Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Os cadáveres insepultos do PT

Por Alceu Nader em 09/11/2005 | comentários


por Walter Alves*


O PT não consegue enterrar os cadáveres de dois prefeitos assassinados no estado de São Paulo. Ontem, 8/11, a viúva de Toninho do PT e a ex-namorada de Celso Daniel depuseram na CPI dos Bingos, aquela comissão de inquérito que alguns jornais chamam de ‘fim do mundo’, porque tudo nela cabe e tudo pode acontecer.

O que vale registrar é que as duas depoentes apresentaram posições e opiniões diametralmente opostas sobre os motivos que cercaram as mortes dos seus companheiros.

‘Roseana Garcia, viúva do prefeito assassinado de Campinas, Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT, reafirmou ontem na CPI dos Bingos ter a convicção de que Toninho foi vítima de crime encomendado’, informa O Estado de S.Paulo na abertura da principal matéria sobre o assunto. O Correio Braziliense vai mais fundo: ‘A viúva sustentou que o ex-marido foi assassinado por ferir interesses de ‘gente graúda’, incluindo os de figuras importantes na história do PT, como o ex-prefeito do município Jacó Bittar, que saiu do partido em 1990’. A Gazeta Mercantil reproduz uma frase de Roseana que compromete: ‘Ele denunciou um contrato do lixo, com superfaturamento de 30%. Depois da morte dele, a redução foi para o ralo’. O Jornal do Brasil acrescenta: ‘Além de defender a tese de que a morte de seu marido teve motivação política, Roseana Garcia acredita haver um elo entre as mortes dos prefeitos de Campinas e Santo André’. O Globo e Valor Econômico vão na linha dos demais. O comum em todas as reportagens é a reclamação de Roseana Garcia de que, apesar de todas as promessas, o PT inicialmente, e o governo federal após a posse de Lula, não se empenharam na solução do crime.

A outra depoente, Ivone Santana, ex-namorada de Celso Daniel, vai na direção contrária de Roseana, segundo O Estado de S.Paulo. O jornal reproduz que ela diz ‘ter certeza de que ele [Celso Daniel] foi vítima de um crime comum’. O Valor Econômico vai além e reporta que ‘Ivone procurou desmontar diversos indícios considerados fundamentais pelo Ministério Público para classificar a morte de Celso Daniel como política’. Todos os jornais trazem que ela procurou mostrar que os irmãos do ex-prefeito, João Francisco e Bruno Daniel, eram distantes tanto de Celso Daniel quanto dos assuntos da prefeitura. Ivone ‘criticou a ‘insistência’ dos irmãos do ex-prefeito em relacionar o crime a um esquema de corrupção instalado na cidade. Eles já compareceram na mesma CPI dos Bingos – a última delas em acareação com o chefe de Gabinete do presidente da República, Gilberto Carvalho. João Francisco diz que ouviu do próprio Carvalho a história do esquema de corrupção em Santo André. O assessor direto do presidente negou com veemência.

Além de pertencerem ao PT, as duas vítimas ainda trazem outro ponto em comum: a morte de envolvidos ou testemunhas dos assassinatos. Sete pessoas relacionadas com o caso Celso Daniel morreram assassinadas ou atropeladas. Quanto ao assassinato de Toninho do PT, pelo menos dois dos suspeitos do crime foram chacinados em Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo. ‘Segundo Roseana, a Polícia Civil de Campinas, em operação ‘ilegal’, foi até a cidade do litoral paulista e executou os rapazes’, reproduz o Valor Econômico. Outra coincidência nas palavras de Roseana: Carlos Delmonte, o médico-legista encontrado morto em situação ainda não esclarecida, em 12 de outubro passado, assinou os laudos de Celso Daniel e dos executados no litoral.

Talvez a solução definitiva de ambos os crimes nunca aconteça. Não será incomum. As estatísticas mais recentes, trazidas a público por causa do referendo do desarmamento, apontam que apenas 5% dos homicídios cometidos em São Paulo são esclarecidos. No Rio de Janeiro, esse percentual cai para 1%.

Enfim, nos dois casos, por enquanto, sobram perguntas de difíceis ou de nenhuma resposta.
Por que o PT acredita mais na versão da Polícia Civil de São Paulo e da Polícia Federal, cujos inquéritos concluíram que se tratou de crime comum, apesar das dúvidas levantadas por parentes de ambas as vítimas?

