Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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O primeiro a apanhar foi o leitor

Por Luiz Weis em 09/03/2009 | comentários

A nota do diretor de Redação da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, sobre o episódio “Ditabranda”-Comparato, publicada no domingo, 8, começa com uma rara retratação e termina com uma injustificável reincidência.


O diretor considera que a expressão “ditabranda”, com que o jornal se referiu ao regime militar em editorial de 17/2, “foi um erro”. O blogueiro não se recorda de autocrítica do gênero na imprensa brasileira. “O termo tem uma conotação leviana que não se presta à gravidade do assunto. Todas as ditaduras são igualmente abomináveis”, escreveu Frias Filho.


É questão aberta se faz parte da observação da mídia julgar as opiniões de um periódico, expressas no espaço apropriado para isso em jornais e revistas. Em princípio, a resposta seria não. Os juízos de valor “da casa”, conforme o eufemismo para donos da publicação, não deveriam entrar na alça de mira do analista da imprensa, a não ser em duas hipóteses:


Quando se infilitram em material jornalístico em sentido estrito – numa palavra, o noticiário – para confundir, portanto lesar, o leitor. Ou quando se apoiam em distorções comprováveis da realidade. Nesse caso a crítica trataria de demonstrar que se atropelou o princípio de que “as opiniões são livres, mas os fatos são sagrados”.


Dessa perspectiva, o observador da imprensa há de ser neutro diante da “ditabranda”, da retratação (salvo para registrar o seu caráter incomum, seja lá o que a tenha motivado) e ainda da consideração adicional do diretor da Folha de que “a ditadura militar brasileira, com toda a sua truculência, foi menos repressiva que as congêneres argentina, uruguaia e chilena – ou que a ditadura cubana, de esquerda”.


Mas essa neutralidade não vale para a reação da Folha quando foi duramente criticada pelo jurista Fabio Konder Comparato em carta publicada três dias depois do editorial. Não vale, porque aqui se está no terreno do relacionamento da imprensa com o público, uma dimensão inseparável do próprio exercício do jornalismo e, como tal, objeto legítimo de exame crítico.


E é nesse terreno que a Folha cometeu a injustificável reincidência mencionada na abertura deste texto. A “incidência”, como se sabe, foi a resposta que o jornal deu ao leitor. Aliás, aos leitores, porque a Folha visou também a autora de outra carta publicada na mesma coluna, a cientista política Maria Victoria Benevides. A associação, em si, foi tecnicamente um erro porque o tom das duas críticas é marcadamente diferente.


Tanto que a matéria que cerca a nota de retratação da Folha, sobre um ato de desagravo aos professores, no último sábado, cita apenas, a título de remissão, um trecho da carta de Comparato (“deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça pública e pedir perdão ao povo brasileiro” o autor do editorial e o diretor de Redação que o aprovou).


O jornal não reproduziu nenhuma passagem do texto de Maria Victoria certamente por não haver nele nada comparável em matéria de agressividade – ou de “imprecação ríspida”, segundo a nota de Frias Filho.


A essa imprecação, argumenta ele, o jornal reagiu “com rispidez”. Esta consistiu em chamar de “cínica e mentirosa” a “indignação” (com aspas depreciativas, no original) dos missivistas porque eles “até hoje não expressaram repúdio a ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba”.

Vamos nos entender. Julgue-se como se queiram as palavras do professor Comparato – e ao blogueiro elas soam tão infelizes, por seu descomedimento, quanto os incontáveis comentários que degradam o debate público na blogosfera – a Folha não deveria ter feito o que fez: transgredir a norma elementar do ofício segundo a qual jornais e revistas não batem boca com os seus leitores.


Ainda mais quando eles não são protagonistas de matérias ou de editoriais polêmicos.


Suponha-se, para raciocinar, que a Folha tivesse dado um texto que deixasse mal, por qualquer motivo, o jurista Comparato, e que ele escrevesse uma carta contestando com contundência a reportagem (ou o editorial) que o expusera. A Folha teria a obrigação de publicar a réplica – e o direito de acusar o seu autor, por isso ou aquilo, de ter uma atitude cínica e mentirosa. Seria, como se diz, jogo jogado.


Mas, no caso da “ditabranda”, a Folha poderia legitimamente ou não publicar a carta – se quisesse, fazendo saber ao autor que a considerava incompatível com os padrões que o jornal adota para a divulgação das mensagens dos seus leitores; ou publicá-la, a seco, ou, ainda, com um breve comentário do tipo “a Folha mantém a sua posição” – ainda que dela viesse a se retratar, mais adiante.


Comparato não insultou a Folha. Pediu para ela, metaforicamente, uma punição que evoca procedimentos de colégio de padres. Na boca de um defensor da ditadura de 1964, por motivos opostos, mereceria do professor um protesto fervoroso, em nome da liberdade de expressão. Ainda assim, o jurista considerou o editorial “vergonhoso”, mas não o atribuiu ao cinismo ou à mendacidade de seus autores.


Já o troco foi pior do que uma reação ríspida a uma imprecação ríspida. Constrangeu e desconcertou todos quantos não tinham por que esperar isso do jornal.


Não será impossível encontrar no Painel do Leitor cartas tão duras como aquela, contra o que a Folha deu ou deixou de dar, sem que a canelada recebida fosse retribuída por outra – ainda mais rombuda.


E será impossível, ou extremamente difícil, encontrar na seção de cartas de qualquer jornal com o qual a Folha não se envergonharia de ser comparada uma resposta assim violenta.


O que conduz, enfim, à injustificável reincidência, no último parágrafo da nota de Frias Filho:


“Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam.”

A Folha não precisava disso. Muito menos o seu público.


Ficou do destampatório, apequenando a retratação da “ditabranda”, a impressão de que o jornal serviu de ringue para uma quizila pessoal, em que o primeiro a apanhar foi o leitor.


P.S. Colírio


Na mesma edição, mas a dezenas de páginas de distância, o septuagenário jornalista Aldo Pereira, enviado especial da Folha ao Tibete, clareia a vista do leitor com a primorosa abertura de sua matéria “Viagem a Xangri-lá”:


“A melhor época para você visitar o Tibete é bem antes dos 76 anos.”

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