Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Opiniões custam pouco, notícias custam muito

Por Luiz Weis em 10/05/2009 | comentários

Frank Rich, um dos mais agudos observadores da política e da cultura americana, escreveu na sua coluna deste domingo, 10, no New York Times, um texto notável pela ponderação e perspectiva histórica sobre a crise do jornalismo impresso e a expansão da blogosfera. O artigo “The American Press on Suicide Watch” [A imprensa americana na hora do suicídio, em tradução livre] focaliza naturalmente os Estados Unidos, mas o essencial do que diz atravessa fronteiras nacionais.


A explosão da internet antecedeu em poucos anos a contestação – à direita e à esquerda, por motivos evidentemente antagônicos – da credibilidade do que passou a ser chamado, com desdém, mídia convencional. A internet amplificou a mais não poder a “desconexão cultural”, como diz Rich, entre o jornalismo e o público.


A isso se somou o declínio da indústria da informação, com a queda das tiragens e da publicidade nos jornais (e da audiência dos noticiosos da televisão).


No começo – assim como Hollywood reagiu ao advento da TV –, a grande imprensa achou que a nova onda tecnológica não iria longe. Depois, entrou em pânico.


Hoje, não é só o jornalismo americano que se desespera em busca de um novo modelo de negócios para sobreviver. A indústria gramofônica, entre outros ramos do setor de entretenimento igualmente atingidos pela internet, também.


Mas, como escreve Frank Rich, “com todo o respeito pelo show business, só o jornalismo é essencial para a democracia”.


Para ele, jornalismo é o que está nos jornais e revistas. “A apuração de notícias não deve ser confundida com artigos de opinião ou o que sai nos blogues.’ Esclarece: “Opiniões podem ser estimulantes e catárticas. Podemos passar horas surfando os posts de blogueiros que amamos ou desprezamos” e alguns desses textos sejam verdadeiras gemas.


E aí ele se aproxima do nervo da questão. Opiniões, qualquer que seja o seu mérito, custam pouco. Noticias custam muito. Alguns tipos de eventos – os locais, essencialmente – podem ser cobertos por “cidadãos jornalistas” voluntários com tempo livre, integridade e um site.


“Mas não podemos ter opiniões sérias sobre o papel dos Estados Unidos no combate ao talebã no Paquistão”, compara o colunista, “se correspondentes corajosos e bem-informados não nos contarem em tempo real o que de fato está acontecendo ali.”


E, na esteira disso:


“Não podemos saber o que acontece atrás de portas fechadas em instituições corruptas e difíceis de penetrar em Washington e Wall Street a não ser que equipes de repórteres armados com o necessário conhecimento técnico e com contatos assiduamente desenvolvidos se ponham a cavar ali dia e noite. Esses repórteres precisam comer e pagar aluguel, trabalhem eles para um periódico impresso, um rede de TV, uma operação na web ou um tipo de organismo noticioso que ainda somos incapazes de imaginar.”


Em termos irredutíveis, alguém tem de pagar a conta da notícia, seja qual for a plataforma, como se diz hoje em dia, em que irá aparecer. Pagar e policiar a sua equidade e exatidão.


Para manter abertas as torneiras da notícia, Rich insiste, citando um comentarista, “todo experimento, profissional e amador, deve ser tentado, por instituições como o NYTimes ou por algum garoto de 19 anos de quem poucos de nós ouviram falar”.


Mas, de novo, alguém tem de bancar o custo do experimento. “Não é porque a informação na internet é [geralmente] gratuita que ela poderá ser sempre gratuita. A publicidade na internet nunca será suficientemente lucrativa para sustentar serviços ambiciosos de apuração dos fatos.”


O desfecho vai depender, em última análise, do público – do que ele considerar mais, ou menos, prioritário. Durante muito tempo, não passava pela cabeça de ninguém pagar para ver TV [menos na Grã-Bretanha, onde o espectador paga uma taxa anual obrigatória que serve para sustentar a BBC]. Mas hoje muitos milhões de espectadores pagam pelo acesso aos canais da TV a cabo – onde, aliás, paga-se um adicional por futebol e pornografia.


A moral da história, segundo Frank Rich:


“Devemos ridicularizar a velha mídia convencional quando ela se vangloria. Devemos deplorar o jornalismo de tablóide que, como a barata, sempre estará conosco. Mas se um conjunto abrangente de notícias de verdade também deve fazer parte do quadro, não tardará para que tenhamos de escolher entre bancar ou calar. Qualquer que venha a ser a forma que o jornalismo acabará adquirindo nos Estados Unidos, não se enganem: no fim, receberemos aquilo pelo qual pagarmos.”


