Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Os profetas da economia e os fazedores de chuva

Por Luiz Weis em 05/12/2008 | comentários

Na sua coluna de quinta-feira, 4, na Folha, Clóvis Rossi sustenta que a imprensa deve dar uma dura nas fontes a que recorre para previsões econômicas.


Ele propõe que os editores risquem dos seus caderninhos “todo economista/consultoria que errar por mais de 5% suas previsões sobre PIB, câmbio, juros etc.’


Mais importante é a sugestão de que “toda vez que se publicar palpite de economista/consultoria, seria obrigatório mencionar quais interesses estão em jogo, se ele tem ou recomenda aplicações no dólar ou contra o dólar, nos juros altos ou baixos, e assim por diante’.


Na sexta ele volta ao assunto a partir de uma “incrível coincidência”. No dia anterior, informa, o El País, de Madrid, publicou uma lista de profecias econômicas furadas saídas na imprensa.


Exemplo: agora mesmo, em junho – “um ano depois de eclodida a crise das subprimes”, lembra Rossi – só 13% dos conselhos dados por sete gigantes das finanças mundiais (Crédit Suisse, UBS, Citigroup, JP Morgan, Deutsche Bank, Goldman Sachs e BNP Paribas) eram para que os investidores vendessem ações. Treze por cento!


Existem dois problemas aí. Um é o costume da mídia de aceitar pelo valor de face o que os especialistas consultados ou citados dizem que vai acontecer com a economia.


É como se os editores dissessem: “Já que o prognóstico tem nome e sobrenome, e está entre aspas, a responsabilidade é do autor.”

É nada. Porque o mero fato de sair no jornal dá crédito à profecia. Afinal, se a fonte não fosse séria, um jornal sério não lhe daria espaço.


O cuidado de publicar outra profecia, apontando em direção diferente, não elimina a dificuldade. O leitor não é obrigado o conhecer o desempenho passado dos profetas escolhidos – está-se falando de assuntos um tantinho mais complexos do que o provável resultado de uma partida de futebol entre um time de primeira e outro de terceira.


Rossi, a propósito, sugere que o jornal publique periodicamente “a lista completa de palpites dessa turma toda, ao lado dos dados da realidade, para que o leitor possa saber quem chuta bem e quem chuta mal”.


A chutometria, de qualquer forma, tem agora e aqui um peso desproporcional, como diria um economista, ao índice médio de chutes que deram em gol no passado.


É que está na ordem do dia o tamanho, o alcance e a duração da rebordosa econômica da qual, dizem, o Brasil não escapará. A imprensa deposita diariamente na soleira do leitor prognósticos para todos os gostos. E isso cria expectativas e afeta o comportamento dos tais dos agentes econômicos.


”Não há como escapar de uma queda do PIB no quarto trimestre deste ano e, provavelmente, no primeiro de 2009”, prevê na Folha o economista e ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros.


Bom, se assim é, há de raciocinar o leigo, melhor eu não me endividar, porque PIB menor e menos empregos são praticamente a mesma coisa.


Aí se volta àquela questão da profecia que se cumpre por si mesma [ver, neste blog, o artigo “A pauta é o consumidor”, de 26 de novembro].


É disso, por sinal, que vem falando o presidente Lula, com todos os “sifu” a que tem – ou melhor, não tem – direito.


Mas como é fica quando se lê que, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), “o Brasil é a única grande economia que não terá uma forte desaceleração de sua atividade econômica nos próximos seis meses”? Comparada com a da China, Índia e Rússia, a nossa será “leve”, dizem os jogadores de búzios da OCDE.


É o que também acha Gary Cohn, o co-presidente mundial da Goldman Sachs, a megafinanceira que criou a sigla Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) para designar os países que vêm (vinham?) aí a toda. “O Brasil se sairá melhor”, diz ele numa entrevista a Ricardo Grinbaum e Leandro Modé, do Estado.


Mas o que vem ao caso para o que aqui interessa – a qualidade e a isenção das projeções que aparecem o tempo todo nas páginas econômicas dos diários – é o que Mr Cohn diz no começo da entrevista.


E o que ele diz é de lascar. Tem a ver não com o futuro, mas com o passado recente – os “erros” que ele e outros da sua patota cometeram ao prever a evolução do problema do crédito na banca americana (ou, seja, da bolha imobiliária).


Erros?


Vamos nos entender. O meteorologista que diz que vai fazer sol amanhã, e é desmentido pelos aguaceiros que caem do céu no dia seguinte, errou. Ele pode ser incompetente, relapso, ou o que se queira. Mas uma coisa é certa: as suas previsões não fazem o sol sair nem a chuva cair.


