Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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Os paradoxos de uma nova forma de produzir informação

Por Carlos Castilho em 13/04/2009 | comentários

Publicar primeiro, corrigir depois. Para muita gente uma afirmação como esta ainda soa como um anátema. É quase uma afronta aos princípios do jornalismo convencional e um absurdo lógico. Mas é justamente isto que está acontecendo na chamada blogosfera, o espaço onde circulam as informações produzidas por aproximadamente 180 milhões de weblogs, em todo o mundo.


 


O jornalismo convencional tem escorregado várias vezes para a regra do publicar primeiro, corrigir depois, como acontece na maior parte dos escândalos de corrupção originados em Brasília, durante o governo Lula. Mas enquanto neste último caso trata-se de um desvio de conduta, o que está acontecendo na internet é uma espécie de antevisão de um novo modo de produzir informação.


 


Publicar primeiro e filtrar depois é um processo derivado do uso crescente do sistema de código aberto, por meio do qual produtos e serviços com base no conhecimento são gerados a partir das contribuições de milhares de pessoas, 90% das quais não têm conhecimento técnico sobre o tema em questão.


 


O grande argumento contra este sistema de produção de conhecimentos e informações é o de que ele implica uma altíssima taxa de erro ou de irrelevância. A lei de Sturgeon Ted Sturgeonsegundo a qual só 10% do que se pública sobre um determinado assunto na Web  pode ser considerado relevante, é um corolário do Princípio de Pareto[1], aplicado à internet.


 


Na economia física, o alto custo de produção determina que qualquer projeto só pode ser iniciado depois da eliminação do máximo possível de dúvidas e incertezas, porque o preço material e humano do fracasso é muito alto. Esta é a regra básica na indústria de jornais na hora de decidir que temas cobrir e como.


 


Os jornalistas, em tese, deveriam certificar-se de que todas as informações publicadas são verdadeiras e confiáveis, porque o preço de imprimir uma inverdade é alto não apenas em termos de perda de credibilidade como também no desperdício de recursos como papel, por exemplo.


 


Acontece que a internet reduziu a quase zero o custo com a produção de bens e serviços baseados na informação e no conhecimento. A distribuição de uma notícia na Web custa tanto quanto pressionar a tecla enter, no computador. Você pode mandar uma mensagem de correio eletrônico ou um milhão de mensagens com o mesmo dispêndio de energia.


 


O desenvolvimento de um software pode ser feito com custos mínimos porque o trabalho é feito pelo sistema da colaboração voluntária, que elimina os custos de contratação de pessoal e gastos sociais. O produto final não tem dono e todos podem usá-lo, sem pagar nada, o que contribui para um efeito dominó na redução geral dos custos necessários para iniciativas na Web.


 


O sistema de código aberto transformou as pessoas de empregados em free lancers gratuitos. De assalariados em colaboradores voluntários, como provam os exemplos do sistema operacional Linux e da enciclopédia virtual Wikipédia, para citar apenas os casos mais famosos.


 


O modelo código aberto não acaba com os erros, mas praticamente elimina o custo de um insucesso. Isto significa que a experimentação, a tentativa, a aventura e a exploração no terreno virtual deixaram de ter uma pesada punição, na forma de prejuízo financeiro.


 


Milhares de iniciativas que foram descartadas pelo temor de perdas financeiras, num sistema de código aberto poderiam ser levadas adiante num ambiente virtual porque o preço do fracasso seria quase desprezível.  Isto equivale a um dos mais poderosos incentivos à criatividade humana já surgidos em nossa sociedade.


 


Parece um paradoxo, mas na Web já é mais barato tentar para ver no que dá, do que tomar uma decisão destinada a eliminar o máximo possível de incertezas. É este baixo custo que está mudando as regras na produção de conhecimentos e que ajuda a entender porque os 90% de fracassos previstos na lei de Sturgeon não são necessariamente uma coisa ruim. 


 


Como publicar notícias tem um custo material quase nulo num blog, a multiplicação de informações que chegam à uma redação jornalística passou a superar a capacidade de filtragem dos repórteres e redatores. A antiga norma da filtragem a priori tornou-se antieconômica e a única solução passou a ser a seleção a posteriori.


 


Por enquanto este processo ainda é anárquico e pouco confiável, mas na medida em que o tempo passar e que os pouco mais de 1 bilhão de internautas ganharem um pouco mais de experiência, eles serão o grande filtro da informação. Já existem dezenas de experiências parciais de produção colaborativa de notícias  na Web. Não vai demorar muito para que o sistema do publicar primeiro e filtrar depois deixará de ser algo demonizado.


 






[1] O Princípio de Pareto estabelece que 20% da clientela é responsável por 80% do faturamento de uma loja. A regra criada pelo economista italiano Vilfredo Pareto  também é conhecida como proporção 80/20 e é aplicada em várias áreas fora da economia.

