Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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O que fazer com os xingamentos via comentários?

Por Carlos Castilho em 10/02/2006 | comentários


O jornalismo convencional tem uma longa tradição de uso de pseudônimos para disfarçar identidades sob os mais diversos pretextos. Mas a internet está obrigando a imprensa a conviver com outro tipo de identidade oculta, o anonimato.


Até agora esta convivência foi razoavelmente tranquila, mas a medida que a rede mundial de computadores ganha popularidade e mais usuários, os problemas tendem a crescer exponencialmente, aumentando a importância do dilema manter a liberdade de publicação ou submeter os comentários a um controle.


Os jornalistas que tem weblogs pessoais, os administradores de fóruns virtuais, de listas de discussão via internet e os responsáveis por páginas de autoria compartilhada como a enciclopédia Wikipedia vivem este problema quotidianamente. Mas o que pouca gente se dá conta é que a questão começa a desafiar não apenas a capacidade controladora como principalmente a própria essência de programas de autoria coletiva, uma das mais revolucionárias inovações da web.


Os comentários, discussões e colaborações são uma característica chave na interatividade entre produtores e usuários de conteúdos informativos na internet. Nenhum outro veículo de comunicação pode levar este intercâmbio a um nível tão elevado quanto a rede mundial de computadores. O livre fluxo de notícias, dados e conhecimentos é também um elemento de importância crítica na era da informação, porque esta só se multiplica quando circula sem obstáculos.


A primeira década de existência da internet foi marcada pelo elitismo, pois estava restringida à usuários com maior poder aquisitivo e com maior conhecimento técnico. Seu público era predominantemente profissional e jovem. Mas o crescimento vertiginoso da rede mudou a sua cara e ela fica cada vez mais parecida com o mundo real em que vivemos. As mazelas da sociedade contemporânea estão se infiltrando na web com a mesma velocidade com que ela ganha capilaridade social.


No ano passado, o Los Angeles Times tentou dar a seus leitores a possibilidade de participar na produção de editoriais mas recuou dois dias depois do início da experiência porque usuários colocaram imagens escatológicas no site do jornal norte-americano. Coisa parecida aconteceu com o The Washington Post, em janeiro, quando o jornal suspendeu a publicação de comentários anônimos após a publicação de mensagens racistas e pornográficas.


Aqui no Brasil, Ricardo Noblat enfrentou alguns problemas com os leitores de seu blog no auge das investigações do mensalão. Meu vizinho aqui ao lado, Luiz Weis, também pagou o preço das paixões políticas e ideológicas no seu Verbo Solto, a exemplo de vários outros blogs que lidam com informações políticas.


O problema vem se agravando não só pelo aumento frenético do número de usuários da internet mas também pela proliferação de ferramentas tecnológicas facilitadoras da participação online. Os chamados softwares sociais são hoje a grande moda entre os desenvolvedores de programas.


Isto estimulou vários gurus da internet a acreditar que a tecnologia, além de criar novas ferramentas de participação, desenvolveria também os antídotos necessarios para controlar os abusos e mau uso intencional das mesmas ferramentas. Isto aprofundou o divórcio entre os nerds (usuários compulsivos) e os realistas criando uma polêmica que tem tudo para dar em nada, ou pior, dar em sectarismo.


A internet derrubou o muro que isolava o jornalista do seu público provocando duas situações antagônicas: uma agradável, o profissional tem um feedback imediato o que é extremamente gratificante, mesmo quando ele recebe uma crítica; outra desagradável, porque os chatos, espiritos-de-porco, agressivos, xenófobos etc etc passaram a ter acesso fácil aos jornalistas, que nem sempre entendem que o público é uma mistura de tudo que há de bom e de ruim no gênero humano.


É preciso os profissionais consigam distinguir o incômodo natural de ter que conviver com todo tipo de gente na Web da irritação, também natural, causada por aqueles que Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, um dia chamou de ‘idiotas de plantão‘.


O jornalismo online é muito mais transparente do que o convencional, por isto ele, em alguns momentos, é menos confortável porque somos obrigados a lidar com pessoas e idéias muito diferentes das nossas. Mas este desconforto tem seu lado positivo, porque nos obriga a conviver com o mundo real, em vez de isolar-nos nos aquários envidraçados das redações.


Mas o que fazer quando alguem, geralmente de forma anônima, coloca comentários agressivos num blog, distorce informações num texto de autoria coletiva, põe informações falsas numa lista de discussão ou acrescenta imagens pornográficas num texto wiki?


A resposta pode ser de dois tipos: repressão, eliminando a ferramenta usada pelo ‘idiota de plantão’ ou jogando o problema para o conjunto dos usuários. Não elimino a primeira hipótese porque ela pode ser necessária em casos extremos, mas apostaria na segunda, ou seja mostrar para os visitantes frequentes de um blog ou site que eles podem ser prejudicados pela ação dos ‘idiotas’ e propor em discussão uma ação conjunta para resolver o problema.


No nosso caso, encaramos este blog como uma grande conversa, o que implica transparência tanto minha como dos que visitam este site e confiam nas informações que ele procura transmitir.


Para preservar esta conversa é que colocamos sempre no final a advertência de que os comentários ofensivos serão desconsiderados. Mas felizmente, até agora, não foi preciso usar nenhuma vez esta ferramenta. Pelo contrário, os leitores deste blog são a principal razão de sua credibilidade.

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