Quarta-feira, 26 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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O que parece e o que pode ser

Por Luiz Weis em 27/06/2009 | comentários

Então foi um site de fofocas o primeiro a noticiar a morte de Michael Jackson. Até isso está sendo usado como indício de que o enterro da imprensa tradicional é só uma questão de (pouco) tempo.

Quando e se isso acontecer, se a mídia nova não fizer o que o jornalismo de qualidade se propõe a fazer, o mundo poderá até saber em primeira mão pela internet de notícias portentosas como aquela, mas nem por isso estará mais apto a entender as forças e os processos que o levam a girar em um ou outro sentido.

O velho Marx – ou terá sido o jovem? – dizia que se a aparência e a essência dos fatos fossem idênticas a ciência seria desnecessária.

O jornalismo também. Pelo menos aquele jornalismo que, embora sem a pretensão de ser uma atividade científica, e oferecendo verdades ainda mais provisórias que as dela, procura descobrir e apontar as diferenças entre o que parece e o que é, ou pode ser.

E é a partir da apresentação dessas diferenças que a informação jornalística cumpre a sua função socialmente mais decisiva – a de apetrechar as populações para a prática da democracia, o que começa pelo policiamento dos governos.

Foi o que disse, de maneira um tanto arrevesada, um dos mais contumazes críticos da mídia brasileira, o presidente Lula:

“O exercício da democracia feito pela imprensa é possivelmente o maior sustentáculo para que a gente continue errando, sendo criticado e consertando os erros.”

Uma das principais dúvidas que os novos espaços abertos para o jornalismo põem na ordem do dia tem a ver com o seu potencial para se equiparar ou superar a imprensa em papel nesse exercício. Se o retrospecto serve de alguma coisa, é improvável que o rádio a TV – com todo o seu impacto provocado pela apreensão instantânea da realidade – dariam conta do recado se não existissem os jornais e revistas que nela mergulham à cata daquilo que sons e imagens dificilmente transmitem: a essência dos acontecimentos.

Não se trata de um problema de técnica jornalística. Mas do condicionamento que cada meio de comunicação impõe, até por sua natureza, ao que entendemos por jornalismo, com base na tradição da imprensa escrita. Trata-se, portanto, dos limites à percepção e avaliação dos fatos pelo público, conforme a plataforma em que aparecem.

O debate em torno disso, embora menos ruidoso do que o movimento das pás que escavam o terreno onde se diz que a imprensa tradicional será enterrada, pode ajudar muito mais o jornalismo que pretende sucedê-la do que o deslumbramento com cada nova proeza da nova modalidade.

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