Terça-feira, 28 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 848

O ‘efeito Snowden’ e a massa crítica do jornalismo

Por Carlos Castilho em 22/12/2013 | comentários

As consequências das denúncias de espionagem eletrônica feitas por Edward Snowden e divulgadas pela imprensa mundial mostraram como um fato jornalístico pode alterar não só as rotinas de jornais, revistas, telejornais e sites noticiosos como deflagrar um processo político, diplomático e corporativo que vai muito além das redações.

A expressão “efeito Snowden” começou a ser usada em junho de 2013 numa matéria da revista Esquire sobre os desdobramentos políticos dos documentos secretos entregues pelo ex-funcionário da CIA ao jornalista Glenn Greenwald, na época colunista do jornal britânico The Guardian. Um mês mais tarde, o professor Jay Rosen, da Universidade Municipal de Nova York (CUNY) transformou o “efeito Snowden” em tema de estudos acadêmicos e, agora em dezembro, a revista eletrônica da Fundação Nieman colocou a continuidade do processo como um dos 10 principais desafios a serem enfrentados pelo jornalismo mundial em 2014.

Ao distribuir para a imprensa 1,milhão de documentos secretos da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA) sobre espionagem em redes sociais e comunicações eletrônicas, Snowden confirmou algo que muitos suspeitavam mas nunca haviam conseguido provar. Deflagrou também um inédito movimento de cooperação entre jornais concorrentes, o compartilhamento aberto de informações entre repórteres e o primeiro desafio concreto de alguns grandes jornais às pressões dos governos norte-americano e britânico para que o assunto fossem esquecido.

Os jornais The New York Times, The Guardian e a revista alemã Der Spiegel se aliaram não só para montar uma estratégia comum de divulgação do conteúdo dos documentos vazados por Snowden, mas também para proteger o material contra ações da justiça e dos serviços de espionagem. Segundo Dan Gillmor, no artigo publicado na revista da Fundação Nieman, a imprensa está ganhando a batalha contra os governos interessados em enterrar o caso para que as pessoas continuem ignorando como sua vida pessoal é espionada, à margem da lei, por quem deveria impô-la.

Trata-se de um caso único em que a imprensa atuou como defensora do interesse público contra governos como o dos Estados Unidos e Inglaterra, duas das maiores potências mundiais. A questão é relevante e complexa porque envolve também outros interesses. A defesa da privacidade individual está sendo usada contra a Google por desafetos descontentes com o crescimento vertiginoso do banco de dados da empresa, hoje o maior do mundo. Há também quem esteja interessado em usar o “efeito Snowden” para quebrar o controle do governo chinês sobre a internet local.

Apesar disso, os desdobramentos do caso deflagrado pelo ex-funcionário da inteligência norte-americana podem servir de modelo para outros problemas que desafiam a sociedade contemporânea, como a corrupção governamental e privada, o problema da violência policial e o crime organizado. A lição mais importante do “efeito Snowden” talvez tenha sido a de mostrar que a colaboração aberta entre empresas jornalísticas e entre profissionais gera resultados e conteúdos muito mais relevantes para a sociedade do que a subserviência muda aos burocratas de plantão.

No seu artigo para a revista da Fundação Nieman, o professor e colunista Dan Gillmor sugere que os jornalistas passem a dar prioridade máxima ao desenvolvimento do que chamou de “massa crítica” do jornalismo. Trata-se de um conceito relacionado à investigação e produção colaborativa de dados, fatos, eventos e processos socialmente relevantes. Em vez de competir pelo furo, os profissionais do jornalismo passariam a focar seus esforços na elaboração conjunta de notícias e reportagens sobre os temas em agenda.

Foi o que aconteceu no caso Snowden. O material secreto da NSA foi passado aos jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, que por sua vez o compartilharam com outros colegas que usaram o mesmo material para identificar interesses nacionais, empresas específicas e personagens locais. Boa parte da imprensa mundial participou do “efeito Snowden”, mantendo o tema na agenda internacional por um semestre, causando sérios embaraços a governos como o dos Estados Unidos.

A ideia de massa crítica envolve o conjunto de conhecimentos, informações, notícias, dados e fatos acumulados por jornais locais e nacionais, grandes e pequenos, em todo mundo. Este é um patrimônio informativo precioso que a imprensa pode usar para romper a subserviência política e financeira em relação aos governos para voltar a valorizar o cidadão que paga para ter notícias que afetam seu quotidiano e seus direitos civis.

Edward Snowden pode ser tranquilamente do homem do ano da imprensa em 2013.

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