Sábado, 25 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº937

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O poeta, o espião e os ‘traços de direita’

Por Luiz Weis em 10/03/2007 | comentários



Morreu ontem, aos 90 anos, o poeta Gerardo Mello Mourão.


Hoje, ao noticiar o falecimento, o Globo omite que Mourão pertenceu à Ação Integralista, os camisas-verdes do arremedo de Fuhrer Plínio Salgado, e que foi condenado à morte, durante a guerra, como espião nazista no Brasil. [A pena foi comutada para 30 anos de prisão. Ele acabou cumprindo menos de seis, libertado em 1948].


O Estado se limita a informar que Mourão ‘esteve preso diversas vezes, por razões políticas, durante o Estado Novo (1937-1945) e a ditadura militar iniciada em 1964’ e que ‘a sua passagem mais longa pela cadeia durou quase seis anos, entre 1942 e 1948’. Nenhuma palavra sobre a condenação por espionagem.


A Folha, onde Mourão trabalhou como correspondente em Pequim, no começo dos anos 80, teve a decência de não omitir a história. Lembra até que ‘em 1977, no livro Suástica sobre o Brasil, o brasilianista Stanley Hilton acusaria o escritor de ter participado de uma rede de espionagem nazista no país’.


 


[Quando o livro saiu, o jornalista Zuenir Ventura, então na Veja, foi atrás do alemão citado por Hilton como o contato do espião no Rio e que Mourão dizia desconhecer. Perguntado se o conhecia, o homem abriu um sorriso na hora e perguntou: ‘Ah, como vai o Gerrrardo?…’]


 


Mas todo o bom serviço da Folha vai por água abaixo quando o autor do texto não assinado escreve que o integralismo [organização que macaqueava o fascismo italiano, com uma ala abertamente nazista e anti-semita, liderada pelo infame Gustavo Barroso] era apenas e tão somente um ‘movimento nacionalista, com traços de direita‘.


 


Os integralistas ajudaram a implantar o Estado Novo. O pretexto para extinguir a democracia da Constituição de 1934 foi um documento apócrifo sobre um suposto projeto de comunização do Brasil, sintomaticamente intitulado ‘Plano Cohen’, no espírito dos Protocolos dos sábios de Sião, forjado na Rússia ainda czarista.


 


Quem o escreveu foi o capitão do Exército e camisa-verde assumido Olímpio Mourão Filho. O papel foi divulgado como autêntico em setembro de 1937. Em novembro, Getúlio fechou o Congresso e instaurou a ditadura, com o apoio do todo-poderoso ministro da Guerra, general Pedro Aurélio de Goes Monteiro, simpatizante da Alemanha hitlerista. [Em 31 de março de 1964, Mourão, comandante militar em Minas, daria início ao golpe contra o presidente João Goulart. Mais tarde, numa entrevista, definiu-se como ‘vaca fardada’.]


 


***


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Todos os comentários

  1. Comentou em 08/07/2007 Miguel Fernandes

    Luiz Weis está coberto de razão. E não é preciso discutir algum mérito (?) equívoco do integralismo para constatá-lo. Basta folhear o panfleto Hitler e a Igreja Católica (Egreja Catholica, no original) que Mello Mourão escreveu, no início da década de 1940. Livro hoje muito raro, já que o poeta, em virtude do chamado ‘Pacto del Victoria’, cuidou de queimar zelosamente a sua obra produzida nesse período. Mello Mourão declarava, inclusive, queimar eventuais exemplares de material produzido nessa época achados em sebos, posteriormente. Unzinho ele não queimou, contudo. Econtra-se numa prateleira da minha estante e permanece à disposição do Luiz Weiss, para mais um artigo contundente, desta vez com material para entender bem o que foi o ‘flerte’ de Mello Mourão não com o fascismo italiano, mas com o hitlerismo mais virulento.

    Em Hitler e a Igreja Católica, o poeta expressa suas ardentes esperanças de ver unidos os tronos de César e Cristo — Hitler e o Papa. Contra essa santa aliança, maquinam nas sombras sórdidos complôs judaico-maçônicos. Para acabar com a súcia, Mello Mourão vem explicar e justificar o anti-semitismo nazista com base em Tomás de Aquino, mostrando que um bom católico pode, sim, ser anti-semita roxo. Muito competente, erudito. E podre.

  2. Comentou em 03/06/2007 Victor Emanuel Vilela Barbuy

    É importante lembrar que o Integralismo foi o primeiro movimento cívico-político deste País a condenar o racismo e também um dos primeiros a possuir negros em suas fileiras, inclusive em posições de liderança, negros que se contam aos milhares e incluem personagens como João Cândido, Abdias do Nascimento, Guerreiro Ramos, Ironides Rodrigues e Sebastião Rodrigues Alves.
    Também foram integralistas muitos judeus, como Aben-Atar Neto (aliás amissíssimo de Gerardo), Roberto Simonsen, Lans Grinover e Adam Steinberg.
    Quanto ao famigerado ‘Plano Cohen’, sugiro ao autor do texto que leia ‘A Ameaça Vermelha’, de Hélio Silva, ‘O Homem e o Muro’, de Rubem Nogueira e ‘História das Revoluções Brasileiras’, de Glauco Carneiro, para que saiba que Olympio Mourão Filho não teve culpa nenhuma da divulgação de seu documento por Góis Monteiro, como ficou provado perante o Conselho de Justificação do Exército, que considerou plemanente justificado o Coronel Mourão Filho.

