Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O que importa é onde está o homem

Por Luiz Weis em 30/05/2006 | comentários

Duas cartas na Folha, três no Estado – e isso seria tudo que a grande imprensa daria hoje sobre a retórica pergunta do papa Bento XVI ao visitar, domingo, o campo de concentração nazista de Auschwitz:

‘Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele se manteve em silêncio? Como Ele permitiu essa opressão sem-fim, este triunfo do mal?’

Cinco cartas e seria tudo, não fosse o contundente artigo do rabino Henry Sobel, coordenador da Comissão Nacional de Diálogo Religioso Católico-Judaico, no Estadão, sob o título enganadoramente anódino ‘O papa em Auschwitz’.

‘Antes de perguntarmos onde está Deus’, escreve Sobel, cabe-nos formular a outra pergunta: onde está o homem?’

Esta é uma pergunta legítima para crentes, agnósticos e ateus. Porque mesmo as religiões admitem que os atos humanos não são pré-determinados: somos todos livres para escolher – e responsáveis pelas nossas escolhas, perante os humanos e, para os que crêem numa divindade, perante ela.

Foram humanos que fizeram Auschwitz. Foram humanos que os permitiram fazê-lo. Foi o humano Pio XII que jamais se ergueu do seu trono para denunciar o Holocausto. [E foi o humano João Paulo II que pediu desculpas pelo papel da Igreja na perseguição aos judeus.] Foram os humanos governantes americanos e britânicos que, sabendo do genocídio em curso nos campos de extermínio, se recusaram a bombardeá-los ou ao menos as linhas férreas que conduziam a eles.

‘Deus’, conclui Sobel, ‘estava onde sempre esteve, esperando que os homens asssumissem o seu dever.’

Faltou acrescentar: ‘assumissem o seu dever’ para impedir que outros perpetrassem matanças e infligissem a seus semelhantes sofrimentos que se distinguem do Holocausto apenas e tudo isso pela forma industrial, sistemática, tecnológica, com que os nazistas trataram de exterminar os judeus – e os ciganos e os comunistas e os homossexuais e as pessoas decentes da Europa inteira.

E o pior é que não acabou. Vide Hiroshima, Ruanda, Bósnia, Palestina… E antes: as cruzadas, o genocídio dos povos indoamericanos, a escravidão negra, a limpeza étnica na Armênia…

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 11/06/2006 Wilson simao

    ó irmão.
    A linha do tempo e do espaço se cruzarão aqui mesmo, por isso,
    não deixeis pousar sobre as mãos dos inocentes a responsabilidade de seus atos no passado e nem deveis transferir para depois o que deves assumir aqui na terra antes que no inferno seja cobrado, amém.

  2. Comentou em 05/06/2006 MANOEL PINTO

    Refletindo bem, entendi que talvez o Papa quizesse saber em que corações estava Deus naquele momento, naqueles dias! Os judeus não são cristãos! O Papa é cristão e, com certeza, não falava de Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo da Santíssima Trindade, da igreja católica, onde exerce a santa representação de Pedro (primeiro Papa). Sei lá… Sei não! É uma possibilidade, não?

  3. Comentou em 03/06/2006 MANOEL PINTO

    Tem razão Sobel. Deus estava e está onde sempre esteve, e o Papa melhor do que ninguém sabe muito bem disto! Além do mais, não criou o homem para viver dizendo não faça isso, faça aquilo! E o livre arbítrio? Os judeus também não são santos! Ainda hoje promovem perseguições e matanças aos borbotões! O holocausto não poderia ser um castigo?! Não acredito nisso, mas questiono! Poderia ou não?! Os antigos sempre disseram advertindo que quem aqui faz, aqui paga? Aquela barbárie nazista foi a ação de um louco, um doente (Hitler) e um bando de tarados! Os judeus que hoje matam palestinos desarmados, famintos e inocentes, o fazem conscientemente e com o apoio da maior força bélica do planeta EEUU. Se acontecer amanhã ou depois outra barbárie daquela (Deus que nos livre e guarde) não queiram se esconder em pele de cordeiro! E muito menos, queiram posar de vítimas inocentes para a humanidade!!!

  4. Comentou em 31/05/2006 Paulo César Carvalho Silva

    Os palestinos que vivem em Gaza também devem se fazer essa pergunta.

