Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Obrigatoriedade de diploma: um debate fora de foco

Por Carlos Castilho em 05/10/2008 | comentários

A discussão em curso sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão parece cada dia mais distante da realidade do jornalismo. A maior parte dos argumentos está centrada na reserva de mercado, como se isto fosse a garantia de que a profissão sairá do atual impasse em que se encontra.


 


Vou logo dizendo que não sou contra e nem a favor a obrigatoriedade de diploma simplesmente porque acho que o debate perdeu foco. Os defensores da obrigatoriedade parecem mais preocupados em defender uma exclusividade do que em investigar por que a imprensa está em crise, por que o desemprego tornou-se endêmico nas redações e por que as faculdades de jornalismo não conseguem propor alternativas.


 


O exercício do jornalismo está submetido hoje a pressões inéditas na história da profissão porque as próprias bases da atividade estão sendo postas em questão. As inovações tecnológicas e a internet geraram uma crise no modelo de negócios da imprensa, mas o debate está passando ao largo deste problema que é central.


 


De nada adiantará obter um a decisão judicial favorável à obrigatoriedade do diploma se o número de empregos disponíveis está caindo. Se as faculdades formam cada vez mais diplomados que não encontrarão emprego porque não há vagas no imprensa convencional ou porque não foram capacitados para a demanda de profissionais na nova mídia digital.


 


As questões centrais hoje são o desenvolvimento de um novo modelo de negócios para a imprensa, o novo relacionamento dos jornalistas com o público e o novo papel das faculdades. São questões que afetam diretamente a sobrevivência da categoria, mas são também decisivas para toda a sociedade que, mais do que nunca, depende das informações produzidas pelos jornalistas, profissionais ou não.


 


Os industriais da comunicação podem decidir abandonar o negócio da imprensa quando perceberem que ele deixou de ser lucrativo. Muitos já o estão fazendo, porque a busca de um novo modelo de negócios exige tempo e dinheiro. Nos Estados Unidos, o número atual de jornais já é 60% menor do que nos anos 1940. Só nos últimos dois anos foram demitidos mais de dois mil jornalistas nos EUA.


 


O argumento de que este é um problema dos gringos não convence porque nosso modelo de negócios na imprensa é uma cópia do deles — e nós só não estamos vivendo o mesmo drama das redações americanas por conta de uma bolha de consumo, cuja duração tornou-se incerta depois da crise em Wall Street.


 


Mesmo que a imprensa brasileira não passe pelos mesmos apertos da mídia americana, ainda assim ela terá que adaptar o seu modelo de negócios à era da internet porque a publicidade vai migrar para o ambiente online, especialmente os classificados, automóveis, habitação e mercado financeiro. Os jornais não têm como concorrer com a Web nessas áreas, que são tradicionalmente fonte da maioria das receitas publicitárias da imprensa.


 


A internet já está mudando a rotina dos jornalistas e vai provocar mudanças ainda mais intensas. Não há mais dúvidas de que a grande mudança em termos de rotina de trabalho será a adaptação à interatividade com os leitores, coisa para a qual os profissionais não estão preparados e os estudantes de jornalismo, menos ainda. A internet já deu aos leitores a possibilidade de publicar, e isto não vai ser mudado com a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.


 


As faculdades de jornalismo, por seu lado, não servem mais para certificar a qualificação dos diplomados para exercer uma atividade informativa. Salvo honrosas exceções, elas se limitam a dar um treinamento mínimo voltado para empregos convencionais que estão desaparecendo rapidamente.


 


Poucas resolveram apostar nas novas exigências da comunicação digital e principalmente na capacitação dos alunos para interagir com comunidades, que já não são mais consumidoras passivas de notícias.


 


A própria definição de jornalismo deixou de ser consensual. É uma ciência, uma disciplina, uma atividade ou é uma habilidade? Dependendo da resposta, exercício da função adquire características diferenciadas.


 


Todo o conjunto de rotinas, crenças e valores que serve de base para a atividade jornalística está em questão e este é o grande dilema da profissão. Perto dele, o bate-boca sobre obrigatoriedade de diploma parece inócuo porque fica desvinculado da realidade que nos cerca.

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