Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Oposição medíocre

Por Mauro Malin em 03/05/2006 | comentários

A oposição brasileira é de uma mediocridade espantosa. Não foi capaz de denunciar publicamente o “mensalão”, do qual tinha conhecimento pelo menos desde o surgimento das primeiras revelações (Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa, fevereiro de 2004; Miro Teixeira, Jornal do Brasil, setembro do mesmo ano). Foi preciso que uma desavença interna no bloco governista, disparada por algum conflito entre gângsteres ainda não esclarecido (vídeo dos Correios enviado à Veja), levasse o então deputado Roberto Jefferson a cair atirando.


Em seguida, a oposição não foi capaz de obter, pelas vias políticas e institucionais, a punição dos culpados. Perdeu-se freqüentemente em agressões estéreis. Pior: mancomunou-se com os vilões da história nas votações que absolveram os beneficiários do valerioduto e do dimasduto.


Mas, afinal, que moral têm essas formações políticas para apontar um dedo acusador?


Do PT ao PP, passando pelo PSDB e pelo PFL, não há mais muita diferença entre os partidos. Ah, sim, claro: não deixemos de fora, entre os grandes, a federação de microinteresses chamada PMDB. O PTB dispensa comentários. PSB, PC do B, PDT, PPS não escapam. Todos têm parlamentares denunciados por corrupção, se não no plano federal, nos planos estadual e municipal. Nenhum tomou providências sérias a esse respeito. O PSOL ainda não foi maculado, mas sua linha política não tem nada a ver com a realidade atual do país e do mundo.


Recentemente, um antigo político com quem conversei, metido na vida pública desde antes do golpe de 64, comparou a triste sina atual do PT com a do PMDB da redemocratização. Mais ou menos nos seguintes termos: o pessoal do MDB passou a ditadura sem possibilidade de desfrutar das benesses do poder (cada um entenda isso como quiser), depois (leia-se governos estaduais, a desde 1983, e governo Sarney) aproveitou. É um emprego aqui, um contrato ali. Essas coisas.


A avaliação é imperfeita. Em estados e municípios governados sob a bandeira do MDB, antes das eleições de 1982, houve denúncias de corrupção (ops!, quer dizer, houve desfrute das benesses do poder). Assim como havia indivíduos honestos, democratas e mesmo progressistas abrigados na Arena, exatamente porque o MDB local era bandido ou pró-ditadura. Ou por alguma outra razão de política local que remontava à divisão entre PSD, PTB e UDN.


Mais do que não saber denunciar, a oposição não soube apontar caminhos, como teriam feito um Tancredo Neves, um Ulisses Guimarães, mesmo um Mario Covas nos melhores momentos.


Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Tasso Jereissati, Arthur Virgílio, Alberto Goldman não tiveram nem clareza, nem pulso para defender o interesse público. E que dizer do senador que ocupou a presidência do PSDB até meados de 2005, Eduardo Azeredo?


Dispenso-me de comentar a atuação do PFL, porque o PFL, filho do PDS, neto da Arena, bisneto de primos-irmãos da UDN e do PSD (Carlos Luz, para dar um bom exemplo, era do PSD e não da UDN), o PFL é, por sua natureza e trajetória, o mais oficialista dos partidos. Mais do que o PP, hoje tão próximo do PT.


Paga-se o preço da transição com transação que serviu para o país sair da ditadura. Foi um caminho válido, mas tem preço. Tudo tem preço na política.


Isso dito, vamos ao ponto que interessa aqui: a mídia tem sido incapaz de mostrar o fracasso da oposição. Ou não tem tido interesse nisso. Por isso há um desequilíbrio entre as denúncias contra o governo Lula e denúncias contra o governo Alckmin/Lembo, por exemplo.


O resultado é que a imprensa freqüentemente se coloca no papel de oposição, que não lhe cabe. Desatinos se multiplicam. E, por falta de clareza, o país continua ficando para trás. Com esse governo e com essa oposição, é difícil enfrentar os maiores problemas, que hoje todo mundo conhece razoavelmente.

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/05/2006 Rogério Ferraz Alencar

    O PSOL também foi maculado: O senador Geraldo Mesquita (se não estou errando o nome), do Acre, foi expulso do partido, por embolsar parte do dinheiro dos funcionários do gabinete dele.

  2. Comentou em 04/05/2006 Impossível Impossível

    Lula roubou mais? O PT roubou mais? Quanto? Ou a oposição inoperante que aí está, nos anos anteriores não participou de loteamento de poder, contratações sem licitação, venda de estatais, empreiteiras, nomes comuns a quem está no Governo, porta de entrada das falcatruas que assolam este país deste priscas eras, típico da corrupção endêmica que sempre existiu no Brasil? Não sejamos hipócritas! A pergunta a ser feita é: Quem foi melhor para o Brasil? O Lula, ou os governos anteriores, alternância entre o PSDB, PMDB, PFL e seus ancestrais elitistas? Por que ninguém ainda discutiu isso? Será que o governo Lula foi tão bom assim a ponto de distanciar a oposição de um debate mais objetivo e honesto?

  3. Comentou em 04/05/2006 Lica Cintra

    Muito pertinente essa observação. A democracia baseia-se na responsabilidade de governo e oposição. Se é fato que os governistas pisaram feio na bola…os oposicionistas também pisaram legal. Reforma política… nem FHC nem Lula tiveram coragem de encarar.

  4. Comentou em 03/05/2006 janice tomanini

    Realmente a oposição é inoperante. Mas, não falo em desequilíbrio entre as denúncias. O assalto lulista é bem pior. Mas, assalto é assalto. Só temos que tirar os que roubam e colocar alguns que roubem menos. Todos roubam, infelizmente. Sai Lula, entra qualquer um que roube um pouco menos e assim por diante. Nesse país, funciona desse jeito.

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