Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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O pior Natal da história da imprensa norte-americana

Por Carlos Castilho em 09/12/2008 | comentários

Raríssimas redações terão algo para comemorar neste fim de ano nos Estados Unidos. Na maioria dos jornais e revistas norte-americanos o ambiente está pesado. O clima de pessimismo generalizado aumentou de intensidade com o pedido de concordata do jornal Chicago Tribune, com a colocação a venda do jornal Miami Herald e a confirmação de que outro titulo tradicional, o Rocky Mountain News, simplesmente não acha quem o queira comprar.


 


É muita noticia ruim em tão pouco tempo e a expressão efeito-dominó começa a ser mencionada com inquietante freqüência nos blogs e publicações especializadas em noticias sobre a imprensa. O próprio The New York Times não conseguiu escapar da boataria depois que o mais respeitado jornal dos Estados Unidos hipotecou parte de sua recém-inaugurada sede como garantia de um empréstimo de 225 milhões de dólares.


 


Além do Chicago Tribune, o grupo Tribune, controla mais jornais de grande porte, como Los Angeles Times, Baltimore Sun, Sun Sentinel e Hartford Currant. O conglomerado de oito jornais e 23 emissoras de TV acumulou dívidas de 3,5 bilhões de dólares com bancos e 8 bilhões de dólares com investidores privados. Segundo especialistas como Phillip Stone, do instituto Follow the Media, dificilmente a concordata salvará grupo Tribune porque há jornais demais à venda no mercado americano.


 


O escritor e consultor de comunicação, Paulo Gillin, criou o blog Newspaper Death Watch para acompanhar a agonia de grupos jornalísticos norte-americanos. O obituário do blog relaciona nove títulos de importância nacional e regional desaparecidos desde 2006. Já o “corredor da morte” inclui mais de 15 publicações que lutam para sobreviver a uma dupla ameaça: queda de 18,2% nas receitas publicitárias e redução média de 10 a 15% na circulação.


 


A colocação a venda do Miami Herald marca mais uma derrota do grupo McClatchy, que no ano passado comprou a maior parte dos jornais da cadeia Knight Ridder para logo em seguida revender 12 títulos com um prejuízo de quase 50 milhões de dólares. O grupo manteve, no entanto, o controle do Herald por considerá-lo lucrativo, mas agora é obrigado a reconhecer o seu fracasso quase total.


 


O grande número de jornais à venda jogou os preços para baixo. Além disso, as ações de grupos jornalísticos enfrentam a pior desvalorização de toda a história da imprensa norte-americana. Agora se explica por que a revista TV Guide, que chegou a ter uma circulação de 100 milhões de exemplares semanais, foi vendida por um dólar. O comprador arcou com uma divida de 100 milhões de dólares.  


 


O efeito-dominó deve mudar radicalmente a cara da imprensa nos Estados Unidos a partir de 2009, prevê Steve Outing, comentarista da Editor & Publisher, uma respeitada revista especializada na cobertura da imprensa. Ele aposta no desaparecimento de publicações tradicionais, algumas com mais de um século de existência, e o surgimento de iniciativas novas focadas basicamente no noticiário local.


 


Outing faz 10 sugestões aos atuais executivos de jornais norte-americanos visando reduzir o impacto da crise e evitar o “corredor da morte” na imprensa. A última e mais sintomática recomendação é: “Avalie seriamente a possibilidade de aposentadoria antecipada”.

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/12/2008 charles c

    O problema também atinge muitos grupos regionais. E, além dos Estados Unidos, o Reino Unido enfreta problema similar. Segundo pesquisa do Enders Analysis, mais de um terço dos jornais regionais do país devem fechar entre 2002 e 2013. Publicações locais já fecham numa taxa média de 10-15 por semana.

  2. Comentou em 13/12/2008 José Antonio Meira da Rocha

    Jornais eram negócios com margens de lucro de 20%, quando a indústria em geral tem margens de 2,5%. Essa era acabou, com modelos publicitários que pagam apenas anúncios eficientes (como no modelo Google AdSense), ou com novos comportamentos do consumidor, que faz busca na rede por preço baixo em vez de ir atrás de anúncios. Perde o negócio de papel sujo de tinta, ganham os consumidores, que antes pagavam caro pelas duas pontas: pagavam por papel, e pagavam por produtos anunciados em papel, que tinham os altos custos publicitários embutidos.
    Agora que o preço da notícia na ponta consumidora caiu tremendamente pela digitalização, o desafio é também diminuir o custo na ponta produtora. Quem conseguir fazer isto, e conservar a grife de nogócio jornalístico, sobreviverá. Notícia ainda é uma marca à venda.

