Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Os brazucas que a mídia esqueceu

Por Luiz Weis em 11/07/2009 | comentários

Será que alguém aí se lembra de ter visto em algum diário brasileiro, de preferência juntos, os nomes Gizele Prata, Cleumar (sem sobrenome), José Rodrigues, José Lima, Geneci Sabino? Ou ainda, Antonio Carlos Linhares, Neyval José de Andrade, Sueli Siqueira?

Pois é. Eles são personagens de um gênero de matéria que os jornais brasileiros fazem menos do que deveriam, embora seja leitura garantida – histórias humanas que digam algo sobre o país.

É diferente da clássica fórmula de abrir uma reportagem com um ou dois casos para ilustrar uma questão qualquer, geralmente envolvendo decisões de governos, o verdadeiro assunto do texto.

Trata-se de reportagens em que o assunto são as próprias pessoas e as suas decisões, ainda que tenham a ver, evidentemente, com o grande mundo ao seu redor.

É numa matéria dessas que entram, não como figurantes, mas como protagonistas, os nomes citados acima. Eles e as suas circunstâncias são coisas nossas – só que vistas por um outro olhar, porque as nossas redações talvez estivessem muito ocupadas para enxergá-las.

E, no entanto, o seu problema está na cara, como se diz. É o da difícil readaptação ao Brasil dos brazucas. Assim são chamados os patrícios (muitos deles mineiros) que foram tentar a sorte nos Estados Unidos (muitos deles no Estado de Massachusetts), voltaram por causa da crise econômica americana – apenas para serem colhidos pela recessão brasileira, a ponto de levá-los mais uma vez a fazer as malas.

Essa a novidade que, em lugar de aparecer na Folha, ou no Globo, ou no Estado, por exemplo, foi parar no Boston Globe, jornal do grupo do New York Times com a corda no pescoço. Mas não tão apertada ainda para impedir que a sua repórter Maria Sacchetti viajasse a Minas para apurar como andam os “arrependidos” de que fala na matéria “Da Nova Inglaterra [região que engloba Massachusetts] ao Brasil – a economia da pátria esmaga sonhos”, publicada na quarta-feira, 8.

Para cenário de sua apuração, Maria escolheu a “sonolenta cidade” de Conselheiro Pena, 21 mil habitantes, a 450 quilometros de Belo Horizonte. “Não há uma família aqui que não tenha um parente nos Estados Unidos”, diz o prefeito Neyval José de Andrade”. Boa com os detalhes, a repórter notou que na revenda Volkswagen da cidade um poster diz: “Sonhos existem para virar realidade”.

Para a abertura da matéria, ela encontrou, no casarão que construiu para a mãe, uma tristonha Gizele Prata, “indiferente à paisagem de montes verdejantes e o sinuoso Rio Doce”.

A casa era com que Gizele sonhava quando esfregava chão em Boston para pagar por ela. Aos 29 anos, americana naturalizada, voltou decidida a ficar, mas o regresso, contou à repórter, foi uma profunda decepção. “A faculdade onde ela estuda farmácia fica a mais de uma hora de viagem. As longas filas e a burocracia a deixam louca. Ela não consegue achar emprego e teme que nunca terá uma carreira de verdade. Agora, tem um novo sonho: voltar para os Estados Unidos.”

Na matéria do Boston Globe, a frustração de Gizele ecoa entre outros emigrantes que imaginavam construir uma vida melhor no Brasil com o dinheiro que fizeram na América. Em vez disso, relata Maria, “muitos enfrentam baixos salários, desemprego e mesmo choque cultural”.

E aí vem o caso do retornado que, dois anos atrás, abriu com estardalhaço em Conselheiro Pena o “Joe’s American Bar and Grill”. Meses depois, fechou. Ele tinha trabalhado num restaurante em Massachusetts e achou que isso bastava. Mas não tinha experiência em negócios e os conterrâneos não gostaram do cardápio estrangeiro do “Joe’s”.

A irmã do prefeito Neyval voltou com outra idéia: abrir um supermercado. Não pegou. Ela faliu e regressou ilegalmente para os Estados Unidos “para sobreviver”, diz o irmão. Por isso ele não quis dar o nome dela.

Outro que ainda está por aqui, mas se recusou a dar o sobrenome porque pretende voltar aos EUA clandestino é Cleumar, um carpinteiro de 32 anos, que fala fluentemente inglês. O patrão dele em Cape Cod diz que o seu emprego está garantido. “Aqui não falta trabalho”, comenta. “Mas o dinheiro é curto.”

Cerca de 1,4 milhão de brasileiros vivem nos Estados Unidos, 336 mil deles em Massachusetts. Remetem para o Brasil mais de US$ 2,7 bilhões por ano, segundo dados oficiais americanos.

A repórter do Globe dá uma informação que este blogueiro não conhecia: a origem da migração mineira para Massachusetts data da segunda guerra mundial, quando alguns engenheiros da região, depois de trabalhar no interior do Estado, voltaram levando consigo os empregados brasileiros.

