Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CÓDIGO ABERTO > Desativado

O que Serra, enfim de volta, deixou de dizer

Por Luiz Weis em 21/05/2006 | comentários

Oito dias depois de a crise da segurança em São Paulo ter se tornando o assunto dominante no país – e o assunto brasileiro mais destacado na mídia estrangeira –, o ex-prefeito e pré-candidato ao governo paulista pelo PSDB, José Serra, quebrou o seu criticado jejum de silêncio sobre a tragédia.


Reapareceu de forma inesperada para os padrões costumeiros da comunicação política.


Não convocou uma coletiva de imprensa, não deu uma exclusiva à Rede Globo, nem mesmo divulgou uma nota.


Publicou, isso sim, um artigo na seção Tendências | Debates da Folha de hoje.


Intitulado “O inimigo é o crime”, o texto é uma tomada de posição forte e clara em defesa do “uso legítimo da força” pelo aparelho de Estado.


Sustenta que a prioridade de todos quantos se manifestam sobre os ataques do PCC e suas consequências deve ser a de dar “imediata solidariedade à polícia”. Na linha do editorial de ontem do Globo [ver nota abaixo] afirma que os policiais, “mais do que nunca, devem ser valorizados”.


O editorial pelo menos lembra, em dois momentos, que a polícia tem a sua ‘banda podre’.


E por aí vai o artigo, defendendo a união ativa de todos contra a bandidagem, aplaudindo o pacote anticrime do Senado, propondo medidas adicionais e elogiando “o empenho e a franqueza” do governador Cláudio Lembo, antes da peroração:


”Nessa guerra, é preciso ter lado. E não esquecer: o inimigo é o crime. Vamos combatê-lo. Vamos eliminá-lo.”


Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas do jeito que saiu, o artigo poderia ter sido escrito por qualquer um que ache que bandido bom é bandido morto e tenha o PhD, a cultura e a experiência de vida de José Serra.


Mas não os seus valores. Ou assim ficou parecendo.


Pois o texto não contém uma única referência às matanças da PM dos últimos dias que o governo do Estado faz o possível para esconder, sob intensa cobrança da mídia e das organizações de defesa dos direitos humanos.


Direitos humanos que nunca tiveram em José Serra um detrator, muito antes ao contrário.


A omissão do tucano é ensurdecedora. Se dá a ver no mesmo dia em que a mesma Folha revela na primeira página que em cinco dias o IML recebeu corpos de 272 mortos a tiros. “No período”, informa o jornal, “o Estado divulgou 138 óbitos”. E especula:

”Ou a violência sem qualquer relação com o PCC cresceu muito ou a polícia matou mais”.


Qual das duas hipóteses parece mais verossímil?


Até o governador começou a deixar de desmentir o indesmentível. “Polícia pode ter matado inocentes, admite Lembo”, mancheteia o Estado de hoje.


Impossível não relacionar a omissão de Serra sobre as represálias da PM com a matéria publicada ainda na Folha, meia dúzia de páginas adiante daquela do seu artigo.


Na reportagem “Segurança vira obstáculo para favoritismo de Serra”, de José Alberto Bombig e Malu Delgado, se lê:


”Para líderes do PSDB, Serra, historicamente ligado aos direitos humanos e à luta contra a repressão, terá dificuldades na construção de um projeto que contemple a defesa da ação policial do Estado (107 civis mortos até sexta-feira) e, ao mesmo tempo, reafirme sua posição de combate ao crime.” E mais:


”Um dos desafios do tucano será conciliar [na Segurança] o grupo ligado ao governador Mario Covas e a ala amparada por seu sucessor, Geraldo Alckmin, mantida na atual gestão…”. E principalmente:


Apesar da maior proximidade com o primeiro, Serra não deverá adotar todas as posições pró-direitos humanos na campanha, avaliam tucanos, já que parte expressiva da sociedade exige uma ação enérgica da polícia.


P.S.

Da série “Primeiras Impressões”:


O melhor da reforma gráfica implantada hoje na Folha – que por sinal está mais para ajuste do que para reforma – é a mudança no padrão dos textos.


A substituição da letra livresca Minion pela Chronicle, cuja robustez a torna indicada para jornais [é muito parecida com a do Estadão, da família New Century] justifica a afirmação da Folha, em título de página inteira, que ficou “mais fácil de ler”.


O que talvez não se possa dizer, à primeira vista, de cada uma das outras inovações adotadas.


