombram o Congresso e a nossa política.

  12. Comentou em 14/01/2007 José de Souza Castro

    Parabéns, Luiz Weis, pelo artigo e pelas valiosas dicas para que o assunto seja melhor investigado. É um equívoco, na minha opinião, achar que o tema não interesse. As tentativas de reescrever a história para tirar-lhes os borrões que mancham as honras de certos personagens infames são sempre recorrentes. Parece ser o caso desse ex-governador paulista de triste memória. Serviços secretos de impérios sempre procuraram se aproximar de jornalistas influentes e, se possível, cooptá-los, mas duvido que esse seja o caso de Herzog. Por mais dorminhoco que possa ser o SIS, ele deve ter tido conhecimento quase imediatamente da prisão de Herzog e, se fosse um seu agente, teria meios de avisar às autoridades brasileiras a tempo de impedir seu ‘suicídio’. Na época, a Inglaterra estava em excelentes relações políticas e comerciais com o Brasil e o SIS era um respeitado parceiro da CIA, cuja palavra soava como uma ordem para nossos médicis e geisels. De qualquer forma, é uma boa história, e acho que a Folha de S. Paulo não deixará perder o fio da meada.

  13. Comentou em 14/01/2007 Maria Turci

    Ai, ai, esta Folha…………

  14. Comentou em 14/01/2007 Marco Costa Costa

    O assunto Vladimir Herzog esta mais que superado. Senhor jornalista o povo esta interessado nos acontecimentos de hoje. Políticos corruptos, custo de vida insuportável para a maioria das famílias, crianças abandonas a própria sorte, crianças morrendo de inanição, PCC, PV, sem-terra, sem-saúde, sem-moradia, sem-educação, ou seja, este é o país dos sem-nada. A imprensa esta preocupada somente com a sua existência, a qual bate na mesma tecla da livre expressão democrática. A imprensa não tem compromisso com os trabalhadores que vivem manietados pela censura, pela falta de lideres que lutem ao seu lado, a fim de reverter este quadro de escravidão em que a população esta envolvido. Abaixo esta notícia que não trás nenhum benefício a nós brasileiros!!! Obs.: Quantos pobres morreram nas masmorras brasileira em função de torturas????????

  15. Comentou em 14/01/2007 Dante Caleffi

    Senilidade, pode ser considerada quando os conflitos gerados pela idade ,desafiam a razão e o senso comum.Teria Paulo Egydio Martins,governador de São Paulo,naquela época , com ´perfil de ‘play-boy’,informação do que realmente estava acontecendo nos porões da ditadura,mais precisamente,naquele sinistro endereço, da rua Tutóia?
    Ou as vendas dos jornais,nessa época árida de notícias políticas,ensejam
    aventuras especulativas,com o propósito de aumentar a tiragem?Até se compreende,que todo veículo ,tem o seu dia de VEJA. A questão é,como essa história se sustenta? Como retroceder? Não basta o papel subalterno que a grande imprensa se submeteu na campanha eleitoral passada? Agora atiram contra os próprios colegas ou ‘companheiros’,conforme o jargão desejado. Se querem aprofundar, sirvam-se: logo ali próximo da ABRIL, uma cratera está disponível àqueles profissionais que buscam fundo a notícia.

  16. Comentou em 14/01/2007 Ivan Moraes

    Desenvolvendo o assunto –mas sem qualquer insinuacao–, Vladimir Herzog era o tipo de intelectual que de fato seria convidado a fazer parte de um servico de inteligencia. Porem, alguem realmente, realmente, *realmente* acha que o servico secreto britanico deixaria passar em branco a morte de um de seus agentes?!?!?!

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