Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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O porquê de uma crise crônica

Por Luiz Weis em 28/05/2009 | comentários

“Contextualizar” é um daqueles verbos abomináveis arrancados a fórceps de um substantivo – no caso, contexto.


Mas contextualizar é o que mais se cobra, com razão, do jornalismo, para que vá além da notícia em estado bruto, com informações adicionais que lhe deem sentido e perspectiva.


É o bom e velho por quê – ou os porquês – das coisas.


Sinal de como os jornais brasileiros pouco se empenham em oferecer ao leitor esse acompanhamento que o ajudará a digerir o prato principal, a “contextualização” é bem mais frequente no noticiário do exterior, seja porque as agências internacionais se encarregam disso, seja porque os editores transcrevem textos desse tipo saídos na imprensa estrangeira. O exemplo da hora são as matérias que procuram ligar os pontos da história da explosão de uma bomba atômica na Coreia do Norte.


Por isso quando sai algo do gênero em relação a um assunto nacional – e quando esse algo é de primeira qualidade – seria injusto não destacar o esforço bem sucedido.


Todos os jornais que contam deram na quinta-feira, 28, os principais resultados do censo do Ministério da Educação que pela primeira vez apresenta um amplo perfil do 1,8 milhão de professores que trabalham da creche ao ensino médio, em escolas públicas e particulares.


O levantamento informa, por exemplo, em quantas escolas e turnos os professores trabalham, para quantas turmas, quanto ganham e qual é a sua formação para as disciplinas que lecionam, conforme o nível dos cursos.


Assim se ficou sabendo que um em cada quatro professores da quinta à oitava série não tem diploma de curso superior com licenciatura, como exige a lei, e que um em cada cinco não tem nenhuma graduação. E ainda que pouco mais da metade dos docentes que ensinam física no curso médio não se formaram em física – o pior caso de descompasso entre quem ensina e o que ensina.


O problema era já conhecido das autoridades do setor, assim como se conhece a causa fundamental da baixa qualificação de muitos professores – salários baixos também.


Mas o repórter Antônio Gois, da sucursal carioca da Folha de S.Paulo, foi além disso, na matéria de contexto intitulada, um tanto obviamente, “Com esse salário, quem quer ser um professor?”


Ele garimpou na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), do IBGE, a informação de que “na comparação de 30 ocupações que exigem nível superior, as cinco de menor rendimento médio são todas relacionadas ao magistério” – e mostra os números que dão ideia do tamanho do buraco.


Ele deu outro passo ainda. Capturou nas respostas ao questionário socioeconômico preenchido pelos participantes do Enade, o exame que substituiu o Provão, que “os alunos em cursos de formação de professores são os mais pobres, de famílias menos escolarizadas e que mais estudaram na rede pública”.


E fechou com uma pergunta que já traz embutida a resposta: o que é mais vantajoso para um licenciado em áreas que já não dão conta da demanda, como matemática, física e química: lecionar uma dessas matérias em troca de uma paga inicial de R$ 1.335, ou prestar concurso público para ser bancário, ganhando de saída R$ 2.216?


Eis um dos grandes porquês – se não o porquê – da crônica crise da educação brasileira.


[Assinantes da Folha ou do UOL podem ler o artigo aqui.]

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/06/2009 Thiago Miranda

    sr. Luiz Weis,
    salário de R$ 1.335, 00 para professor, aonde mesmo?
    Em Minas Gerais o sr. Aécio Neves paga R$ 500, 00 de salário base aos professores para uma carga horária de 24 horas semanais. Com todas as gratificações o salario bruto não ultrapassa os R$ 850,00.
    Se esquecer de dizer que recebemos não mias que R$ 32, 00 como ‘auxílio’-transporte….diz ai , é de rir ou de chorar?
    Quer saber mais? Procura saber como são feitas e oque significam as ‘avaliações de desempenho’ em nosso estado; culpabilizar o professor e tacha-lo de incompetente num situaçãode desta deveria ser crime. Sabe qual a punição pro delito? Virar professor!!!!!! hahahah!!!

  2. Comentou em 01/06/2009 Sergio da Silva

    Essa história sobre a falência do ensino, eu, já com 55 anos, vi e ouvi muitas vezes. A impressão que tenho é que nossos líderes e nossa classe dirigente pensam que o ensino não serve para nada, ao menos nada para eles. E essa sim é que é a verdadeira causa da falência da educação. O dia (espero que eu mesmo possa ve-lo) em que nossos políticos e dirigentes pensasrem no povo, como compatriotas e não como votantes então talves queiram dar para esse povo o tipo de educação que eles reservam para os seu filhos netos etc. Mas isso, pelo que posso vislumbrar está muito longe de acontecer.