Por que o Ministério Público do Estado de São Paulo, no caso do assassinato de Celso Daniel, também não aceita as conclusões apresentadas tanto pela polícia que responde ao governo do estado de São Paulo quanto a que responde ao governo federal?

O PT, enquanto foi partido de oposição, sempre questionou o governo, fosse estadual ou federal. Por que agora não dá ouvidos às dúvidas e suspeitas apresentadas pelos parentes das vítimas? É, no mínimo, curioso não ver o PT empenhado em encontrar outras respostas. Até porque, como disse o presidente Lula em sua entrevista ao programa Roda Viva na última segunda-feira, 7/11, ‘O Celso era meu irmão. Era o mais competente administrador público em se tratando de prefeitura deste país. Toda vez que vai chegando o ano eleitoral, esse caso volta à tona’.

E como 2006 é um ano eleitoral seria lógico supor que o PT gostaria de ver estes dois cadáveres enterrados para, pelo menos, afastar a polícia da discussão política. Diante do silêncio do partido, tudo indica que os cadáveres de Celso Daniel e Toninho do PT continuarão assombrando leitores e eleitores nos próximos meses.

*Walter Alves é editor da DeFato Informação & Jornalismo

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/11/2005 p de lacerda

    Fica bem claro diante de fatos obscuros e contraditorios das duas viuvas de tais ex-prefeitos do PT,em seus depoismentos publicos a CPI em curso..
    Que existem mais misterios entre o ceu a terra de que possa supor nossa va filosofia; parafraseando o celebre dramaturgo britanico Shakespeare..
    Em tais intrigados casos, e acima das paixoes politicas e partidarias, bastando para tal vontade de real senso de Justica, e estes mesmos fatos,devem ser melhor esclarecidos para ao menos dar-mos real e final descanso a tais cadaveres insepultos do PT.

  2. Comentou em 12/11/2005 jorge oliveira

     Esta CPI dos dos bingos é coisa do outro mundo mesmo,francamente não da para acreditar que estes senhores querem apurar ou provar coisa alguma, até porque salve me engano ela foi criada para  investigar doações dos  bingos para a campanha do Lula, chamar dono de bingo para prestar depoimento nada. Chego ter a convicção que boa parte dos membros da CPI dos bingos não passam de politiqueiros,enganadores da inocência daqueles que acreditam neles. Para não alongar a conversa eu gostaria de terminar enviando matéria relacionda ao senhor Arthur Virgílio: MIL FACES DE UM TUCANO
     Que tal relembrar o dia em que o enfático senador Arthur Virgílio assumiu ter feito caixa 2 na campanha eleitoral de 1986?
    Por Maurício Dias
     O senador Arthur Virgílio, líder do PSDB, tem se destacado nos últimos meses como um dos mais implacáveis adversários do governo do PT e, pessoalmente, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, por sinal, tem recebido dele insultos verbais e ameaças físicas, desferidas da tribuna do Senado brasileiro.
     Virgílio, viripotente, soma à valentia de carateca praticante um discurso em defesa da ética absoluta no exercício da política. Tem dito com ênfase, por exemplo, que não admite o uso de “dinheiro não contabilizado” em campanhas eleitorais. Por isso, acusa Lula de promover um “escandaloso esquema de corrupção no País”.
    Rigoroso e inarredável na suposta defesa dos melhores princípios, ele assinou, há poucas semanas, a nota oficial do bloco PFL/PSDB, na qual Lula é acusado ter justificado “gravíssimo crime eleitoral” e de ter criado uma “cínica versão” – a do caixa 2 – para o dinheiro esparramado por Marcos Valério nas campanhas eleitorais do Partido dos Trabalhadores e aliados nas eleições de 2002 e 2004.
     A nota tucano-pefelista referia-se à entrevista que Lula deu, em Paris, quando sustentou que “o PT fez, do ponto de vista eleitoral, o que é feito no Brasil sistematicamente” e provocou uma chuva cínica de relâmpagos e trovoadas.
     Não se sabe se a valentia do senador Arthur Virgílio já foi posta à prova por algum outro valentão. Mas o rigor ético que ele enverga agora não fica de pé um segundo diante das declarações que ele deu ao Jornal do Brasil. Publicadas na página 9, da edição do dia 19 de novembro de 2000, elas nocauteiam a ética que o senador ostenta agora.
     “Em 1986, fui obrigado a fazer caixa 2 na campanha para o governo do Amazonas. As empresas que fizeram doação não declararam as doações com medo de perseguição política”, disse ele, em matéria assinada por Valdeci Rodrigues. O repórter anotou, após essa afirmação, que o então deputado “ficou tranqüilo porque esse crime eleitoral que cometeu já está prescrito”.
     A reportagem, que tem o título de “Ilegalidade é freqüente”, trata da denúncia de que houve doações de mais de R$ 10 milhões à campanha de reeleição de Fernando Henrique Cardoso que não foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral.
     “Vamos acabar com mocinhos pré-fabricados e bandidos pré-concebidos. Neste país, o caixa 1 é improvável. A maioria das campanhas tem caixa 2”, declarou Virgílio, em 2000, como se fosse o inspirador do que Lula diria cinco anos depois.
     Quando se trata da existência de caixa 2 nas campanhas eleitorais no Brasil, parece que o filme a que se assiste é um velho clássico reprisado de quatro em quatro anos.
     As declarações de Virgílio sugeriram o seguinte comentário do procurador da República Guilherme Schelb, também publicadas pelo Jornal do Brasil: “Quando buscam a defesa atacando os outros, estão reconhecendo que também adotam a mesma prática”.
     Deve-se, no entanto, elogiar a coerência de Arthur Virgílio. Ele é sempre enfático. Tanto agora, como senador, quando critica a existência de caixa 2, quanto em 2000, como deputado, quando defendia a existência dela. Não será, no entanto, por ter usado caixa 2 (na era pré-delubiana) que se pode acusar o tucano de ser um corrupto. O político que não concordar com isso que atire a primeira pedra.

