Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Os jornalistas e a distorção informativa em campanhas eleitorais

Por Carlos Castilho em 13/08/2012 | comentários

As campanhas eleitorais, em qualquer parte do mundo, são uma ocasião onde enviesar dados, fatos e informações sobre adversários políticos torna-se uma atividade tão importante para os candidatos quanto fazer promessas aos eleitores. É também a época  em que os princípios do jornalismo são submetidos a periódicas provas de fogo, das quais geralmente a profissão sai bastante chamuscada.

Todo político trata sempre de torcer os fatos e as informações a seu favor, criando um beco sem saída para o jornalista: ou ele apenas registra a informação enviesada, o que é tomado pelo leitor como uma certificação de veracidade; ou revela a distorção e fica sob suspeita de tentar beneficiar o candidato contra o qual foi produzida a informação descontextualizada.

A produção de informações enviesadas é hoje muito mais comum do que se imagina. O professor de jornalismo da Universidade de Nova York Jay Rosen chegou ao extremo de anunciar que todas as notícias são mais ou menos distorcidas, intencionalmente ou não. É difícil provar esta afirmação, mas em campanhas eleitorais o fenômeno da desinformação é percebido com bastante clareza porque faz parte da caixa de ferramentas publicitárias dos candidatos.

Os políticos contratam jornalistas por salários obscenos para dirigir a comunicação em suas campanhas com um duplo objetivo: explorar seu acesso fácil às redações, visando ganhar espaços na cobertura diária, e usar sua experiência em lidar com vieses da informação para desenvolver a estratégia de comunicação eleitoral do candidato. Este é um problema sazonal, tanto que muitos profissionais não assumem mais funções na imprensa durante períodos eleitorais, principalmente os que já trabalharam em campanhas anteriores.

Se há um problema ético, não resolvido, para quem assessora candidatos, do “outro lado do balcão”, nas redações, há o dilema do que fazer num contexto em que cada político torce a realidade a seu favor. A internet permitiu o surgimento de projetos independentes de verificação de informações, como as páginas de fact checking, nos Estados Unidos, como o respeitado PolitiFact.  No Brasil ainda não temos coisa parecida, mas é apenas uma questão de tempo o surgimento de patrulheiros eleitorais.

Mas essas iniciativas enfrentam dois obstáculos gigantescos: o alto custo, em tempo e dinheiro, para checar informações de candidatos; e a credibilidade pública, porque os projetos de checagem ainda são muito novos e não tiveram tempo para ganhar a confiança dos eleitores.

A solução estaria num posicionamento das empresas jornalísticas. Elas poderiam usar o que ainda lhes resta de credibilidade e os recursos técnico-financeiros de que dispõem para investir em iniciativas de fact checking eleitoral, o que daria aos seus jornalistas a garantia necessária para identificar o viés da maioria das noticias produzidas pelas equipes de comunicação dos candidatos. O público seria o principal beneficiado e inevitavelmente responderia consumindo mais produtos jornalísticos.

A maioria dos grandes conglomerados da indústria da comunicação já criou alguns projetos de verificação de informações, mas eles se tornaram defasados e pouco eficientes diante da maciça adesão dos candidatos à estratégia da distorção informativa. Além do mais, quase todas as empresas têm vínculos políticos públicos ou velados com candidatos ou partidos. Outras têm compromissos publicitários com empresas envolvidas no caixa dois das campanhas eleitorais. O resultado é que sua adesão ao fact checking é mais episódica do que uma questão de principio.  

Daí ser fácil concluir que o jornalista que leva a atividade a sério e acredita na ética profissional terá muitos motivos para insônia durante campanhas eleitorais — enquanto o público é obrigado a se conformar com a condição de órfão informativo.

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