  3. Comentou em 01/06/2009 Sergio Ribeiro

    Como comentou outro colega bancário, o piso dos funcionários de BB e Caixa Econômica não passa daquilo mesmo. De qualquer forma, não está muito longe do de professor, que além de ganhar mal, está sujeito à violência, à total falta de estrutura, às dificuldades para atualização e reciclagem, entre outras. Muitos profissionais têm mudado de ramo, se afastado por motivos de saúde, principalmente psíquica.
    O bancário também tem seus problemas, mas os dos professores parecem maiores e sem possiblidades momentâneas de melhora. Diversas outras profissões parecem mais vantajosas do que dar aula, que é uma vocação.
    Diante de tantas dificuldades, ser professor parece tarefa para muito poucos corajosos.

  4. Comentou em 01/06/2009 Ângela Meirelles

    Não estão banditizando o professor?? Deve ser miragem… Chama o Dimenstein, o Gustavo Ioschpe e o Cláudio de Moura e Castro)!!!

  5. Comentou em 30/05/2009 Carlos de

    Estou cansado e insistir que o maior problema reside nas séries finais $ª a 8ª do ensino fundamenta e no ensino médio. Neste artigo, isto ficou patente! O levantaamento foi realizado entre ‘professores que trabalham nas creches até o ensino medio. Entretanto, no paragrafo que se inicia ‘assim se ficou sabendo…’ fica evidente que ele retrata o ensino ministrado de 5ª a 8ª series e ensino medio. O que eu não concordo é que, em todos os levantamentos, não se fala das primeiras series do ensino fundamental. O articulista precisa saber tambem que no ensino fundamental existem duas escolas, até certo ponto, conflitantes entre si. Mas os analistas, quando falam do baixo nivel do ensino estão precisamente analisando uma das escolas eue funcionam no ensino fundamental, mas parece que fazem aquela confusão, de proposito. Portanto, o baixo nivel de ensino não está no Ensino Fundamental, mas em uma de suas escolas que, infelizmente, herdou todas as mazelas do antino ensino secundario, isto é, o antigo ginasio. AMÉM!!!!

  6. Comentou em 30/05/2009 M.A,P M.A.P

    Prezado jornalista
    Voce tocou no cerne da questão, e que a sociedade brasileira finge não conhecer.
    Sou professor a mais de 25 anos, e nesses anos vi meu salário derreter; primeiro durante o longo e intenso periodo inflacionário.
    Durante o governo Sarney a inflaçaõ mensal chegou a 82% ao mes en quanto que a reposiçaõ salarial dos professores de SP não foi maior que 40 %
    Posteriormente nos ‘gloriosos ‘ anos de FHC todo ajuste orçamentário para cumprir a Lei de responsabilidade fiscal foi realizado em cima das camadas menos nobres do funcionalismo,( ( mais de l5 anos sem reajustes) incluindo ai os funcionários da Educação , Saúde e Segurança Pública.
    Não é a toa portanto, que esses setores estão praticamente destruidos, e o pior sem perspectivas de melhorias, pois as melhores ‘cabeças’ certamente não virão trabalhar nessas áreas.

  7. Comentou em 29/05/2009 Paulo Pereira

    Deu na Folha e o OI repetiu.
    Enquanto isso, o bancário Marlon Silva e os demais leitores do site continuam na dúvida.

  8. Comentou em 29/05/2009 robson novoa santos

    Concordo com a grande maioria dos comentários dos companheiros. Porem a comparação de salário de professores com os bancários como foi posto, pouco diz sobre a educaçãso escolar. Há não ser o baixo salário pago e o ‘inevitável’ corte de gastos e mudança de função orçamento da Un ião para politica educacional. As críticas dirigidas a educação é o reflexo do histórico de nosso país. A formação ominilateral, esta relacionado intrinsecamente no conjunto de relação social estabelecida. Desde a sociabilidade do conhecimento e bens culturais. Tudo depende do patamar de civilidade desenvolvido em nosso país e internacional. Começando pelo nivel de produção material e o nível de conciência desta se chegou. A potencialidade de um país depende do desenvolvimento do conjunto das relações sociais. Um intelectual importantissimo em nosso país diz o seguinte a ‘Democratização da cultura depende do controle social sobre a mídia’. E nas palavras de meu amigo quase irmão diz o seguinte; ‘A realidade é o existente e suas possibilidades objetivas’, afinal pensando o século XIX e hoje, apesar dos apesares, hoje as possibilidades objetivas estão lançadas, maquinaria, ciência-tecnologica, conhecimento, terra, em geral modo de produção, estão aí. Não é mais utopia pensar nisso do que um capitalista pensar que seu modo de vida é o unico e pode continuar sem degradar o processo de democratização….

  9. Comentou em 29/05/2009 robson Novoa Santos

    Parabéns primeiramente pelo texto. Ao Observatório de Imprensa com colunistas bem informados, pelo jornalismo investigativo, pelas boas analises e críticas. O observatório de Imprensa é uma referéncia de compromisso e responsabilidade sem receio da afirmação. A articulação das notícias e artigos com a educação reflete o conjunto de trabalho na sua produção na TV não apenas com a informação, mais também com a contribuição da formação de seus leitores.