O artigo, no original, pode ser lido aqui.

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/05/2009 João Pederiva

    Parabéns por tocar no financiamento da atividade jornalística. Informação tem atributos de bem público. O que não fica claro para mim é o motivo de o modelo Google não funcionar também na difusão de opiniões jornalísticas. Vale lembrar que os blogs e as opiniões incorporam informações.

    A propósito, a regulamentação da prestação de informações contábeis é objeto de financiamento estatal, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. O que o Conselho de Comunicação Social diria sobre a regulação das informações jornalísticas?

  2. Comentou em 12/05/2009 Valquer Bicalho

    A internet democratiza a informação, vai ter de tudo , como em uma grande livraria, você escolhe o que quer e em quem acredita.
    A vantagem é que na internet você também se manisfesta , como estou fazendo.
    Precisa regular ? talvez , não posso desrespeitar as pessoas só porque tenho um espaço para isso. Como não sei, censurar simplesmente a qualquer pretexto para excluir o que não queremos , também não poderá ser.
    Temos atingir o máximo que puder as pessoas para que se manifestem , quem os quiser ouvir e ler que o façam.
    Abraços

  3. Comentou em 11/05/2009 Palmerio Carvalho

    A internacionalização do poder da informaçaõ, é notorio e bem a rigor que no Brasil, não seria diferente, os grandes conlmerados sejam eles de direita , esquerda, meia, centro etc. os interesses grupais astão, como falei, a rigor sendo o cerne de seu conteudo politico.
    Bem se torna nescessario rever a dialetica e os fundamentos , isto é , a raiz do pensamento impregnado , é muito serio e ao andar da carruagem vai ficando mais serio ainda.

  4. Comentou em 11/05/2009 Ney José Pereira

    Se opiniões custam pouco e notícias custam muito, por que os opiniosos ou opiniáticos faturam muitíssimo e os reporterezinhos ganham pouquíssimo?.

  5. Comentou em 11/05/2009 Ibsen Marques

    Com o perdão do humilde comentário, se SÓ o jornalismo fosse essencial à democracia, ainda estaríamos sob a ditadura, ou ditabranda como diriam alguns inconsequentes. Pelo que me lembro do período não fosse a cultura: teatro e música, não teríamos canais de protesto e informação sobre o que andava pela cabeça dos milicos e dos pseudo políticos. Aos jornais restava apenas a opção de Camões como protesto. Percebíamos o protesto contra a censura, mas não conhecíamos a informação.

  6. Comentou em 11/05/2009 Andre Martins

    Jornais são empresas e notícias são produtos. Os jornais passaram a cortar custos substituindo fatos por opiniões. Mas as opiniões dos jornais ficaram caras com a popularização da internet. Além disso, no Brasil essas opiniões não são compartilhadas pela maioria da população. Produto caro e com pouca saída tende a desaparecer. O jornalismo é fundamental para a democracia, mas os jornais não são.

  7. Comentou em 11/05/2009 Gabriel C. B.

    Concordo com os cometnários de Rodrigo Saraceno. Deixei de ler os grandes jornais e assistir aos telejornais sobretudo por que encontro informação de melhor qualidade, imparcial e com comentários mais aprofundados em sites e blogs da internet. (Basta ver a cobertura do caso Satiagraha). A gratuidade ou não do acesso a tais mídias foi secundária em minha decisão.

  8. Comentou em 11/05/2009 Rodrigo Saraceno

    Uma reflexão sobre o final do artigo: ‘Qualquer que venha a ser a forma que o jornalismo acabará adquirindo nos Estados Unidos, não se enganem: no fim, receberemos aquilo pelo qual pagarmos.” É de se questionar se a crise dos jornais, hoje, não se dá justamente porque pagamos pela notícia mas não a recebemos. Fica muito difícil o papo abstrato em defesa dos jornais(lismo?) quando o que se tem, da primeira à última página, é informação mal apurada. Com o devido respeito, mas se é pra ter meu ouvido usado como penico, prefiro não pagar. A midia tradicional é um meio noticioso não-interativo, lento, limitado fisicamente e ainda por cima com conteúdo de péssima qualidade, e ainda se discute se os usuários de seus serviços estão migrando para a internet porque ‘não querem pagar pela informação’. Isso é que desconexão com o suposto público-alvo.

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