***


Os comentários serão selecionados para publicação. Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas, que contenham termos de baixo calão, incitem à violência e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/05/2006 ana maria gomes de souza tinoco amaral

    é verdade, mandoumuito bem. dar dinheiro é mais que humilhação, dar emprego é dar dignidade, para o pai, a mãe e os filhos que vendo seus pais trabalhando , vão também querer trabalhar, e vendo seus pais ganhando bolsa familia vão é querer ficar na pilantragem de so querer receber e nunca batalhar pra conseguir.

  2. Comentou em 23/05/2006 ana maria gomesde souza tinoco amaral

    se voce acha que houve matança por parte dos PMs, leva os PCCs pra sua casa e toma conta deles. Pergunta para quem anda na rua, de onibus, de trem e não tem carro se está achando que houve.

  3. Comentou em 23/05/2006 Caio Bianchi

    De fato, a omissão de Serra sobre a provável morte de inocentes é sinal de um momento em que as preocupações eleitorais se sobrepõem às éticas. Mas na essência, ele está correto. E as organizações de direitos humanos também precisam se preocupar com os direitos dos policiais e da população que sofre nas mãos do crime organizado. O velho discurso precisa ser renovado. Estamos falando de repressão ao crime sim, de uma repressão necessária e urgente. Se o policial mata um criminoso em combate, como último recurso, em legítima defesa própria ou de terceiros, está agindo dentro da legalidade. Se mata criminosos por matar, ou mata inocentes, é tão criminoso quanto.

  4. Comentou em 23/05/2006 Fabio Marrtins

    Com respeito a José Serra, nessa revolta em foco, procedem no todo e em partes as referências do Verbo Solto. No ensejo, breve nota individuante às lacunas do ex-prefeito paulistano: quando candidato a Presidente da República, não soube responder a inisistente pergunta de uma entrevistadora, indagando-lhe se ele sabia o preço do quilo de feijão… E´a velha e sempre atual questão de ser conveniente, para não dizer exigitivo, ter-se sempre o melhor conhecimento possivel do todo e das partes.

  5. Comentou em 22/05/2006 José Ayres Lopes

    José Serra é uma farsa. Só mesmo em São Paulo, um Estado conservador, ele consegue ser eleito governador. Serra não pára em nenhum lugar. É incapaz de concluir um mandato. Está sempre saindo no meio da missão. Vive abandonando o que está fazendo. Qual é a obra que tem? Um ou dois projetos? Dizem que ele tem uma História. Qual? Viveu a maior parte do tempo fora do país. Quando veio o golpe de 64 era o presidente da UNE e não vacilou: fugiu do país. Do que vale um artigo agora?

  6. Comentou em 22/05/2006 armando dias

    Durante a recente crise de insegurança que se abateu sobre São Paulo, constatei a ausencia dos grandes caciques do PFL e PSDB do cenário nacional. Já foi devidamente explicado que Serra, Tasso, Aécio, FHC, etc estavam em Nova York particpando de conferencias. Os cacique do PFL estavam caçando tatu e entraram no buraco para preservá-los. Espero que em Outubro o PCC ameaçe nova rebelião para que ezstes traidores de seus partidos voem para outras paragens

  7. Comentou em 22/05/2006 Célio Mendes

    Ja tivemos os militares, depois o entulho autoritario, na era Collor/FHC eram as estatais, a midia sempre escolhe uma Geni para culpar pelos males que assolam esta terra tupiniquim, agora vai se desenhando a tendencia de culpar as organizações defensoras dos direitos humanos como culpadas ou quando menos cumplices do caos deflagrado em SP pelo crime organizado, este raciocinio simplista pode satisfazer a massa insegura que quer se agarrar a qualquer discurso que pareca uma tabua de salvação mas não convence aqueles que se aprofundarem um pouco mais no assunto, não passa de mais uma demagogia deslavada para tirar dos ombros de quem tem a responsabilidade e que ja deveria te-la assumido a muito tempo.

  8. Comentou em 22/05/2006 Joelson Marques

    O Serra deve estar com dor nas costas… Passar oito dias escondido embaixo da cama não é fácil.

  9. Comentou em 21/05/2006 Haroldo Mourão

    Direitos Humanos é completo por si só. Não existe direitos humanos somente para bandidos do pcc, do cv, do psdb, do pfl ou quaisquer siglas (PT também, vá lá!). Esses direitos estão consagrados há mais de duzentos anos em seus 17 artigos, ele visa à não violência exercida pelos poderes constituidos, oficial e não-oficial (A sociedade revoltada é um não oficial), a supressão de direitos básicos de todo ser social. Existe a lei, e ela foi criada para nos proteger de nossos instintos vingativo. Ou será que ãlguém acha que não haverá vingaça por alguém morto inocentemente ou que tenha sido executado. Não podemos aderir a barbárie, caso contrário teremos que construir mais presidios e menos escolas, empregar mais policiais e menos professores. Concordo que nossa revolta é grande, mas partir para o faroeste não será a solução. Só se ataca as causas e isto é o eterno serviço de enxugar gelo. Presto minha solidariedade às famílias dos policiais mortos, não podemos aceitar isto, pois todo policial sabe que enquanto os tubarões andarem livres, só vamos pescar sardinha (E fora de época).