  5. Comentou em 30/05/2006 alfredo sternheim

    REalmente, como lembra o leitor de Brasília (Jecivaldo), é raro ver algum líder religioso questionar Deus. Quanto mais um Papa. Creio que Bento XVI é o primeiro a fazê-lo. Pode ser mera retórica, mas poder ser um sentimento profundo de desamparo e perplexidade. Está certo Sobel, os homens são responsáveis por seus atos, não devemos nos escudar só em Deus. Não sou religioso, não sigo nenhuma religião, discordo da força predatória dos dogmas do catolicismno, do judaismo (onde fui educado), do islamismo. O nazismo, assim como a inquisição dos jesuistas, prosperou pela contemporização de outros povos, outros governantes (aqui, Getúlio). A mesma contemporização que hoje faz como que nós no Brasil nos calemos diante dos atos repressivos e terroristas que são feitos em nome da fé islâmica. Caso dos homens bombas. E de outros atos bem apontados neste domingo por matéria que Sérgio D´AVila fez no Irã paraa Folha, um texto que confirma o obscurantismo naquele país. Quando um veículo da imprensa critica esse terrorismo em nome da fé – caso da caricatura do jornal dinamarquês – muitos levantam a voz contra o jornal ‘por não respeitar a religião'(as aspas são minhas). Mas não levantam com a mesma intensidade contra quem estimula e pratica atentados (os jovens homensbombas) em nome da fé. Como os jesuitas do passado. O mundo ocidental se cala (é conveniente) e assim caminha a humanidade

  6. Comentou em 30/05/2006 armando dias

    Luiz Weis :Parabens pelos seus dois ecelentes temas de 28 e 30/05. Acredito que a racionalidade, transparencia e correta analise de fatos é sumamente importante para nós leitores. Os temas abordado; direitos humanos e onde está o ‘homem’ retratam assuntos que sempre gostariamos de ver analisados no OI. Parabens que continue assim. Ps. Já escreví mais de 50 comenta´rios criticando-o. Espero que estejamos iniciando uma nova fase daquil.o que voce sempre soube fazer de bom : um ótimo jornalismo.

  7. Comentou em 30/05/2006 Antono Prado da Silva

    Que diferença tem um Papa de um político? A diferença é que ele tem o poder maior de enganar com essa desfarsatez,multidões e multidões pelo o mundo afora. Na maioria dos católicos ainda há um grande sentimento (não diria ANTI-SEMITA, mas ANTI-SIONISTA porque JUDEUS E ÁRABES são de origem SEMITA)na sua maioria das vezes. não de cunho relioso, mas econômico, como aconteceu na alemanha nazista com o aval da igreja Católica.Todos sabem que obras de arte pertencentes a Judeus naquela época, eram enviadas para bancos Suiços.No meu ponto de visto, acho que os Judeus não deveria permitir que figuras como essa ficassem fazendo média encima de horrores que até hoje com certeza ainda causa muito sofrimento.

  8. Comentou em 30/05/2006 ecivaldo souza

    Profundo… profundamente poético e pertubador ,o convite ao abismo perigoso da reflexão ,feito por Bento XVI. Dificilmente a igreja desafia seus fieis a entar em conflito com a fé, como ,o que me parece, fez o Papa.
    O livre arbitrio, como sempre, será lembrado,declamado, cantado e outros ´ados´…aliás como uma cortina negra tapará o sol e estaremos livres do questionamento que descobre , que conduz e esclarece .
    Veja bem, sou lúcido o bastante para saber que é o homem quem constrói e destrói cidades , que ergue pontes e viadutos que produz a pobreza e promove a guerra, mas é que … é que o holocausto é maior do que isso, é maior que o livre arbitrio e é maior que essa picuinha entre criatura e criador por um ato de desobediência ( droga de maçã!!) ridículo. perdoe minha inquietação mas se a criatura este ser desgraçadamente humano e inumanamente torto , é culpado , e sinceramente o é, o criador é no minimo cumplice por omissão e abandono de incapaz.
    Parabéns ao papa pelo grito… pelo grito… pelo grito!!!

  9. Comentou em 30/05/2006 JOSÉ VALMIR ANDRADE

    O poder é algo muito sedutor, o homem busca-o de todas as formas. Maquiavel mencionava, em sua analise politica espetacular que, partindo de uma concepção realista, analisando o Estado de uma uma forma como ele é, nao como ele deveria ser. Este elemento, o poder é fascinante e, para chegar-se lá, nao importam os meios, mas que todos os fins sao usados para chegar-se onde se almeja.
    O alvo do poder nazista era o poder de um Estado totalitário, absuluto, tirnao e déspota. Foram empregados métodos os mais perversos possiveis. Ali se manifestou a miséria e a mesqunhez humana, com todos os engredientes possiveis e impossiveis. O problema é que o ser humano é o unicvo ser que nao aceita, ou pelo menos nao admite ser aquilo que ele é. O homem sempre procura um suterfugio para fugir da sua condição ou para justificar as suas aberrações.
    O que aconteceu em Auschwitz, foi uma demonstração do potencial que o homem tem para paara fazer o mal tanto quanto para faer o bem. O mal visto como aação que proporciona a morte do outro, e o bem naquilo que proporciona a preservação e o bem estar, a felecidade do outro.
    A questão é que, o homem como um ser ser que nao assume seus atos, ele acaba por colocar tudo o que ocorre no cenário da história nas mão de uma entidade chamada Deus. Se olharmos bem, veremos que essa figura sempre tem a imagem de quem está no poder. È a imagem do poder.

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