    Abraço

  10. Comentou em 29/05/2009 Geraldo Silva

    A mídia (a folha principalmente) tem divulgado dados dando conta de que a educação pública brasileira vai mal. Por outro lado a mesma mídia (folha principalmente) tem publicado textos dos defensores das ações afirmativas nos quais eles alegam que o desempenho dos alunos que entraram na universidade pelo sistema de cotas é igual ou superior ao desempenho dos demais alunos. Eles argumentam que o que excluía esses alunos da universidade era o vestibular que é um sistema perverso e que não avalia conhecimentos. Ora considerando esses argumentos e o fato de a maioria dos alunos beneficiados pelo sistema de cotas ser egressa da escola pública, conclui-se que essas instituições não estão tão mal assim. É só instituir um sistema de cotas para as instituições públicas nessas avaliações e elas estarão bem na fita. E não se fala mais em má qualidade do ensino público brasileiro.

  11. Comentou em 29/05/2009 marlon silva

    concurso para bancario com ganhos iniciais de 2216,00?
    aonde isso?
    banco do brasil é R$942,00
    caixa economica R$1200,00
    podia ter pego exemplo melhor

  12. Comentou em 29/05/2009 fabio galvao

    Contextualizando mais um pouco. Além dos pífios salários, há um sério problema de gestão da educação pública. A universalização não foi acompanhada de investimento. Só em São Paulo, são perto de 5 milhões de aluno e quase 300 mil professores. O poder público perdeu totalmente o controle sobre a rede. Se a DRU realmente for extinta, o ensino público consigará mais recursos. No entanto, é preciso saber administrar este dinheiro. Caso contrário, a situação continuará ruim. As variáveis para melhorar a educação são tantas, mas com certeza, professores bem pagos e uma boa gestão fazem a diferença. A boa notícia é que a sociedade parece estar acordando para a importância estratégica de termos um país bem educado e preparado para competir em igualdade de condições com o resto do mundo. Demora, mas nós chegamos lá

  13. Comentou em 29/05/2009 José Ayres Lopes

    ‘Com este salário’? O jornalista deveria ter completado: ‘E com este material didático pornô-pedagógico do Governo de São Paulo’?
    O problema do Brasil é que além da Educação de 2ª, tem um Jornalismo de 5ª categoria

  14. Comentou em 29/05/2009 José Antonio Ramos

    Faltou informarem quantos, e quais Estados entraram na Justiça contra o piso salaral para professor (R$950,00/mês), porque este valor iria ‘quebrar o estado’. Isto ajudaria muito a compreendar quem realmente prioriza a educação, e quem só tem discurso. Como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.

  15. Comentou em 29/05/2009 dante caleffi

    Ganham tudo isso? Não faz muito, o salário em alguns municípios do NE, naturalmente, MG,para manter o folclore, pagavam abaixo do mínimo nacional.Educação pública há muito deixou de ser prioridade, concorre com as ‘empresas particulares’. O exemplo de São Paulo é lapidar:livros chulos didáticos,geografia sabotada e a secretaria de educação,cooptada pelo oligopólio editorial,Abril,etc.

  16. Comentou em 29/05/2009 Herodoto Carneiro

    A UNIVERSIDADE PÚBLICA já está privatizada.Só tem acesso a educação pública,gratuita e com qualidade quem cursa a pós-graduação e aceita a política imposta pelo baixo clero.

    Tudo se dá através das FUNDAÇÕES UNIVERSITÁRIAS, estas denunciadas pelo professor Roberto Romano da UNICAMP à Caros Amigos em 1999.

    Os títulos de mestres e doutores deverão ser anulados diante das inúmeras irregularidades nas instituições públicas de ensino superior ?

    A elite é nefasta em qualquer campo ideológico em que esteja…é mesquinha por natureza.

    Herodoto/RJ.

  17. Comentou em 29/05/2009 rodrigo cerqueira

    Olah Luiz, este talvez nao seja o lugar propicio pra o texto abaixo, mas acredito que uma boa noticia nao tem hora nem lugar…
    Acabo de entrar com um pedido de Falencia, em um cartorio em Barueri, contra ninguem menos do que o Mcdonalds do Brasil. Ateh a 3 anos atras eu possuia uma empresa que fornecia um sistema conhecido como McEntrega, que gerencia os pedidos de delivery da rede, mas fui descartado, e meu contrato quebrado unilateralmente por eles. Levei 3 anos na justica ateh conseguir vencer em todas as instancias e pedir a Falencia dessa multinacional. Eu gostaria agora de passar essa mensagem de persistencia a inumeras pessoas (empresarios) que como eu, enfrentaram ou enfrentam um simbolo do poder economico mundial na justica: PERSISTA!!! Mesmo que isso signifique sacrificar algumas coisas pelo caminho.

    muito obrigado.
    Rodrigo Cerqueira
    ex fornecedor / McDonalds

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