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/04/2009 Thiago Vieira

    Sim, sim! Concordo muito com você, Castilho. Eu sei como os erros, nossos e dos outros, podem contribuir para a evolução dos sistemas e processos. Antes de estudar Jornalismo cursava Física, e os erros no laboratório só nos faziam expandir nosso conhecimento sobre o experimento. Acho sim que não dei o enfase devido ao aspecto da responsabilidade dos autores. Mas muito obrigado pelas correções. Ainda é um pouco difícil pra mim passar da Mente do Físico para a Mente do Jornalista.

  2. Comentou em 19/04/2009 Thiago Vieira

    Isso tem mais a ver com a Cultura do Beta, onde nada é lançado acabado, mas passando por um constante processo de aperfeiçoamento. Aquela etiqueta de ‘Beta’ nunca vai sair do Orkut porque é mais fácil, barato e eficiente fazer pequenos ajustes no site que atendam às necessidades imediatas dos usuários do que uma grande atualização, que pode vir cheia de funções obsoletas. A evolução constante dos serviços já não é mais um diferencial competitivo pois agora TODAS as empresas precisam dessa capacidade, atuem na web ou não. Agora, essa estória de que podemos errar muito até atingir o adequado não cai muito bem. Até que este estágio seja atingido muitas reputações estarão manchadas (do lado dos acusados e dos blogueiros) e Flame Wars eclodirão em todos os blogs e Orkuts da vida. Essa é uma etapa inevitável para a maturidade de todos os webwriters, mas falta um pouco de tato dos mesmos para realizar pesquisas mais profundas sobre assuntos que não dominam totalmente. Qualquer que seja a direção pra onde iremos na web, ela deve ser construida com um pouco mais de responsabilidade.

  3. Comentou em 17/04/2009 Remindo Sauim

    Primeiro não existe fato jornalistico, existem duas versões, a da vítima e a do bandido. E os observadores? Bem, cada um dá sua opinião. A versão que vira notícia é a que o jornalista comprou. Na internet não existe notícia, somente as milhares de versões. O leitor que escolha a sua, democraticamente. Quanto aos jornalões, eles que tentem sobreviver puxando o saco de uma direita atrasada, enquanto der éclaro.

  4. Comentou em 16/04/2009 Jean Frederic Pluvinage

    Grande parte da blogosfera pode ser comparada a uma conversa com amigos. Uma fonte de
    notícias informal, carente de apuração e exatidão mas que o leitor tem interesse em acessar pois
    gosta da interação e do próprio clima amigável e anárquico. É a versão virtual do boca a boca.

  5. Comentou em 16/04/2009 mano nuno

    …então, em síntese, se publicar desmente se não eliminar o improvável não tem problema algum um dia se acerta. O certo é que incertezas e mentiras é o normal.

  6. Comentou em 16/04/2009 sylvia moretzsohn

    E assim, a questão da ética fica reduzida a um problema de custos. Mas reconheço que a preocupação com a ética é algo anacrônico, no reino do anonimato. Aliás, da próxima vez também vou inventar outra identidade para mim, embora ainda não tenha a coragem de me transformar num monte de números, como o(a) colega aqui embaixo. Mas qualquer dia chego lá.

  7. Comentou em 16/04/2009 3232323232 0101 1232123

    Derrepente descobre-se utilização não-poluente do petróleo, altamente rentável, porém parte do sistema produtor de combustível desaparece por ser ineficiente – estados declaram guerra a estados por royaldies.

    Google ou Murdoch, vc escolhe o final. Ainda estou em dúvida… o myspace é legal mas do maps ao sketchUp, muito difícil escolher.
    Movimento: Abandone o gugli que há em vc e venha anunciar em nossos cadernos ou, Atenção!olhos fechados, 1 ..2..3… abracadabra!!! Pra onde foi todo mundo?

    Construção e desconstrução de notícias numa blogosfera de fronteiras móveis entre o que é passado e qual o futuro escolhido, tudo premeditado na dimensão da caligrafia.

  8. Comentou em 16/04/2009 Valmir Gôngora

    Bom debate! Momento oportuno para se analisar se há mais bobagens na Internet ou na mídia pertencente às familias.
    De minha parte, preferível o Observatório às revisões históricas, televisas ou impressas.

  9. Comentou em 15/04/2009 Orestes Ianuzzi

    Artigo excelente, ótimo mesmo; é espantoso verificar que ainda existem muitos do ramo do jornalismo convencional que ainda não acordaram quanto a existência da Blogosfera e da própria Internet como veículo revolucionário de comunicação e querem que os milhões de blogueiros deste país frequentem uma faculdade e tenham diploma para o exercício do direito constitucional de informar. Isto também é um absurdo lógico…!

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