  10. Comentou em 21/05/2006 Wilson Oda

    José Serra fez bem em valorizar o trabalho da polícia, sob o ponto de vista eleitoral. Defender a dureza contra o crime organizado agora é chover no molhado. Queria ver mesmo, algum candidato defender os direitos humanos. Esse sim, teria o meu voto…

  11. Comentou em 21/05/2006 José Carlos dos Santos

    Engraçado esse Serra, não é para partidarizar, porquê isso agora, e o que vem fazendo o PSDB no caso do mensalão, fizeram muita chacrinha e não propuseram nada para acabar com o caixa 2, pois é um mal de que também padecem, a crise do gás da Bolívia(que depois se mostrou que não era tão grave, quanto pintaram), enfim, essa história de encarar seriamente os problemas não é a forma usual no PSDB, mas pior do que isso foi o sumiço durante a crise e falta de solidariedade para com o governador, pois covardia e ‘traíragem’, para usar um termo do PCC, os eleitores certamente não vão perdoar, aliás já é a segunda do Serra, que havia prometido cumprir seu mandato até o fim.

  12. Comentou em 21/05/2006 José santos

    Não adianta, parte da mídia, fazer média sobre direitos humanos. Várias espécies de armas agridem violentamente nossa sociedade, inclusive, a escrita. A sociedade já está cansada e não acredita mais na imprensa. Parabéns à Autoridade que jogar duro contra a marginalidade. Polícia na rua e pressão sobre os foras da lei. Abaixo a impunidade, desde o Congresso Nacional até os moradores das localidades mais distantes. Vamos exigir juntos sociedade.

  13. Comentou em 21/05/2006 Taciana Oliveira

    Caro Professor Luiz: Em primeiro lugar, fico contente porque parece que aquela sua forma diferente de ser do habitual, agressiva até, que demonstrava algumas semanas atrás, desapareceu. Reencontrei o meu mestre. Espero!Quanto a Serra, fica difícil para ele,dizer qualquer coisa nesta altura do campeonato, não acha? Está tentando achar o melhor ângulo para disparar o tiro atrasado. Mas, o que é certo é que a cada dia ficam mais perto as eleições e os fatos se tornam mais repercutivos e mais importantes para a memória do eleitor. Quem sabe como a memória desses fatos vai estar no começo de outubro? Agora, perguntas que rolam por aí: e a saúde dele como vai? E o que estavam fazendo todos os tucanos de peso no exterior? Coincidência?

  14. Comentou em 21/05/2006 aparecida cattiste

    Acho que a imprensa deveria criticar menos os policiais, e dizer para esses caras dos direitos humanos que fiquem de boca fechada, porque por causa desse tal de direito humano, é que as pessoas tem que potar grade em suas portas e janelas, queria que elesw lutassem mais para que o governo fizessem sua parte e não dando dinheiro para por filhos na escola e sim dando trabalho para seus pais, e outra coisa muito importante as mulheres lutaram tanto para trabalhar fora ter seus direitos e no entanto deixaram seus filhos com outros e a maioria agora sao separadas e filhos problematicos, quem quer trabalhar fora não precisa ter filhos, para os policiais matar. Pensen nisso para ver se quando a mulher era dona de casa, era valorizada e saeus filhos sempre progrediam para o bem agora muitos pais de familia nao tem emprego porque será!

  15. Comentou em 21/05/2006 nilaide monteiro ovando

    Enquanto o governoo(s) não entender que é preciso valorizar e priorizar junto á segurança e saúde também a educação , que são promessas de sempre,feitas em campanhas eleitorais,não haverá outro caminho a seguir.
    Outro fator que empurra os jovens para as drogas e violência,é a falta de diálogo entre pais e filhos, e até diria;frouxidão dos pais.

  16. Comentou em 21/05/2006 Adchon Silva

    Cadê o link para os referidos artigos? Não é bom que o leitor tire suas próprias conclusões? Ou será que o jornalista pensa que não pode haver impressões diferentes da sua? Cadê a cobrança da ´mídia´ e das ´organizações de defesa dos direitos humanos´ para qeu os assassinos de policiais sejam punidos? Só existe direitos humanos para os bandidos?

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