  3. Comentou em 11/11/2005 Alex Silva

    Fico espantado ao ler os comentários sobre essa matéria ao constatar em como existe gente que gosta de se passar por idiota.

    Ou será mero fanatismo de macaquitos adestrados na doutrina socialista, que se recusam a enxergar o que está bem na frente do nariz? Tudo para esse tipo de gente vira ‘conspiração das elites’, artimanhas da oposição, etc.

    No caso Celso Daniel mataram até o garçom que o serviu no Rubayat. A baranga que namorava o então prefeito de S. André foi orientada por gente do PT a fazer cara de ‘viúva pesarosa’. É muita cara-de-pau reclamar do PSDB e do PFL diante desses fatos (e de muitos outros também). Os dois partidos estão corretíssimos em querer arrancar o couro desse tipo de canalha que dizia (e ainda diz) com o peito estufado e o queixo erguido ser melhor que Deus e o mundo.

  4. Comentou em 09/11/2005 Bárbara Valladares

    É preciso que haja uma oposição séria, disposta a investigar e cobrar ações diante de tantas discordâncias sobre as mortes q ocorreram no estado de São Paulo.Estudante de Jornalismo-4 PERÍODO

  5. Comentou em 09/11/2005 Bruno Corrêa Leite

    Os cadáveres insepultos do PT não conseguem o seu descanso eterno pois imprensa e oposição vivem tentando ressucitá-los de qualquer maneira para que possam testemunhar contra o governo Lula.

  6. Comentou em 09/11/2005 Rinaldo Valença

    Vítimas de sequestros não são torturadas?
    Os irmãos de Celso Daniel realmente estariam interessados em ilucidar o caso?
    Não seria interessante se a policia federal e civil, ambas pertencentes ao governo tucano na época dos crimes em usar como forma de prejudicar a campanha lula na eleição presidencial?,então porque não usou?
    Porque tudo que prejudique o governo Lula é verossímel?
    Como acreditar que certos promotores públicos não hajem de forma política?
    Porque tanta insistência em irrelevar o laudo das polícias?
    Estão mesmo interessados em justiça?

  7. Comentou em 09/11/2005 Jedeão Carneiro

    Como o PT vai sepultar se o PSDB e o PFL não soltam as alças do caixão?

  8. Comentou em 09/11/2005 Vera Candido

    Não fosse eu ligar hoje de manhã no canal 8 do Senado não saberia das informações que o Jamil Haddad, que é médico de profissão, esteve no Instituto Médico Legal e assistiu à necrópsia do corpo do prefeito, afirmou, com o apoio de fotos que msotrou ao presidente e relator da CPI dos Bingos, que o o prefeito tinha dois hematomas nas costas, com marcas semelhantes ao cano das armas, portanto, tinha dois edemas e uma expressão espantada, mais nada. Esses edemas viraram queimaduras e assim viraram torturas atrozes e uma expressão de terror. Como é que se inventam ‘fatos verdadeiros’ nesse país!

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