Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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O que importa é onde está o homem

Por Luiz Weis em 30/05/2006 | comentários

Duas cartas na Folha, três no Estado – e isso seria tudo que a grande imprensa daria hoje sobre a retórica pergunta do papa Bento XVI ao visitar, domingo, o campo de concentração nazista de Auschwitz:

‘Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele se manteve em silêncio? Como Ele permitiu essa opressão sem-fim, este triunfo do mal?’

Cinco cartas e seria tudo, não fosse o contundente artigo do rabino Henry Sobel, coordenador da Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico, no Estadão, sob o título enganadoramente anódino ‘O papa em Auschwitz’.

‘Antes de perguntarmos onde está Deus’, escreve Sobel, cabe-nos formular a outra pergunta: onde está o homem?’

Esta é uma pergunta legítima para crentes, agnósticos e ateus. Porque mesmo as religiões admitem que os atos humanos não são pré-determinados: somos todos livres para escolher – e responsáveis pelas nossas escolhas, perante os humanos e, para os que crêem numa divindade, perante ela.

Foram humanos que fizeram Auschwitz. Foram humanos que os permitiram fazê-lo. Foi o humano Pio XII que jamais se ergueu do seu trono para denunciar o Holocausto. [E foi o humano João Paulo II que pediu desculpas pelo papel da Igreja na perseguição aos judeus.] Foram os humanos governantes americanos e britânicos que, sabendo do genocídio em curso nos campos de extermínio, se recusaram a bombardeá-los ou ao menos as linhas férreas que conduziam a eles.

‘Deus’, conclui Sobel, ‘estava onde sempre esteve, esperando que os homens asssumissem o seu dever.’

Faltou acrescentar: ‘assumissem o seu dever’ para impedir que outros perpetrassem matanças e infligissem a seus semelhantes sofrimentos que se distinguem do Holocausto apenas e tudo isso pela forma industrial, sistemática, tecnológica, com que os nazistas trataram de exterminar os judeus – e os ciganos e os comunistas e os homossexuais e as pessoas decentes da Europa inteira.

E o pior é que não acabou. Vide Hiroshima, Ruanda, Bósnia, Palestina… E antes: as cruzadas, o genocídio dos povos indoamericanos, a escravidão negra, a limpeza étnica na Armênia…

***

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