Só que o pessoal de Wall Street não se compara a um observador/pesquisador da natureza sem poder para ditar o curso das coisas. A tigrada não tem o direito de posar como analistas que se equivocaram no julgamento dos fatos e foram incapazes de enxergar as nuvens da crise no céu que diziam de brigadeiro.


Eles criaram essas nuvens – e a tempestade que está aí – com as suas ações. A crise é criatura de sua ganância irrefreada, abolidos que foram os controles sem os quais a bacanal financeira não teria chegado onde chegou. Se é de erro que se trata, chama-se desregulamentação da indústria do dinheiro.


Isso é tão gritante que surpreende não ter sido mencionado pelos entrevistadores do banqueiro.


O silêncio, no caso, contribui sem querer para absolver os “senhores do universo” de Wall Street. Afinal, eles “erraram” – e em consequência também eles, como diria o presidente Lula, sifu.


Com isso se volta ao colunista Clovis Rossi. A imprensa não deveria divulgar projeções econômicas sem dar ao leitor uma idéia robusta do retrospecto do projetista nesse departamento, para que se saiba quanto valem os seus palpites, e, principalmente, uma pista dos possíveis interesses embutidos nas suas previsões, para que se avalie quanto crédito merecem.


Sem isso, é como publicar as declarações de um cidadão sobre as chances de chover muito na próxima estação do ano – sem informar ao público que o cavalheiro tem uma fábrica de guarda-chuvas.

Todos os comentários

  1. Comentou em 09/12/2008 Luiz Henrique Lusvarghi

    A imprensa deve divulgar o que ela ‘tem’ naquele momento pra ser divulgado. Se isso está correto ou não, não adianta questionar, porque não será mudado. Aos que não venderam ações devido ás informações de ‘apenas’ 13% de economistas, que comprem agora. Essa é a regra do jogo – Comprar quando todos choram e vender quando todos riem. Aos que não sabem se vai chover ou não amanhã, que levem guarda – chuva ou não façam suas casas em barrancos. O problema maior é empurrar responsabilidades. Não podemos sequer correr o risco de censurar nada. Nem na economia, nem nos jornais a la Datenas da vida, nem tampouco tentar mudá-los. Basta-nos apenas ‘prestarmos atenção’, só isso. Temos que ter todas as informações. Todas. Saber o que fazermos com elas é despreendimento que nos vai pôr ou não no primeiro escalão do mundo. O brasileiro tem que ser menos preguiçoso quando se informa. E depois de informado, tem que saber como atuar. Parar de questionar se a mídia está no caminho certo. Está, já que tem-se liberdade e ponto final. A solução é justamente essa – nunca mais lermos jornais do mesmo jeito.

  2. Comentou em 07/12/2008 Luciano Prado

    A proposta do Rossi – que até pode ser de boa fé – parte de uma premissa equivocadamente conveniente. Como bem apontado pelo Sostenes, os jornalistas querem mais uma vez achar culpados para suas “barrigas” e de seus jornais.
    A Folha até andou ameaçando declarar seu voto aos tucanos/demos, mas só o faria se os demais jornais também declarassem o seu.
    O que ocorre com a grande imprensa brasileira é que ela parece gostar de errar, mas só contra determinado alvo.
    Duvido que algum erro contra Serra ou seu governo não merecesse um ERRAMOS como manchete ou uma nova matéria “arrependida”.
    A questão é outra. A imprensa brasileira perdeu a medida da imparcialidade. Tornou-se um partido político e, para não expor seu ativismo, se deixa usar.
    A ética jornalística, com raríssimas exceções, foi para o beleléu. O que vige é o interesse dos grandes jornais e não o interesse público.
    Ninguém em sã consciência desconhece que há uma crise econômica e fianceira de grandes proporções. Mas o que a imprensa vem fazendo é terrorismo à brasileira. E não é a primeira vez. Nem é um errinho com culpa, mas com dolo.

  3. Comentou em 07/12/2008 Paulo de Almeida

    Varella, que ‘esta crise é especulativa’ parece que sou obrigado a engolir, mas a próxima näo será só isto. Veja só que as reservas de adubo e petróleo nao vai além de décadas, e a agricultura consome cada vez mais adubo e petróleo (maluco, mas adubo também é feito com petróleo…). Mas até aí tudo bem, agora colocar tudo na mäo do Estado, aí näo! Quem toma decisao säo pessoas e nao Estado. E ditadura também näo pode ser chamado de Estado organizado?

