Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

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O Twitter e o ‘jornalismo boca a boca’

Por Carlos Castilho em 09/09/2010 | comentários


O recente terremoto na Nova Zelândia acrescentou mais um elemento à já longa lista de polêmicas envolvendo o sistema de micromensagens Twitter. O tremor, de 7,2 graus na escala Richter, foi só um décimo de grau menos intenso do que o do Haiti, e o jornalistas europeus que tentaram obter notícias surfando pelo Twitter de neozalendeses saíram frustrados da experiência.


Eles constataram que a maioria das mensagens envolvia notícias familiares e que o grosso das informações sobre a situação geral vinha de fora do país. Isto reforçou a crítica de que os Twitters não são uma ferramenta relevante para os profissionais do jornalismo, confirmando uma experiência feita no início do ano por um grupo de cinco repórteres de uma rádio francesa, que se isolou numa fazenda e só tinha acesso ao mundo por meio de mensagens postadas por pessoas comuns.


A polêmica em torno da utilidade jornalística do Twitter ainda vai durar muito tempo porque se trata de uma questão complexa cujo debate não pode ser resumido às opções usar ou não usar. É um fato inquestionável que a esmagadora maioria das mensagens que circulam no Twitter têm a ver com questões pessoais e familiares, porque a ferramenta ampliou a sensação de proximidade entre os usuários.


As notícias que circulam na rede são em sua maioria repassadas por usuários para amigos, no recurso chamado Retweet (RT), por meio do qual a informação é transmitida de pessoa em pessoa. Este fator humano na circulação das notícias provoca um fenômeno curioso. A quantidade de acessos que uma notícia recebe em sua versão original na Web depende do número de vezes que ela é repassada por usuários do Twitter.


Os twiteiros usam este recurso como uma forma de criar comunidades em torno de temas de interesse localizado e específico. Outro componente importante neste comportamento é a transferência de credibilidade, ou seja, se uma pessoa de minha confiança recomenda uma informação, esta passa também a ser confiável. Parece pouca coisa, mas num ambiente de avalancha informativa, a recomendação de amigos passa a ser fundamental.


Tudo isto indica que, no Twitter, a notícia jornalística passa a ser tratada de uma forma distinta da forma convencional, em que a impersonalidade é um componente essencial. Claro que você pode consultar os twits dos veículos jornalísticos convencionais, mas não são eles os que detêm os maiores índices de ‘seguimento’ a opção de seguir um usuário para obter todas as atualizações mais recentes de sua página.


Em termos informativos, o Twitter estaria mais próximo do sistema boca a boca do que de uma página de jornal ou noticiário na TV. E é assim que o sistema deve ser visto, porque não segue a lógica do jornalismo profissional. A circulação de notícias no Twitter é desorganizada, descentralizada, horizontal e quase caótica.


Os padrões de credibilidade também não são os mesmos da imprensa mas nem por isso o Twitter deve ser descartado como fonte noticiosa. O caos do Twitter permite uma diversificação de enfoques sobre um mesmo fato, dado ou processo, viabilizando uma contextualização mais completa da notícia — coisa bem mais difícil na imprensa pré-internet.


O Twitter também faz uma ligação direta entre produtores de notícias, como é o caso das páginas de jogadores e alguns clubes de futebol e o público. Jornalistas e pessoas comuns usam a mesma fonte, mas a notícia circulada de boca em boca vai mais rápido e mais longe do que a veiculada pela página web do jornal.


A popularização do Twitter criou um problema adicional para as redações. Não basta publicar a notícia. Ela precisa ser recomendada — e isto incorpora um novo agente no processo de circulação de uma informação. A recomendação de uma notícia escapa ao controle dos profissionais do jornalismo e os obriga a olhar um pouco além da porta das redações.


As observações feitas a propósito do terremoto neozelandês mostram que a notícia pelo Twitter não está associada apenas ao seu valor informativo, mas também a um conteudo emocional. A veiculação de notícias para os desabrigados pelo temor valeu mais pela sensação de solidariedade do que pela carga informativa. Estranhos se tornaram íntimos no meio da tragédia, gerando comunidades informativas instantâneas.


