Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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O questionamento da confiança na imprensa

Por Carlos Castilho em 12/02/2014 | comentários

Durante décadas a confiança do público na imprensa era uma questão acima de qualquer suspeita, mas desde a virada do século a quase unanimidade está desaparecendo rapidamente. Não se trata de uma discussão estatística sobre oscilações dos índices de confiança no noticiário, mas de verificar em que medida mudou o contexto que envolve o que é publicado ou transmitido.

A questão a ser vista não é se a cobertura de eventos como o da morte do cinegrafista Santiago Andrade está sendo isenta ou enviesada, mas de analisar a conjuntura em que o trabalho da imprensa vem sendo desenvolvido. O foco é menos uma preocupação com erros ou acertos e mais com a constatação de que os mesmos problemas que estamos sentindo em matéria de desorientação informativa, no caso do cinegrafista da TV Bandeirantes, tendem a se repetir sempre que um evento provocar comoção pública.

A identificação de manipulações do noticiário é essencial, mas as investigações da morte de Santiago ainda estão carregadas de muita emoção, o que aconselha mais cuidado e equilíbrio na hora de apontar os responsáveis e as consequências possíveis. O que, sim, já pode ser analisado é que cada fato, número ou evento noticiado pela imprensa contempla inevitavelmente várias versões – até porque o ditado popular garante: “Em cada cabeça, uma sentença”.

Na era da abundância noticiosa, onde cada versão pode se tornar viral na internet, não é mais possível falar de um único enfoque ou abordagem. A dúvida e incerteza passam a ser as sensações mais comuns em que assiste a telejornais, lê revistas, jornais e paginas Web. A maioria das pessoas não gosta de conviver com a dúvida e incerteza porque isso as obriga a pensar e admitir que os outros podem ter mais razão.

A imprensa alimentou durante décadas essa confortável posição de milhões de leitores e telespectadores ao prometer-lhes só a verdade e apenas a verdade. Era uma questão de princípio e também uma necessidade comercial, porque as pessoas pagam pela verdade, mas dificilmente fazem o mesmo com a dúvida.

Acontece que hoje é impossível oferecer a certeza absoluta. Não há como se prometer algo que não existe. O máximo que a imprensa pode oferecer são versões, que inevitavelmente são parciais, na reconstrução do que aconteceu. Se há um equívoco na postura da imprensa, este é o de induzir o público a acreditar que existe algo inquestionável quando o mais adequado seria assumir a relatividade de todos os depoimentos, fotografias e vídeos.

No caso da morte de Santiago Andrade, a única coisa certa é que ele pagou com a vida o preço de ser um profissional que não fugiu dos desafios de seu trabalho. Mas com relação às investigações, em especial a indicação de autoria, as empresas jornalísticas transmitem ao público a ideia de que tudo vai ser resolvido rapidamente quando de fato estão atropelando a dúvida e a incerteza.

A morte de mais um jornalista não está sendo aproveitada para discutirmos mais profundamente as causas e consequências das manifestações de rua que se espalharam de forma viral pelas cidades grandes e médias do país. A cobertura da imprensa está toda focada na apresentação de um ou mais culpados, num processo cirúrgico cuja preocupação é minimizar toda e qualquer controvérsia e apontar responsáveis exclusivos, num cenário onde o componente político eleitoral não pode ser desprezado.

A imprensa está perdendo uma oportunidade fundamental para transformar a morte de Santiago em algo realmente histórico. Em vez de empenhar-se na pressa por punições pouco convincentes e decidisse jogar o que lhe resta de confiança junto ao público para mostrar-lhe como conviver com a dúvida, com a controvérsia e com a incerteza, porque elas são a marca dos tempos que começamos a viver.

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