Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CÓDIGO ABERTO > Desativado

O primeiro mandamento da imprensa de esgoto

Por Luiz Weis em 04/01/2006 | comentários

Acabou agora há pouco, da forma como costumam acabar essas tragédias, o suspense em torno da sobrevivência dos 12 trabalhadores soterrados dias atrás por uma explosão na mina de carvão Sago, na Virgínia Ocidental.

Os jornais americanos fecharam ontem com a esperançosa especulação, transmitida pela empresa proprietária da mina, de que 11 dos 12 ainda poderiam ser resgatados com vida.

Verificou-se o contrário: 11 estão mortos e o décimo-segundo, hospitalizado.

Há 55 anos, o genial Bill Wilder dirigiu o que se revelaria o melhor filme de todos os tempos sobre o jornalismo sensacionalista, “The Big Carnival”, exibido no Brasil como “A montanha dos sete abutres”.

É a história do repórter inescrupuloso vivido pelo também genial Kirk Douglas que faz o que sabe e o que não sabe para manter soterrado, dia após dia, um mineiro vítima de um acidente, a quem consegue ter acesso exclusivo, tudo para vender jornal.

Enquanto ele trata de impedir que o trabalhador seja resgatado e namora a sua mulher, a quentíssima Jan Sterling, forma-se em volta da mina o carnaval que serve de título para o filme.

No fim, naturalmente, o operário morre e o repórter parte para outra.

É desse filme a fala definitiva sobre a imprensa de esgoto: “Quando a ficção for mais atraente do que o fato, publique-se a ficção.”

Em nenhuma parte do mundo faltam jornalistas – ou parajornalistas, como escreveu Luís Nassif na Folha a propósito de um deles, no Brasil –, para quem a sórdida sentença será sempre o primeiro mandamento do ofício.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 05/01/2006 Luiz Serenini

    Weis. Outro dia, lendo os vaticínios de um dos colunistas da Veja, Tales Alvarenga, sobre as delícias do capitalismo de resultados, fiquei espantando com a frieza dele, num espaço tão caro (no sentido de valor), a dizer algo no sentido de que não haveria ninguém mais com sensibilidade suficiente para amolecer o coração frente à desenfreada competitividade do mundo globalizado de hoje. Ou seja, acabou-se a humanidade. Para minha triste surpresa, outro dia desses ouvia pelo rádio que está sendo comercializado o passeio turístico pelas ruínas do Katrina, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, em tours que já têm as primeiras viagens absolutamente esgotadas. Talvez não seja este o espaço mais adequado para que eu pudesse externar minha observação, mas fica a proposta de discussão em torno de um tema tão tormentoso. Até quem sabe com a opinião do jornalista da Veja, que de certa forma – a mim, negativamente – vê confirmada a sua tese do fim dos tempos. Com um abraço.

  2. Comentou em 05/01/2006 Jose Edi Nunes d Silva

    Caro Weis: não querendo ser chato (mas sendo), a frase “Quando a lenda for mais atraente do que o fato, publique-se a lenda”, foi dita no filme ‘O Homem que matou o facínora’, com James Stuart e John Wayne, dirigido, acho, por John Houston. Um abração.

  3. Comentou em 04/01/2006 jairo arco e flexa

    Caríssimo Weis:

    Fico feliz sempre que alguém cita ‘The Big Carnival’ (também conhecido como ‘Ace in the Hole’), um de meus filmes favoritos.
    Mas você sabe como chato é chato… Assim, aqui vai um pequeno reparo: no fim do filme, o personagem de Douglas, Charles Tatum, não parte propriamente ‘para outra’, mas sim para ‘o outro mundo’. Pois ele morre em consequência de uma punhalada (na verdade, uma tesourada)desferida pela mulher de sua vítima, a personagem de Jan Sterling. A bem de Tatum, deve-se dizer que ele poderia ter sobrevivido, caso tivesse procurado socorro médico, pois havia tempo para tanto. Em vez disso, ele de certo modo procura a morte, fazendo longa caminhada até o microfone e dizendo para a multidão ir embora, porque ‘o circo acabou’. Ou seja, ele reconhece a canalhice que cometeu.
    Um grande abraço,
    Jairo

  4. Comentou em 04/01/2006 Rogério Barreto Brasiliense

    Gostei do trecho:no fim, naturalmente, o operário morre e o repórter parte para outra.
    Este trecho espelha o que ocorre com frequencia nos casos em há comoção por parte da população, seja nos EUA ou no Brasil. Por jornalismo de esgoto ou não.
    Em que estágio estão as investigações sobre a bomba que explodiu na rua 25 de março dias antes do natal, o caso sumiu da imprensa. Como ficou o caso dos mendigos mortos no centro de São Paulo em 2003? Ouvi no rádio hoje, que as familias dos auditores do trabalho e do motorista mortos em Unai serão indenizadas pela União em R$200.000,00 cada uma, qual a situação deste processo, os mandantes são os já apontados pela PF ou não?
    Casos rumorosos cobertos pela imprensa são como as ondas do mar, vem e vão, e o repórter está sempre partindo para outra.