A notícia viral, jargão criado pelos estudiosos do fenômeno Twitter, passa a ser o produto informativo criado pelas recomendações sucessivas. Neste processo, a teoria do ‘quem conta um conto aumenta um ponto’ só é parcialmente válida, já que na retwitagem quase sempre é a versão original que é passada adiante. Mas isto não elimina o risco de distorções.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/09/2010 hans roland

    Não sou twiteiro, mas achei ótimo que no caso do terremoto na NZ, foi possivel verificar nitidamente que o Esquema Twitter está indo na contramão do que os jornalistas gostariam que acontecesse. Na verdade, me parece mais algo que segue em termos os esquemas sociais do Orkut e do Facebook. O pessoal está interessado mais em transmitir noticias pessoais do que entrar em grandes polemicas jornalisticas. Aliás, mesmo fugindo um pouco ao tema, até hoje não consegui entender porque a midia em geral sempre dá preferencia a noticias de cunho negativo. Ouvi dizer uma ocasião que noticia positiva não vende. Isso me parece um absurdo. Ainda bem que os twiteiros estão em outra!

  2. Comentou em 14/09/2010 Franco Adailton dos Santos e Santos

    Ora, se não me engano, as redes sociais surgiram com o propósito primordial de conectar as pessoas e reduzir a distância espacial. No caso do Twitter, alguns utilizam como mural de recados ou diário pessoal para relatar desventuras cotidianas. No entanto, para nós, profissionais da comunicação, o espaço reservado aos 140 caracteres podem ser de extrema utilidade para atingir nossos propósitos e públicos-alvo. As pessoas produzem os fatos e nós produzimos a notícia, obviamente, após a devida apuração. Cada macaco no seu galho.

  3. Comentou em 13/09/2010 Roberto Ribeiro

    Ora, uma vaca é uma vaca, uma galinha é uma galinha. Não se pode tirar leito de galinha, nem ovos de vaca. Imagine alguém ir buscar leite de pata e não encontrando leite de pata, diga que as patas são inúteis. Porcos dão toicinho, não feijão. Bananeiras não dão tomate.

    O twitter não é jornal, é um painel de recados. Um bom jornalista pode ler um recado de uma prostituta grudado num poste e daí chegar a uma grande reportagem, mas ele não pode esperar que publicando o recado da prostituta, simplesmente, tenha feito a reportagem! É preciso trabalhar.

    Uma vez eu conversava com um colega arquiteto sobre a dificuldade de se provar que os paleoíndios caçavam mamutes. Imagine se um arqueólogo fosse esperar achar um livro de receitas intitulado ‘Mil receitas de mamute dos paleoíndios’. O que se acham são pontas de lança e fragmentos de ossos.

    Logo, o twitter é ótimo como fonte de pistas, de indícios, de material bruto e fragmentário. Daí é que se constroem as notícias.

  4. Comentou em 13/09/2010 José Carlos de Medeiros Gondim

    Castilho amigo, essa discussão ainda está só começando. Realmente é complicado se aceitar a tuitagem como fonte de informações jornalísticas pq, além de ser instrumento de uma maioria de jovens sem noção do que é ‘notícia’, fica mais na opinião pessoal, emocional. O ‘fato’ em si passa quase despercebido. Mas é uma discussão muito interessante e que ainda vai dar muito o que falar. Forte abraço

  5. Comentou em 11/09/2010 ANTONIO AMARO JUNIOR

    Faço parte do percentual mínimo das pessoas que utilizam o Twitter, pois tenho mais de 40 anos. Acredito que a notícia, assim como todos os agentes sociais, não está cristalizada em seu modelo. A forma de noticiar é passível de mudança. A maioria das pessoas que utiliza essa rede social é muito jovem. E os jovens estarão sempre mais próximos das chaves da mudança. Talvez seja preciso usar os olhos deles para compreender a fascinante ferramena de informação que é o TWITTER.

  6. Comentou em 09/09/2010 Mirna Tonus

    Essa discussão vai longe, mas acho muito pertinente levantarmos tanto
    as possibilidades quanto os riscos dessa relação jornalismo-twitter.
    Enquanto pesquisadora da área, tenho visto de tudo e nem sei se
    chegaremos a um consenso. Boa discussão. Abraço.

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