A fonte da história parece ser o livro “Becoming Brazuca” (Virando Brazuca), publicado nos EUA ano passado. Os autores, que estranhamente a repórter não identifica, são o professor Clémence Jouët-Pastré, da Universidade Harvard, e a estudante Leticia J. Braga.

A onda, que inchou nos anos 1980 com a estagnação da economia brasileira, refluiu com a sua recuperação, nos últimos anos. O problema é que, segundo um estudo de 2006, 70% dos emigrantes retornados se dão mal nos negócios aqui.

“Se não fizermos nada, eles ficarão desempregados lá e desempregados aqui”, diz ao Globe o coordenador de uma ONG que trabalha para criar empregos em Governador Valadares – a matéria conta que os mineiros se referem à cidade como Governador Valadólares, por causa das remessas dos emigrantes nos bons tempos.

Outra iniciativa foi uma operação conjunta do governo brasileiro com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No mês passado, deram início a uma série de seminários em 25 cidades, incluíndo Conselheiro Pena. No segundo semestre, repetirão a dose nas comunidades brasileiras de Massachusetts. A idéia é ensinar o bêabá da abertura de negócios.

Dos 30% que se deram bem, a repórter dá dois exemplos. Um é o ex-operário de construção civil em Boston, Geneci Sabino, 40 anos, que em 2005 investiu em casas para turistas (a matéria não diz onde). “Agora ele tem cinco motos e dois carros”, informa a reportagem.

O outro é José Lima, 60 anos, que comprou um caminhão para fazer carretos com o dinheiro poupado quando ele e a mulher eram caseiros nos Estados Unidos, antes de entrar no ramo do “delivery”. O trabalho vai de vento em popa, mas, se pudesse, voltaria. Lima guarda na boleia as velhas placas amarelas de Nova Jersey, onde morou.

A matéria fecha com ele. Podia ter fechado com a socióloga Sueli Siqueira, da Universidade Vale do Rio Doce, que pesquisou a economia dos emigrantes. Ele aconselha aos que ainda ficaram por lá que voltem ao Brasil, principalmente se estiverem desempregados ou ilegais.

“Não vale a pena”, argumenta. “No fim das contas, o dinheiro que eles mandam para casa tem um custo muito alto.”

A reportagem pode ser lida, no original aqui.

Melhor teria sido, naturalmente, lê-la num jornal brasileiro.

P.S. “Ser jornalista é ser testemunha”

De um artigo do colunista Roger Cohen, do International Herald Tribune, um dos jornalistas ocidentais que mais conhecem o Irã, transcrito no Estado do domingo, 12:

“Logo após a 1ª Guerra Mundial, o sociólogo alemão Max Weber proferiu uma conferência em Munique sobre jornalismo.

‘Nem todos percebem que escrever um texto jornalístico realmente bom exige tanto do nosso intelecto quanto um trabalho acadêmico’, disse ele aos estudantes. ‘Isso se aplica especialmente quando estamos reunindo material para um artigo que tem de ser escrito no momento e tem de ter repercussão imediata, mesmo sendo produzido em condições totalmente diferentes de quando realizamos uma pesquisa acadêmica. No geral, ignoramos que a verdadeira responsabilidade de um jornalista seja muito maior do que a de um acadêmico.’

Sim, jornalismo é uma questão de gravidade. A tendência hoje é a de destruir a reputação em vez de elogiar a mídia.

Em meio aos gritos de doutrinação partidária envolvendo a posse do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e os toques de sinos anunciando a morte da imprensa, uma verdade fundamental se perde: a de que ser jornalista é ser testemunha dos fatos. O resto é decoração.

Ser testemunha dos fatos significa estar presente. Nenhum buscador na internet consegue transmitir o odor de um crime, o tremor no ar, os olhos que ardem, os ecos de um grito.

Nenhum buscador de notícias vai lhe falar sobre a cidade devastada suspirando ao anoitecer, nem dos gritos desafiadores ouvidos noite adentro. Nenhum milagre da tecnologia pode reproduzir essa sensação de boca seca que o medo causa. Nenhum algoritmo vai capturar a dignidade sem alarde, não vai provocar a carga de adrenalina que se funde com a coragem nem expor as marcas ainda frescas de uma chicotada.

Fui um dos últimos jornalistas ocidentais a deixar Teerã. Ignorei a revogação do meu visto de jornalista e permaneci ali enquanto foi possível. Fiquei profundamente revoltado com a submissão ao grupo que cerca Ahmadinejad, que se apossou do poder quebrando o equilíbrio das instituições da revolução e cujo objetivo ficou claro: afastar qualquer testemunha ocular do crime.

Os iranianos testemunharam os acontecimentos – com imagens de vídeo em celulares, com fotografias, por meio do Twitter e outras redes sociais – conseguindo, assim, uma indelével acusação global dos usurpadores de 12 de junho.

[Acrescentado às 13h20 de 12/7.]

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