Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Os ‘mensageiros’ de Lula, e o leitor no escuro

Por Luiz Weis em 09/02/2006 | comentários

O Estado publica hoje uma notícia no mínimo interessante:


O presidente Lula, “momentos antes de viajar para a África’, teria pedido a dois “interlocutores petistas, com livre acesso aos caciques do tucanato, que levassem ao ex-presidente Fernando Henrique uma mensagem de paz’.


Começa que, a julgar pela própria matéria, assinada por Expedito Filho, se trataria antes de uma sondagem do que uma mensagem.


“Lula se disse impressionado com o nível de agressividade de FHC e procurou saber dos petistas o que teria acontecido para despertar a ira do líder tucano”, diz o texto. “Vocês, que são amigos de Fernando Henrique, deveriam conversar com ele para saber o que está acontecendo.”


Diante de uma notícia como essa, a primeira reação do leitor decerto será se perguntar quem seriam os mensageiros “com livre acesso aos caciques do tucanato”, ou, na versão atribuída a Lula, “amigos” do ex-presidente.


Mas a sua pergunta ficará sem resposta. Ruim para ele, que fica no escuro, pior para a credibilidade do jornal.


Mesmo supondo que o(s) informante(s) do repórter seja(m) o(s) próprio(s) incumbido(s) de sondar a alma fernandina, o que impediria o repórter de citar o(s) seu(s) nome(s), ainda assim a matéria ficou em dívida com o leitor.


Já é mais do que tempo de os jornalistas terem pelos que os lêem a elementar consideração de informar, em casos do gênero, por que não podem dar os nomes aos bois.


Quando um repórter assume compromisso de não identificar a fonte das suas informações, isso deveria ficar explícito no texto.


Depois do escândalo do seu cascateiro repórter Jayson Blair, o New York Times adotou nessas circunstâncias a prática de dizer por que a sua fonte “em off”, como se diz por aqui, não aceita aparecer “em on”. Com o máximo possível de palavras.


E mais: o repórter deve ao menos situar o informante anônimo para o leitor ter algum elemento que lhe permita julgar a veracidade da história além da palavra do jornalista.


“Interlocutores petistas”, por exemplo, não bastaria no NYT. Quem editasse a matéria ali cobraria do seu autor que os qualificasse: são ministros? Senadores? Deputados? Dirigentes partidários?


Não precisa trair a fonte. Mas não pode brincar de esconde-esconde com o leitor.


Ninguém compra jornal para ter que deduzir, a partir da informação de que o alegado pedido de Lula teria sido feito na Base Aérea de Brasília – “momentos antes de viajar para a África” – quais das autoridades e/ou dos políticos que ali estavam para se despedir do presidente, como manda o protocolo, os escolhidos para a missão exploratória junto ao ninho tucano.


Dito isto, o meu palpite, com base no retrospecto, é que os supostos mensageiros seriam o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, e o da Fazenda, Antonio Palocci. Com o ministro da coordenação política, Jaques Wagner, correndo por fora.


Mudando de assunto:


Do colunista Carlos Heitor Cony, na Folha de hoje:


“Leio cartas de leitores a mim endereçadas e a outros cronistas da praça com reclamações muitas vezes truculentas, acusando-nos de lulistas ou de fernandistas, de acordo com críticas que fazemos e até mesmo quando deixamos de fazê-las.


Clóvis Rossi e eu, para dar dois exemplos, somos alternadamente acusados em e-mails de defender os interesses de Lula ou de FHC. Se criticamos o atual presidente, somos considerados viúvas do segundo.


Tenhamos paciência. A lógica de Aristóteles, que não canso de citar, garante que a afirmação de uma coisa não é a negação de outra. Se baixamos a lenha em Lula, não quer dizer que cubramos FHC com louros.


Durante os oito desgraçados anos de FHC, fui acusado de lulista fanático e, embora tenha simpatias por ele, pessoalmente, sempre desprezei o PT, e por vários motivos. Quanto a FHC, cheguei a receber apelos de amigos muito caros e isentos para poupá-lo de minhas críticas.


Atribuir a jornais e a cronistas a torcida por tal ou tal candidato é, na melhor das hipóteses, ou má-fé, ou a humana e desculpável idiotice.”


