Domingo, 26 de Abril de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 18 - nº 847

O falso equilíbrio da fórmula do “outro lado”

Por Carlos Castilho em 28/02/2012 | comentários

A preocupação em ouvir os dois lados de um problema levou o jornalismo contemporâneo a desenvolver uma fórmula que passou a ser aplicada mecanicamente, gerando uma falsa impressão de equilíbrio e de isenção.  Esta tendência começa a ser revertida a partir da revisão dos códigos de ética e dos manuais de redação de alguns jornais e emissoras de rádio, como é o caso da emissora pública norte-americana National Public Radio (NPR) .

A automatização da fórmula “fulano disse, sicrano disse”  surgiu naturalmente em função da aceleração do ritmo industrial de produção de notícias e reportagens em jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, bem como nos sites de notícias na internet. Mas essa falsa impressão de equilíbrio editorial se mostra cada vez mais defasada em relação à realidade informativa na qual o jornalismo é um componente-chave.

A fórmula foi criada para atender à preocupação em dar os dois lados de um tema transformado em notícia, tratando-o de forma imparcial.  Ela fazia parte de um contexto onde os manuais de redação e códigos de ética estavam mais preocupados em proteger os jornalistas das acusações de conduta tendenciosa do que em propor normas para buscar o esclarecimento dos fatos.

O uso de uma declaração contra e outra a favor  para transmitir a percepção de imparcialidade na notícia tornou-se ineficaz na medida em que a realidade foi se revelando mais complexa do que a visão simplista do bom ou mau, do verdadeiro ou falso, do justo ou injusto.  O jornalismo começou a ter que lidar com contextos cada vez mais polarizados por percepções diversificadas, nos quais há uma dificuldade crescente para encaixar as declarações de entrevistados tanto na categoria "a favor" como na categoria "contra".

Mas a força do hábito e a rotina industrial impedem a maior parte das redações de constatar essa mudança em curso no ambiente onde se movem os profissionais. Daí a relevância dos projetos de mudança dos manuais de redação ede  códigos de ética em que a abordagem dicotômica da ecologia informativa é substituída por uma preocupação mais centrada na visão de que o esclarecimento dos fatos implica mais do que uma mera preocupação em identificar quem está contra e quem está a favor.

Basta ver num telejornal atual como as notícias, especialmente as políticas, contemplam declarações telegráficas de um lado e do outro para preencher o requisito da isenção, mas a percepção de equilibro não resiste à mais rápida e superficial análise dos contextos tanto dos entrevistados como do problema em foco. É possível construir uma noticia perfeitamente tendenciosa ouvindo os dois lados.

O jornalista tem como se defender de qualquer acusação de favorecimento, mas os leitores e principalmente os protagonistas diretos dos fatos e eventos abordados na notícia sabem que a realidade é bem diferente

A formula do “fulano disse, sicrano disse”  está se transformando num recurso caricatural na medida em que as sofisticadas técnicas desenvolvidas pelos publicitários, marqueteiros e especialistas em comunicação empresarial atropelaram a postura muitas vezes ingênua dos jornalistas diante de experts treinados na manipulação das percepções.

A complexidade crescente da nova realidade informativa, em tese, obrigaria os jornalistas a “desmontar” tudo o que ouvem ou vêem para identificar até onde vai o interesse do entrevistado ou protagonista, e o que corresponde à realidade. Mas isso se choca com a velocidade da produção jornalística e passa a ser uma preocupação geralmente sacrificada em nome da pressa e da exclusividade.

Um fato relevante no novo manual elaborado pela NPR é que ele dá menos destaque à defesa contra acusações de parcialidade informativa e aumenta a ênfase na preocupação com a diversidade de enfoques numa  investigação jornalística.  Procura também repor o eixo da atividade noticiosa no leitor e não no profissional, revertendo uma distorção desenvolvida ao longo dos anos em que as redações se preocuparam mais em cumprir agendas do que com o leitor, telespectador, ouvinte ou visitante de site noticioso.

O abandono do “fulano disse, sicrano disse” não será rápido e nem fácil porque é uma fórmula antiga, entranhada nos hábitos dos profissionais e principalmente porque exigirá uma mudança de perspectivas e valores. Não é fácil deixar de ver o mundo como dividido apenas entre os bons e os maus, para aceitar que entre um extremo e outro há posições intermediárias e cada uma delas tem seu contexto específico.  

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