  3. Comentou em 03/06/2007 victor Emanuel Vilela Barbuy

    Chamar Plínio Salgado – o primeiro homem público brasileiro a condenar o nazismo, primeiramente em seus artigos de jornal e depois em sua ‘Carta de Natal e Fim de Ano’, de 1935, além de um de nossos maiores escritores, tendo escrito obras como ‘O Estrangeiro’ (considerado por Mario de Andrade como o maior romance de sua geração) e a ‘Vida de Jesus’, que o Padre Leonel Franca chamou de ‘jóia de uma literatura’ – de ´arremedo de Fuhrer’ é algo que só ilustra a ignorância ou má-fé do autor deste artigo, que tenta denegrir a imagem de Gerardo Mello Mourão, o maior poeta do Brasil.
    É também um absurdo chamar de infame a Gustavo Barroso, um dos mais ilustres escritores, folcloristas e historiadores deste País, que presidiu a Academia Brasileira de Letras e fundou o Museu Histórico Nacional, tendo como única nódoa em seu pensamento o anti-semitismo, anti-semitismo este que – como bem observou o Prof. Goffredo Telles Junior em entrevista à ‘Resenha Judaica’- era uma posição sua e não do Integralismo.
    O Integralismo, longe de ser mero arremedo do fascismo, se inspira sobretudo nos ensinamentos perenes do Evangelho, na Doutrina Social da Igreja e no pensamento de autores como Farias Brito, Jackson de Figueiredo, Euclides da Cunha e Alberto Torres, defendendo a Democracia Integral e o Estado Ético, em oposição ao cesarismo e ao Estado Totalitário de inspiração hegeliana.

  4. Comentou em 06/05/2007 Franck Albert ZAOUI

    Eu sou abismado e muitissimo em choque de ler as suas linhas, enquanto o Gerardo Mello Mourão faleceu ha alguns dias e você não tem a decencia de respeitar a dor dos familiares dele. Em segundo eu gostaria de lhe dizer que você precisa de ler novamente a historia do brasil, eu não falo da historia oficial, pois esse movimento integralista era em primeiro uma reação contra a influencia dos USA, e muitos integrantes eram judeus, sim senhor, então como esse movimento podia ser antisemita, e esses judeus atuavam como cidadãos orgulhosos de defender o pais deles.

  5. Comentou em 21/03/2007 CÁSSIO GUILHERME GUILHERME

    SOU O PRESIDENTE DO MOVIMENTO INTEGRALISTA E LINEARISTA BRASILEIRO E TENHO MUITO ORGULHO DE SER INTEGRALISTA. O INTEGRALISMO FOI O PRIMEIRO E ÚNICO MOVIMENTO DE MASSAS NO BRASIL A CONGREGAR TODAS AS RAÇAS E CREDOS, NEGROS, JUDEUS, JOVENS, ÍNDIOS, EM TORNO DE UM OBJETIVO NACIONALISTA E ESPIRITUALISTA. O INTEGRALISMO NUNCA TEVE NADA A VER COM FASCISMO OU NAZISMO, VISTO QUE ERA UMA IDEOLOGIA ESPIRITUALISTA, EM CONTRAPOSIÇÃO AO MATERIALISMO. ERA CONTRA O COMUNISMO E O CAPITALISMO, FACES DA MESMA MOEDA E SERVIÇAIS DOS BANQUEIROS INTERNACIONALISTAS. O COMUNISMO, REPRESENTAÇÃO DE SATÃ NA TERRA, CONDENOU MAIS DE 100 MILHÕES DE SERES HUMANOS AO EXTERMÍNIO, E FOI PATROCINADO PELOS BANQUEIROS CAPITALISTAS ROTSCHILD, ROCKFELLER, WARBURG E JP MORGAN. ANAUÊ AMIGO GERARDO MELLO MOURÃO, DESCANSE EM PAZ NA MILÍCIA DO ALÉM, LAR ETERNO DOS CAMISAS VERDES, INTEGRALISTAS E LINEARISTAS.

