Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Opiniões custam pouco, notícias custam muito

Por Luiz Weis em 10/05/2009 | comentários

Frank Rich, um dos mais agudos observadores da política e da cultura americana, escreveu na sua coluna deste domingo, 10, no New York Times, um texto notável pela ponderação e perspectiva histórica sobre a crise do jornalismo impresso e a expansão da blogosfera. O artigo “The American Press on Suicide Watch” [A imprensa americana na hora do suicídio, em tradução livre] focaliza naturalmente os Estados Unidos, mas o essencial do que diz atravessa fronteiras nacionais.


A explosão da internet antecedeu em poucos anos a contestação – à direita e à esquerda, por motivos evidentemente antagônicos – da credibilidade do que passou a ser chamado, com desdém, mídia convencional. A internet amplificou a mais não poder a “desconexão cultural”, como diz Rich, entre o jornalismo e o público.


A isso se somou o declínio da indústria da informação, com a queda das tiragens e da publicidade nos jornais (e da audiência dos noticiosos da televisão).


No começo – assim como Hollywood reagiu ao advento da TV –, a grande imprensa achou que a nova onda tecnológica não iria longe. Depois, entrou em pânico.


Hoje, não é só o jornalismo americano que se desespera em busca de um novo modelo de negócios para sobreviver. A indústria gramofônica, entre outros ramos do setor de entretenimento igualmente atingidos pela internet, também.


Mas, como escreve Frank Rich, “com todo o respeito pelo show business, só o jornalismo é essencial para a democracia”.


Para ele, jornalismo é o que está nos jornais e revistas. “A apuração de notícias não deve ser confundida com artigos de opinião ou o que sai nos blogues.’ Esclarece: “Opiniões podem ser estimulantes e catárticas. Podemos passar horas surfando os posts de blogueiros que amamos ou desprezamos” e alguns desses textos sejam verdadeiras gemas.


E aí ele se aproxima do nervo da questão. Opiniões, qualquer que seja o seu mérito, custam pouco. Noticias custam muito. Alguns tipos de eventos – os locais, essencialmente – podem ser cobertos por “cidadãos jornalistas” voluntários com tempo livre, integridade e um site.


“Mas não podemos ter opiniões sérias sobre o papel dos Estados Unidos no combate ao talebã no Paquistão”, compara o colunista, “se correspondentes corajosos e bem-informados não nos contarem em tempo real o que de fato está acontecendo ali.”


E, na esteira disso:


“Não podemos saber o que acontece atrás de portas fechadas em instituições corruptas e difíceis de penetrar em Washington e Wall Street a não ser que equipes de repórteres armados com o necessário conhecimento técnico e com contatos assiduamente desenvolvidos se ponham a cavar ali dia e noite. Esses repórteres precisam comer e pagar aluguel, trabalhem eles para um periódico impresso, um rede de TV, uma operação na web ou um tipo de organismo noticioso que ainda somos incapazes de imaginar.”


Em termos irredutíveis, alguém tem de pagar a conta da notícia, seja qual for a plataforma, como se diz hoje em dia, em que irá aparecer. Pagar e policiar a sua equidade e exatidão.


Para manter abertas as torneiras da notícia, Rich insiste, citando um comentarista, “todo experimento, profissional e amador, deve ser tentado, por instituições como o NYTimes ou por algum garoto de 19 anos de quem poucos de nós ouviram falar”.


Mas, de novo, alguém tem de bancar o custo do experimento. “Não é porque a informação na internet é [geralmente] gratuita que ela poderá ser sempre gratuita. A publicidade na internet nunca será suficientemente lucrativa para sustentar serviços ambiciosos de apuração dos fatos.”


O desfecho vai depender, em última análise, do público – do que ele considerar mais, ou menos, prioritário. Durante muito tempo, não passava pela cabeça de ninguém pagar para ver TV [menos na Grã-Bretanha, onde o espectador paga uma taxa anual obrigatória que serve para sustentar a BBC]. Mas hoje muitos milhões de espectadores pagam pelo acesso aos canais da TV a cabo – onde, aliás, paga-se um adicional por futebol e pornografia.


A moral da história, segundo Frank Rich:


“Devemos ridicularizar a velha mídia convencional quando ela se vangloria. Devemos deplorar o jornalismo de tablóide que, como a barata, sempre estará conosco. Mas se um conjunto abrangente de notícias de verdade também deve fazer parte do quadro, não tardará para que tenhamos de escolher entre bancar ou calar. Qualquer que venha a ser a forma que o jornalismo acabará adquirindo nos Estados Unidos, não se enganem: no fim, receberemos aquilo pelo qual pagarmos.”


O artigo, no original, pode ser lido aqui.

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