Quarta-feira, 18 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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O show da BBC no Chile

Por Carlos Castilho em 14/10/2010 | comentários

O resgate dos 33 mineiros chilenos foi um espetáculo midiático em escala planetária. O governo do presidente Sebastian Piñera montou uma sofisticada operação de marketing político, que incluiu até a confecção de jaquetas especiais para o evento, com o logotipo do governo chileno nas costas.


A TV chilena montou um pool patrocinado pelo governo que chegou a mobilizar 24 câmeras para transmissões ao vivo na grande noite do resgate, que obteve uma fantástica audiência de quase 97% , um recorde que dificilmente será batido no país.


Até o presidente boliviano Evo Morales pegou uma pontinha do show para recepcionar o único estrangeiro entre os mineiros soterrados desde agosto numa mina de ouro e cobre, na região de Capiapó, no deserto de Atacama. Ironicamente, Bolívia e Chile brigam há 127 anos por conta de uma disputa territorial que impede os bolivianos de ter acesso direto ao oceano Pacífico, na parte norte do Atacama.


A visibilidade mundial para o evento foi garantida por uma avalancha de cerca de mil jornalistas que se abalaram para a longínqua mina de San José. A grande estrela da cobertura jornalística foi a rede britânica de TV BBC, que mandou nada menos que 25 profissionais para o Chile, incluindo Tim Wilcox, o seu badalado âncora de programas domésticos, que deu aos ingleses a sensação de estarem assistindo a um programa local, na hora do café da manhã.


O resgate teve inegáveis conotações épicas, mas só a BBC apostou numa cobertura ao vivo, com uma grande equipe de jornalistas e técnicos, para dar ao mundo a sensação de que ‘todos estavam lá’. Nem a CNN norte-americana chegou perto do que a BBC fez, mesmo enfrentando críticas na Inglaterra. E o sucesso da cobertura da Beeb (apelido dado pelos ingleses) pode estar abrindo caminho para uma nova modalidade de espetáculo midiático internacional.


O site Follow the Media, especializado na cobertura da mídia mundial, rotulou o novo estilo como uma tentativa de levar os espectadores até o lugar onde esteja ocorrendo algum drama humano — ou capaz de ser humanizado. Este tipo de cobertura já escapa aos moldes jornalísticos clássicos porque incorpora fortes doses de emoção e de dramatização.


Quem assistiu ao resgate dos mineiros chilenos pela BBC na madrugada o dia 13 de outubro torceu junto pelo sucesso da operação. A postura dos espectadores minimizou a preocupação com a cobertura jornalística, fato reforçado inclusive pela participação do âncora britânico que narrou o evento da maneira mais informal possível. Ele nunca assumiu o papel de estrela do espetáculo, como fazem os nossos profissionais.


Do ponto de vista estrito, o jornalismo passou a um papel secundário no show chileno porque as preocupações com o marketing político/institucional do presidente Piñera e a inevitavel abordagem tipo infotainment (jargão inglês para a combinação de informação e entretenimento) contaminaram toda a cobertura. O público foi transformado em voyeur de um evento inédito na história da mineração mundial.


E pelas repercussões do caso, ele tem tudo para se transformar num novo paradigma de coberturas internacionais transformadas em eventos domésticos graças ao enfoque ‘todos estavam lá’.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/10/2010 josé anderson sandes

    Vida, o filme. Não é de hoje que a imprensa transforma tragédias em grandes espetáculos. O componente político torna a tragédia dos mineiros chilenos ainda mais problemática. Lamentável. Para os que defendem o ‘showjornalismo’ tudo pode-se explicar dentro do que chamam da ‘natureza do jornalismo’ ou do ‘valor notícia’. Coberturas com trilhas musicais, títulos cinematográficos. Realidade e ficção misturam-se em meio a imagens e textos cujo componentes dramáticos puxam a audiência. Esquecem princípios éticos. Do distanciamento crítico necessário para o equilíbrio da cobertura. Mídia do espanto e da imagem. A catarse gera alienação. Não estamos no teatro nem em uma sala de cinema. Mas a realidade vira filme no telejornal do dia. Da BBC a Glogo não existe nada de novo no império da ditadura da imagem. Sim estivemos ‘lá’.

  2. Comentou em 15/10/2010 Rodrigo Cardozo

    Faço minhas as palavras do leitor Roberto Ribeiro.O grande problema de
    combinar informação e entretenimento é que ao transformar os fatos em
    espetáculo a imprensa deixa de contextualizá-los.É um processo
    pernicioso para o jornalismo,que acaba se omitindo de fazer perguntas
    fundamentais para a compreensão da realidade.

  3. Comentou em 15/10/2010 ALANA FREITAS

    Quem ai lembra de ‘A Montanha dos Sete Abutres’ (filme)?
    Abutres, essa Mídia Moderna, que vive da miséria alheia.
    Não noticia, ao contrário sensacionalisa!
    Não é só à BBC não, a Record deve cobrir o buraco, até a retirada do último parafuso do équipamento ‘desenvolvido pela NASA’.

  4. Comentou em 15/10/2010 Roberto Ribeiro

    A grande pergunta, ‘a pergunta de um milhão de dólares’ dos yankes, e que a imprensa não faz é a seguinte: ‘quem os meteu lá?’. Parece que os mineiros sairam para fazer turismo numa bela tarde, entraram por um bonito e interessante túnel que Deus fez desabar. Ninguém fala nas responsabilidades dos sujeitos que meteram os trabalhadores na encrenca. Ninguém fala das condições de trabalho na mina. Ninguém fala sobre as condições econômicas que levaram aqueles homens a aceitar um trabalho tão pesado e arriscado. Nada disso. Eles estavam passando pelo bosque e sairam a perseguir um coelho branco que entrou em um buraco…

  5. Comentou em 15/10/2010 Nilvio Pinheiro

    A imprensa atual, de uma forma geral, tem uma tendência a transformar tudo em Realit Show, tudo vira espetáculo. O jornalismo em si fica em segundo plano. O que interessa é a audiência ou a venda de exemplares. Lamentável.

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