Segunda-feira, 12 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1012
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O pior e o melhor da cobertura da campanha

Por Luiz Weis em 29/09/2008 | comentários

Toda informação jornalística é para o público. Mas nem toda produção jornalística se pauta pela perspectiva do público.

A cobertura das campanhas eleitorais é prova disso. Tome-se a deste ano, começando por onde a imprensa tropeçou.

Quando ela dá espaço – e quanto! – ao que os candidatos fazem nas ruas em busca de votos, quando transforma páginas em ringue para eles se baterem, ou, pior ainda, quando os provoca para brigar, indo atrás de declarações hostis de uns e do revide de outros, só aparentemente os jornais estão a serviço do eleitor, em primeiro lugar.

A narrativa das chamadas incursões eleitorais e dos antagonismos entre os participantes da competição (candidatos, partidos e apoiadores) pode, ou geralmente não, interessar a maioria dos leitores. Mas sempre será transmitida a partir da perspectiva dos políticos.

Eleição depois de eleição, pesquisas qualitativas (com grupos de pessoas) indicam que a audiência do horário eleitoral se irrita com a troca de acusações na propaganda – o eleitor sente, com razão, que enquanto os candidatos se dirigem, ou rosnam, uns para os outros, não falam com ele, ou seja, dos seus problemas.

Pelo mesmo motivo o eleitor se distancia do transbordante noticiário das peripécias dos políticos em campanha, o que inclui, destacadamente, atacar os adversários e deles se defender, às claras, ou mais frequentemente, plantando maldades.

Esse é um prato feito com os ingredientes que eles oferecem muitas vezes segundo receitas que os seus marqueteiros montaram, para consumo dos círculos dos próprios interessados diretos ou indiretos – tudo somado, bastante gente, sem dúvida, mas uma fração apenas dos leitores, que dirá dos eleitores.

Faz parte da construção da disputa – a tal da dinâmica da campanha. Tem a ver também, portanto, com a propagação gradual de fatos e factóides para aqueles setores do eleitorado que se supõe capazes de influenciar os demais votantes nos grupos da população em que se movimentam e se exprimem. Claro: se não, para quê?

O essencial, em todo caso, é que nessa a história a imprensa submissa à agenda dos políticos funciona como correia de transmissão dos interesses em confronto.

Pautados, em última análise, pelo medo de serem deixados para trás pela concorrência, os jornais simplesmente não têm coragem de reduzir ao mínimo dos mínimos, na base do “para não dizer que não demos”, esse varejão a que, repetindo, só uma parcela mínima do eleitorado dá trela.

A imprensa entra no jogo por outra razão ainda. O jornal que cortar, por exemplo, uma de cada duas colunas que costuma gastar com o ramerrame – em alguns dias o corte poderia ser ainda maior, mas passemos –, terá de pôr outra coisa no lugar, na mesma seção política. O que exigirá do seu pessoal imaginação e transpiração, pelo evidente fato de que a política está voltada para isso, e outros assuntos políticos teriam de ser garimpados no contra-fluxo, digamos. No fim das contas, devem pensar – se é que –, melhor ficar com o seguro (e menos trabalhoso).

Alguns certamente acham que jornalismo eleitoral é isso mesmo, faz parte, porque candidato é notícia, tirando a turma do traço nas pesquisas – ainda que a matéria ignore por completo o ângulo do eleitor.

Aqueles outros seus colegas que sabem que o leitor tem mais com o que se ocupar, em vez emprestar o seu tempo à leitura dessas formidáveis banalidades, devem fazer o que é tão comum nas redações: dar de ombros e tocar a vida.

Se esse é o lado escuro da cobertura da campanha, o lado luminoso resultou de levar ao pé da letra o caráter municipal desta eleição, fazendo da cidade e dos seus problemas o grande personagem do ano político.

Os grandes jornais se puseram a percorrer sistematicamente as suas cidades, seja no sentido literal, dissecando região por região – como a excelente série da Folha com os “DNAs” das grandes áreas de São Paulo, culminando com o “DNA paulistano” – seja focalizando os problemas que as perpassam.

Nos dois casos, fizeram os candidatos se manifestar sobre eles, um a um.

Isso é jornalismo eleitoral da perspectiva do eleitor – que é quem paga pelas mazelas urbanas e vai votar nesse ou naquele candidato a partir das expectativas que tiver formado em relação ao que cada um fará, ou deixará de fazer, a respeito desses mesmos problemas.

Não se supõe com isso que a maioria dos leitores tenha passado o pente fino pelos assuntos que os jornais focalizaram e sobre os quais cobraram posições dos candidatos. Não se supõe, tampouco, que as expectativas em que se apoiem as decisões de voto sejam necessariamente realistas.

Mas a imprensa não só se debruçou, como se diz, sobre o que aflige as populações no dia-a-dia, como editou o que apurou com a preocupação de atrair o leitor e facilitar a leitura dessas matérias. E nas entrevistas/sabatinas com os candidatos os pressionou, dentro do que as circunstâncias permitem e sem facciosismos aparentes, para ver se as suas idéias e promessas ficam em pé.

Os próprios critérios de seleção e apresentação das questões de interesse local cumprem ainda a função de alertar o eleitor um tanto mais distraído para o que conta ao seu redor.

Agora, se paulistanos e cariocas – para ficar nos moradores das cidades dos três grandes jornais nacionais – elegerem prefeitos “errados” não se culpará a imprensa por isso, a menos na hipótese pouco provável que ali onde houver segundo turno a mídia mude de atitude.

Outra boa notícia é que os jornais estão tratando melhor a numeralha das pesquisas – um tradicional ponto fraco do jornalismo eleitoral (e do jornalismo em geral, que ainda confunde, por exemplo, cair com crescer menos).

Há um esforço de debulhar os grandes números para que, a cada rodada, façam mais sentido para o leitor interessado. No entanto, faltam em geral textos que procurem relacionar a evolução das preferências apuradas pelas sondagens com a propaganda dos candidatos no horário gratuito – que muitos jornalistas tendem a desprezar. Exemplo desse exercício difícil, de resultados incertos, mas proveitoso para o leitor que neles se detenha são os comentários semanais da socióloga Fátima Pacheco Jordão, no Estado de S.Paulo.

Com o aprendizado trazido pela sucessão dos ciclos eleitorais, há cada vez menos desculpas para a grande imprensa não fazer o que se espera do jornalismo eleitoral de boa qualidade: dar ao público, de forma articulada, os fatos que permitam entender o desenvolvimento de uma campanha e expôr (no duplo sentido da palavra) os candidatos e suas propostas, para ajudar o eleitor a se decidir com base numa visão crítica das alternativas diante de si.

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