  6. Comentou em 13/03/2007 Ernesto Mangelstein

    Pessoas que flertaram ou se envolveram com grupos de direita na juventude muitas vezes acabam ficando com a pecha de ‘fascistas’ pelo resto e suas vidas, mesmo que tenham refletido e alterado a sua forma de pensar no decorrer dos anos. Outros acabam sendo perdoados, como foi o caso de Dom Helder Câmara ou do folclorista Câmara Cascudo, ambos simpatizantes do integralismo na décade de 30. Por outro lado, Carlos Lacerda foi um combativo militante comunista naquele mesmo período e deu uma guinada radical para o ouro lado na maturidade. Finalizando, acho injusto rotular o poeta Gerardo Mourão como integralista e deixar de discutir o que de mais importante ele deixou – uma monumental obra literária.

  7. Comentou em 12/03/2007 Ricardo Camargo

    Não aceito o integralismo, embora tenha de reconhecer que, em seu seio, abrigou intelectuais do mais alto gabarito, como fio o caso tanto do Reale como do San Tiago Dantas – que, mis tarde, chegaria a ser um dos homens de maior destaque entre os Ministros de João Goulart. Minhas discordâncias, contudo, não me conduzem a chamar de infame um intelectual como Gustavo Barroso, quer porque, no sentido técnico, ele não o era (não foi privado de direitos nem podia ser considerado desprovido de honra), quer porque desnecessário chamá-lo assim para caracterizar o seu notório reacionarismo. Divirjamos, mas não desrespeitemos.

  8. Comentou em 12/03/2007 Fabio de Oliveira Ribeiro

    O Mourão foi integralista. O Miguel Reale também. Os integralistas (dentre os quais o próprio Reale) realizaram uma tentativa de golpe contra Vargas, que isolou o ditador e sua família no Palácio do Catete durante algumas horas. O Mourão lá estava de 38 em punho ou seu extremismo era apenas verbal?

  9. Comentou em 12/03/2007 Ernesto Mengesltein

    Há divergentes leituras sobre as razões que levaram ao golpe de Estado de Vargas em 1937. Se vivesse nos tempso atuais, o general Mourão seria tachado como um aloprado. O seu fictício Plano Cohen foi sim o pretexto de Vargas para implnatrar o Estado Novo. Porém, o líder integralista Plinio Salgado era candidato à Presidência e no final das contas foi prejudicado pela insensata atitude do aloprado militar. Com forte perfil personalista Vargas temia que o integralismo ou qualquer outra ideologia sensibilizasse a população e aproveitou o fictício Plano Cohen para ficar no poder. Mourão foi acusado de espionagem pró-Hitler assim como líderes de esquerda foram acusados e presos por colaborarem com Stalin. Não seria a hora de se fazer uma revisão deste período e enquadrar Vargas na pasta destinada aos ditadores?

  10. Comentou em 12/03/2007 Márcio Pereira

    Mais um pra perturbar o capeta…

  11. Comentou em 11/03/2007 Dante Caleffi

    Episódios como esses,necrológico de personalidade,como de Gerardo Mello Mourão, com seu passado integralista e com a agravante acusação
    de espionagem a favor das forças do Eixo, ilustram as simpatias e os compromissos da grande imprensa brasileira. Personagens atuantes na vida política nacional,com passado diverso,mais nobre,que arriscaram
    a vida combatendo a ditadura fascista, tem tratamento bem diverso ,dessa mesma imprensa.Confirma a impressão da existência nos pastos da’ grande imprensa’,um alentado rebanho de vacas à paisana.

  12. Comentou em 11/03/2007 Marco Costa Costa

    Traços de direita é característico do ser humano. Seja qual for o sistema o que interessa é conforto material. Em suma, o verdadeiro Deus do homem chama-se dinheiro. O Governo, empresário, profissional liberal, operário, prostituta, camelo, traficante, padres, pastores, muambeiro, contrabandista, proxenetas entre outros gêneros de sobrevivência, correm atrás do dinheiro. No final das contas a vaca vai para o brejo. Quanto ao Mourão, ninguém sabe se foi para o céu ou inferno?

  13. Comentou em 10/03/2007 Maurício Tuffani

    Luiz, de fato a qualificação da Folha é muito estranha. Eu até aceitaria se ela envolvesse uma distinção mais rigorosa do movimento dos galinhas-verdes, como a de José Chasin em sua tese de doutorado que virou livro, ‘O Integralismo de Plínio Salgado’, cujo subtítulo já dá o recado: ‘Forma de regressividade do capitalismo hipertardio’. Ele não enquadra o integralismo no conceito de fascismo na medida em que este — seja com Hitler, Mussolini, Franco, Salazar ou até mesmo com os que não chegaram ao poder, como Maurras e Mosley — visava a seu modo desenvolver as tais forças produtivas materiais, ao passo que, segundo Chasin, o integralismo de Plínio Salgado — e certamente havia facções mais conectadas com o que seria o papel histórico do fascismo — queria mais é girar para trás a roda da história. Mas, deixando a coisa solta como deixou e atribuindo ‘traços de direita’, a Folha confunde o leitor. Acho que mesmo para um direitista convicto essa última deve ter parecido ridícula. Abraço.

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