  5. Comentou em 04/01/2006 Pablo Vilarnovo

    Bom, pelo que eu li a notícia foi dada não pelos jornalistas e sim pela própria empresa e até pelo governador aos familiares das vítimas que se encontravam dentro de uma Igreja. Somente depois a empresa e o governador reconheceram o erro. Para mim a imprensa apenas noticiou o que no momento era uma informação oficial, tanto da empresa responsável pelo resgate quanto pelo governador. O repórter não teria como saber que houve um erro de comunicação entre a equipe de resgate e a empresa responsável.
    Bom, é a minha opinião…

  6. Comentou em 04/01/2006 Cris Camargo

    Quem falou em ‘denuncismo’ foi você, meu caro. E por denúncia, entende-se apontar o responsável por crime ou delito. Pelo visto, já evoluímos ao ponto de apoio ao governo ser assim considerado? Ótimo, isso é bom sinal!

    Quanto ao resto, é muita pretensão achar que o … aham … parajornalista (sic) precisa de um site e de textos como este para aparecer, não acha? Como se ele não tivesse outros meios e ‘holofotes’ para tanto, caso esse fosse seu real objetivo. Mas o simples fato de ser mencionado (ainda que nas entrelinhas) como referência, significa que neste site o parajornalista (sic, sic, sic) está muito longe de ser ‘menosprezado’…

  7. Comentou em 04/01/2006 FLADIMIR COPPOLA

    Cavalheiros,isso nunca será novidade. Há muito tempo a imprensa deixou de ser sacerdócio para ser um lucrativo negócio. Se observarmos um pouco mais a fundo,tanto a rima que fiz como as bases atuais da imprensa são pobres.A minha preocupação nesse ponto aumentou muito quando percebo a clara intenção de taxar todos os movimentos que colidem com a política norte-americana como ‘foco de terrorismo ou de algozes da democracia’. Este é outro bom tema para discutirmos novamente: Insurgentes ou resistência? Como pode uma potência financiar assassinatos e golpes de estados e continuar a ter prestígio entre a imprensa?

  8. Comentou em 04/01/2006 Paulo Ferreira

    Srs. o jornalismo é uma arte que só deve ser exercida por pessoas responsaveis ,pois um jornalista pode derrubar um Presidente ,como tambem elege-lo,no caso dos mineiros,qual os srs. acham que é o julgamento que devem estar fazendo decepcionados familiares deste trabalhadores mortos,que antes se encheram de esperanças ,o que deste que brincaram de forma erronea com sentimentos ,os jornalistas que não exercem com primor a carreira que optaram devem reavaliarem seus conceitos sobre vida familia e acima de tudo os sentimentos dos humanos pricipalmente das crianças que jamais brincarao de novo com seus grandes Herois seus Pais

  9. Comentou em 04/01/2006 André

    Por estas e outras que cada vez mais sou adepto de mídias independentes – sendo a internet a melhor delas.

    A mídia difundida já é prostituida a lobbys, aliado ao fato do USA também ser totalmente prostituido a lobbys dá neste tipo de lixo chamado imprensa.

    Imprensa difundida imparcial não ecxiste!

    Quem têm o $lobby$ têm tudo, inclusive a mídia difundida.

    Leu na VEJA?
    Viu na mídia à cabo(estadunidense)?

    Azar o seu!

  10. Comentou em 04/01/2006 Thiago Baños

    Olá.

    O tal citado parajornalista não faz denuncismo porque tem coragem ou vontade (mesmo que ignorante) de mudar alguma coisa, o faz para aparecer. Ele gosta de holofotes voltados para seu umbigo e, para mim, se assemelha aos candidatos desses shows de esquisitices que passam na TV.
    Quando se está muito mais que subentendido a pessoa à qual o escritor se refere, não é necessário que se citem nomes, isso não é covardia, é uma forma de menosprezar o trabalho nojento que tal parajornalista faz, ja que citando seu nome, estaria apenas apontando mais holofotes para seu umbigo.
    Abraços a todos, texto perfeito.

  11. Comentou em 04/01/2006 Cris Camargo

    Pena que falta coragem para dar nome aos bois, não é? Coisa que o tal citado ‘parajornalista’ (sic) não tem medo de fazer…

  12. Comentou em 04/01/2006 Urariano Mota

    Genial e digno o seu texto, do título ao fim. Viva a inteligência!

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