  3. Comentou em 12/12/2008 Luiz Henrique Lusvarghi

    …E por aqui não há crise na rede Globo, nem na Band – que aliás, afirmou com um rigor cesariano que com crise ou sem crise, vamos crescer, aliás, a Bandeirantes vende muito pra senhores que vendem fé e pra quem tem fé, não tem Natal ruim – nem na Record, que é a encarnação da própria fé, nem na Rede TV, nem em jornais nenhum, nem aqui no Ibest, nem lugar algum…Avisem ao resto do mundo que Não há crise nos principais meios de comunicação no Brasil, senhores!!!…são contratos de financiamentos prorrogados e prorrogados e prorrogados até a próxima eleição…Com crise! Ou sem crise!

  4. Comentou em 11/12/2008 alvaro marins

    O Natal da mídia brasileira este ano vai ser de lascar; o governo Lula acaba de reduzir as alíquotas do IR para o ano que vem. Tô doido para ver como o PIG vai transformar essa medida em má notícia.

  5. Comentou em 11/12/2008 Zé da Silva Brasileiro

    Alguém saberia dizer de onde vem o dinheiro que financia a mídia brasileira? Enquanto dispomos de informações pormenorizadas sobre a situação econômico-financeira dos grupos americanos de imprensa, aquí no Brasil paira um sigilo total sobre o assunto… Aparentemente a mídia brasileira vai muito bem, anunciando inclusive o aumento da tiragem dos jornais. A dúvida que tenho é se esse aumento na tiragem não corresponde efetivamente apenas aos jornais de 25 ou 50 centavos. Aquí em Belo Horizonte tivemos no ano passado o fechamento do vespertino ‘Diário da Tarde’ com 70 anos de existência. Enquanto isso é comum você tomar um táxi e encontrar 5 ou mais exemplares (da mesma data) de jornais de 25 centavos. Os taxistas compram para trocar por brindes… O fato é que, se acreditarmos no que está sendo reiteradamente divulgado, a mídia brasileira é uma ilha de prosperidade num mar tempestuoso de falências, concordatas e fechamento de jornais. Observa-se ademais a falta de solidariedade dos proprietários de jornais brasileiros com os seus coleguinhas de outros países. Por que manter secreta a fórmula do sucesso enquanto lá fora os jornais e jornalistas estão comendo o pão que o diabo amassou?

  6. Comentou em 11/12/2008 André Marques Silva

    Creio que esse momento da imprensa norte-americana seja uma decorrência da crise da economia norte-americana. Se a Ford teve que contar com um empréstimo para arrumar a casa, imagine só o grande número de empresas em situação dificil, e consequentemente algumas empresas de comunicação também. Analisando de forma mais ampla, acredito que o momento é de reflexão a respeito do capitalismo, e a que ponto ele chegou. Os EUA tem mostrado ao longo dos últimos 60 anos maior identidade com o capitalismo, ditando o ritmo social de quase todo o mundo. Como na vida sempre acreditei que tudo é ruim na dose errada, me convenço que abusou-se do regime capitalista, e agora o mundo sofre as consequencias.

  7. Comentou em 11/12/2008 dante caleffi

    Crise da mídia americana, só não é maior,porque não possuem Miriam Leitão,Merval Pereira,Carlos Sandeberg,Ricardo Noblat,Josias de Souza , em seus quadros.

  8. Comentou em 10/12/2008 álvaro marins

    Por aqui só tem notícia ruim para a mídia também : 1) Popularidade do governo Lula aumentou 6% e chegou a 70% (novo recorde), mesmo depois de dois meses de terrorismo midiático para que crise chegue no Brasil e ajude a derrubar o presidente (grande sonho de consumo da mídia nativa); 2) Para piorar, o PIB brasileiro, anualizado, de novembro, bateu 6,8%, contra toda a torcida da oposição e dos ‘especialistas’; 3) Daniel Dantas foi condenado pela segunda vez, agora pela justiça do Rio. Ou seja, nenhuma dessas notícias ajudam a alavancar a candidatura do governador José Serra à Presidência da República, o que torna o Natal da mídia brasileira um velório só. E isso é bom; sinal de que o Natal dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil será ótimo.

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