***

Serão desconsideradas as mensagens ofensivas, anônimas e aquelas cujos autores não possam ser contatados por terem fornecido e-mails falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/02/2006 josé r picheli

    Ao Fábio. Estou contigo e não abro. PT e PSDB e quejandos,habitam ninhos iguais com endereços diferentes.Voto nulo, e como diz o ‘caipira’ ‘de fio a pavio’. La nave vá.

  2. Comentou em 10/02/2006 JOSE ferreira

    Heitor Cony não tem autoridade moral para criticar nem Lula nem FHC pois é um aproveitador de recursos de um pais de miseráveis. Sua pensão vitalicia e sua indenização é uma afronta a qualquer cidadão decente desse pais.

  3. Comentou em 09/02/2006 Pedro Tardelli

    Não dá prá acreditar! É uma esculhambação uma notícia ridícula desta. NOME AOS BOIS, IMPRENSA BRASILEIRA!!! Está cansando a beleza dos brasileirinhos!

  4. Comentou em 09/02/2006 Bruno Silveira

    O Cony está coberto de razão, reconheçamos. Tenho um amigo petista (ninguém é perfeito) que reclama do Cony (e olha que ele bate pouco no governo/PT). Então, lembro a esse meu amigo dos oito anos em que TODOS OS DIAS o Cony surrava o FHC. Era até engraçado, parecia que ele tinha algo pessoal contra o Fernando Henrique. Eu não perdia uma coluna dele, só pra dar risada. Agora, chama-lo de tucano é constrangedor. Não dá.

  5. Comentou em 09/02/2006 Francisco Chicão Somavilla

    É muito fácil exercer a profissão de ´JORNALISTAZINHO´,pois é só escrever o que bem quiser,sem compromisso com a verdade,sem compromisso com as pessoas,apenas com o ‘compromisso’ de receber a graninha ao final do mês para tomar umas geladas e comprar ração para o gato ou o cachorrinho.O difícil é ser JORNALISTA de verdade,investigar,escrever com seriedade e com o propósito de informar e esclarecer mentes.Pena que sejam tão escassos estes últimos.

  6. Comentou em 09/02/2006 Paulo de Tarso Neves Junior

    Luiz Weis, realmente é irritante receber notícia pela metade. Várias vezes eu percebi esse estilo na coluna de Carlos Brickman no OI. Ele volta e meia usa ‘um executivo de uma empresa’ ou ‘um jornalista de uma revista’. Se é para relatar um fato conta a história inteira, o que não pode é deixar o leitor com dúvidas ou padecendo na curiosidade.
    Pelo menos no meio científico se não há fontes declaradas você tem que provar, caso contrário a informação não vale nada.

  7. Comentou em 09/02/2006 Nelson Perez

    Má fé é tão forte quanto idiotice. Nenhuma resposta anterior é uma opção válida. Estamos falando da imprensa em geral….logo…

  8. Comentou em 09/02/2006 José Carlos dos Santos

    Fui idiota durante bom tempo, enquanto assinante da folha, mas percebi que aquele papo de não ter rabo preso com ninguém é só isso, papo, pois todos nós temos idéias e posicionamentos políticos e que o mal é não assumir isso. Cony é que deve abrir os olhos e procurar aprender com a correspondência que recebe, e tomar talvez algumas doses de humildade pois ninguém é tão autosuficiente que não precise dos outros, aliás que seria dos jornalistas e escritores se não fossem os leitores esses ‘idiotas’ que os sustentam.
    Em tempo pergunte ao seu colega Mauro Malin porque meus posts de hoje não foram publicados, já que não continham termos ofensivos.

  9. Comentou em 09/02/2006 Joao Carlos

    FHC tem todo o direito de declarar o que bem quiser a Lula e seus aliados, estes fizeram isso por 8 anos não vejo porque agora não fosse possível fazê-lo. É típico das esquerdas que gostam de se degladiar – tá faltando liberal neste país, 12 anos de esquerda no poder já foi demais.
    Já Cony lembra-nos um vovô que dá sua opinião e que não vai mudar em nada a nossa ou de qualquer outra pessoa, superficial e não raro equivocado. Creio que não valeu ao Brasil os R$ 1,5 milhão que lhe foram pagos após anistia política.

