Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Os novos porteiros da notícia

Por Carlos Castilho em 09/10/2011 | comentários

Depois de muita gente, inclusive eu, anunciar o fim da função jornalística chamada pelos norte-americanos de gatekeeper (em português, porteiro), tornam-se cada vez mais fortes os indícios de que o cargo simplesmente trocou de dono. Deixou de ser parte da hierarquia jornalística para transformar-se numa atividade exercida por programas eletrônicos que movem sites como a rede social Facebook e o site de buscas Google.

A personalização e a customização, duas outras expressões obrigatórias na nova ecologia informativa criada pela internet, também estão perdendo o glamour dos primeiros tempos da web, quando a grande preocupação era criar conteúdos capazes de ocupar nichos informativos e preferências individuais dos internautas.

Nicholas Negroponte, um dos primeiros gurus da internet, chegou a cunhar a expressão Daily Me (Meu Jornal) para designar um jornalismo sob medida para cada leitor. A página noticiosa automática Google News tem uma opção de personalização do noticiário segundo as preferências do usuário e o seu histórico de buscas na internet.

Os porteiros e a personalização voltaram à agenda dos internautas como uma consequência do amadurecimento gradual da internet. Os especialistas começam a ter visões diferentes de fatos e processos que inicialmente sinalizavam algumas tendências, mas que agora apontam noutras direções.

Facebook e Google, partindo da preocupação em oferecer produtos informativos cada vez mais próximos da vontade do usuário, acabaram gerando o que o norte-americano Eli Pariser rotulou de bolha de filtros (filter bubbles). Quanto mais um usuário receber informação personalizada mais ele poderá se distanciar da realidade, passando a viver dentro de uma redoma informativa gerada a partir de suas preferências e necessidades pessoais.

O que começa a se esboçar é uma consequência paradoxal da avalancha informativa que nos obriga a pensar sobre uma série de conceitos e práticas até agora considerados definitivos. A busca da personalização tem uma enorme vantagem ao procurar filtrar a massa de informações liberada pela internet para tornar menos caótica e incerta a nossa navegação na web. Sem os mecanismos de busca na internet, a massa de dados disponível na web se tornaria lixo informativo porque não seria possível descobrir a sua relevância e utilidade.

Mas, em compensação, a filtragem pasteuriza a informação ao fazer uma seleção conforme nossas preferências, ou ditada por quem acha que sabe o que queremos, como os algoritmos do Facebook e do Orkut. O Google, por exemplo, já faz buscas personalizadas de acordo com o nosso perfil de navegação, registrado por pequenos robôs chamados cookies.

Para você ter uma idéia de como o sistema funciona, basta combinar com um amigo fazer uma busca no Google com as mesmas palavras-chaves. É quase certo que os resultados serão diferentes. porque eles passaram por filtros destinados a personalizar a lista de endereços encontrados. Redes sociais como Facebook e Linkedin indicam possíveis amigos em função de perfis pessoais, com o objetivo de formar comunidades padronizadas em função de hábitos, cultura, orientação política, sexual etc.

Só que a filtragem e a padronização  eliminam o que é diferente e a diversidade. Isto é ruim porque a diversidade é essencial para a produção de novos conhecimentos e para a inovação.  A uniformidade gera comodidade e com ela a inércia. Por outro lado, segundo o pesquisador norte- americano Cass Sunstein, a ausência de opiniões diferentes tende a incentivar a radicalização de posições, porque as opiniões acabam por reforçar umas às outras. A divergência é mais instável, por isso estimula a exploração e a busca de soluções e a criatividade.

A contradição entre filtragem e avalancha, entre personalização e diversificação, expressa bem a realidade complexa na qual passamos a viver, especialmente dentro do ambiente digital. Não há mais verdades definitivas e situações tipo certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto.  Por isso é que a chamada web semântica passa a ser tão importante. Ela será uma ajuda fundamental no esforço para evitar que acabemos espremidos entre a desorientação gerada pela avalancha informativa e a pasteurização noticiosa.

Mas enquanto a web semântica não se generalizar, a única solução é manter bem aguçada a nossa capacidade de leitura crítica da realidade que nos cerca.

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