  10. Comentou em 09/02/2006 Fabio de Oliveira Ribeiro

    A informação sobre o tratado de paz entre os caciques Lula e o FHC for verdadeira, gostaria de registrar meus PROTESTOS. Como fundador do Partido do Voto Nulo, tinha a esperança de que o tiro-teio verbal entre Lula e FHC evoluisse até se tornar uma guerra de socos, tapas e pontapés entre tucanos e petistas. Um conflito aberto entre estes dois grupos de direita travestidos de esquerda seria útil à causa do VOTO NULO. Caso ocorresse poderiamos, por exemplo, centrar nossas baterias no governo da Garotinha para atingir o Marotinho.

  11. Comentou em 09/02/2006 Patty Ferreira

    É realmente faltou um pouco de ética e profissionalismo na primeira reportagem. A entrevista ficou bem obscura, o leitor desatento deve ter ficado ‘boiando’, principalmente com o duplo sentido das palavras do presidente Lula.
    http://www.kitblog.net/pensar

  12. Comentou em 09/02/2006 Miguel do Rosário

    Há tempos que não gosto mais do Cony. Escreve abobrinhas, não diz coisa com coisa. Nesse artigo dele, ele se ajoelha sob o chicote da ‘opinião pública’ à qual ele mesmo critica como autoritária, arbitrária e injusta. Ao dizer que ‘despreza’ o PT, ao mesmo tempo simpatiza com Lula, ele demonstra um preconceito anti-democrático intolerável, ao falar do maior partido do Congresso Nacional e do partido do presidente da República com quem ele diz simpatizar. Fica claro que foi apenas uma tentativa de ‘parecer’ isento. Mas foi infeliz. Muito feliz. Isenção não consegue com ataques arbitrários, nem se submetendo covardemente ao jugo de segmentos reacionários da opinião pública.

  13. Comentou em 09/02/2006 Ana Trigo

    Weis, tá difícil mesmo saber quem é mensageiro do Lula ou seu amigo dentro do governo. Que declaração é essa do Furlan: ‘Lula não bebe há 40 dias’? Parece que o presidente está no AA. O Furlan, mais uma vez, perdeu uma excelente oportunidade de ficar calado! Assim fica fácil culpar a imprensa por tudo de ruim que é publicado sobre o governo Lula. Mas com uns companheiros assim…

  14. Comentou em 09/02/2006 Eduardo Guimarães

    Cony tem a cara-de-pau de dizer que a imprensa é isenta. Depois essa mesma imprensa não entende porque a popularidade de Lula não se abala e até cresce. Aliás, dizem que houve abalo, mas não houve. Como na Venezuela, pesquisas foram falsificadas. Durante anos a fio diziam que Chávez era odiado e que se houvesse nova eleição seria defenestrado. Quando chegou a eleição deu no que deu. Com Evo Morales, na Bolívia, aconteceu a mesma coisa. Desrespeito com leitor é a Folha e o resto da imprensa dissimularem a preferência pelos tucanos ao mesmo tempo em que tal preferência salta aos olhos. Veja que na edição da Folha de hoje, dia da coluna de Cony que Weis menciona, ao contrário do que acontece com o PT, a denúncia contra o PSDB merece uma página inteira tentando desqualificá-la. E, além disso, a Folha e o resto da imprensa omitem o laudo do perito Ricardo Molina que diz que não é possível desqualificá-la. A população vai percebendo. Como o próprio Weis disse, a internet vem sendo um poderoso instrumento para driblar a censura da mídia a seus críticos. E cada vez mais difunde-se a percepção de que a imprensa manipula a crise política em favor do PSDB. Vejam só que agora voltou ao noticiário o ‘alcoolismo’ de Lula. Idiotas. O Brasil vai lhes dar a resposta em outubro.

  15. Comentou em 09/02/2006 Vladimir Nunes de Oliveira

    Cony chamou a vários de nós de idiotas. Humanos, mas idiotas. Ele nos desculpa pela idiotice, mas somos idiotas. Obrigado Weis e obrigado Cony por abrirem nossos olhos idiotas para essa realidade que, de tão clara, somente os idiotas -ou os de má fé-não percebem: a mídia é isenta! A mídia é magnânima! A mídia é perfeita! Não há na linha editorial de Veja, por exemplo, nenhum tipo de tendência anti-petista. Da mesma forma, Carta Capital trata os tucanos igualzinho aos petistas. Francamente, essa tendência à megalomania que assola a maior parte dos jornalistas é de estarrecer.

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