  4. Comentou em 07/12/2008 Ricardo Pereira

    Parabens ao Sostenes, seu comentario foi absolutamente preciso. E acrescento: seria legal que os reporteres da area economica e politica tambem tivessem expostas suas relaçoes com ceos de grandes corporaçoes ou determinados grupos politicos para que suas opiniões sejamavaliadas com base nestes pontos tambem. Imaginem só se a Veja declarasse isto toda vez que publica uma daquelas reportagens onde se ocupa da deturpaçao deslavada da verdade…

  5. Comentou em 07/12/2008 Marcio Gomes

    Na medicina existe o CONFLITO DE INTERESSE, obrigatório, eticamente falando, em todas as palestras e trabalhos científicos apresentados. Julgo ser a hora oportuna para que toda a imprensa adote esta norma. Evitaríamos o caos social que muitas vezes é propagado com interesses escusos.

  6. Comentou em 07/12/2008 Marcia Pereira

    Para testar a credibilidade dos jornais que falam em crise o tempo todo, é só dar uma volta nas proximidades dos shoppings e dos comércios populares de São Paulo e jogar fora os jornais e seus agourentos colunistas, que junto com os economistas acham que podem entender a realidade sem sair às ruas, lavar os olhos e ver o que está acontecendo além do que enxergam através de seus próprios umbigos.

  7. Comentou em 06/12/2008 José de Souza Castro

    Diz-se de crise, e alguém falou aí em remédio. E me lembrei de um livro escrito há um século por H. G. Wells, aquele escritor inglês que ficou mais conhecido com ‘A Guerra dos Mundos’ e outros livros de ficção científica. Em 1909 ele escreveu um livro de crítica social, ‘Tono Bungay’, em que descreve as aventuras de um financista que construiu uma fortuna com uma intensa campanha publicitária e a consequente cumplicidade dos jornais. Uma fortuna que desapareceu, quando a bolha estourou, como o banco fundado pelos irmãos Lehman no século 19 com a atual crise econômica. ‘Sob tudo isso, vocês sabem, não havia nada a não ser valores fictícios tão evanescentes quanto um arco iris de ouro’, explica Wells. Valia mais a pena ler o romancista que esses magos modernos da finança, não é? Saberíamos assím, mais uma vez, que a história se repete como farsa, e estaríamos mais bem prevenidos nessa busca do pote de ouro no fim do arco iris.

  8. Comentou em 06/12/2008 marcio varella

    Na verdade formou-se um corporativismo em torno da opinião dos especialistas, seja para qual assunto for. Uma verdadeira indústria corporativista. No entanto, a opinião que deveria valer, a do jornalista, não aparece. Em primeiro lugar, o jornalista deve entender do assunto, saber analisar a situação em toda a sua amplitude e escrever a matéira. Afinal de contas, para que serve o jornalista? Para transcrever com técnica apurada a opinião dos outros, para descrever um fato? Só para isso? Ele não raciocina, não tem capacidade de fazer uma análise imparcial com visão universal das coisas? No caso desta crise, não se falou sobre a especulação do dólar, as operações de swapp feitas pelo BC, não se explicou como os especuladores lucram com a crise sendo que eles próprios foram os principais personagens desta crise. A atual crise é especulativa, de compra excessiva de papéis, de todo mundo querendo ter mais poder porque hoje tem mais poder quem consegue troféus para poder posar de poderoso. Ou famoso. Pouco se falou no papel fundamental do Estado nesta crise, que se antepõe frontalmente à máxima do supercapitalismo: o Estado não deve apitar. Sem a organização estatal, ninguém será feliz. O governo Lula pode estar certo ou errado – isto a História é quem dirá. Mas até hoje nenhum governo levou a economia brasileira a índices tão excelentes.

  9. Comentou em 06/12/2008 dante caleffi

    Falar de corda em casa de enforcado,traz consequências contrangedoras:Como fica Eliane Cantanhede,responsável pelo alarmismo que resultou em corrida à vacinação contra a febre amarela,e o consumo astrônomico das reservas estratégicas da Fiocruz, e um número anormal de óbitos provocada pela vacinação desnecesária ?Clóvis Rossi,membro da comissão- de- frente, do bloco do PIG,
    promotores do mau-agouro midiático,com mesquinhos objetivos partidários,tem se mostrado um líder a altura, do que agora ,propõem disciplinar.Talvez o sutil cheiro de queimado tenha finalmente chegado as suas narinas.

  10. Comentou em 06/12/2008 Sostenes Da Silva

    Seria bom tambem, seguindo o raciocinio do Rossi, que todos os
    jornalistas e seus veiculos, deixassem claro qual partido ou
    candidato apoiam quando forem escrever sobre politica, nao seria
    mais justo e claro com todo mundo??

  11. Comentou em 06/12/2008 Paulo de Almeida

    Weis, näo entendi o motivo do escândalo, pois afinal é o que a imprensa mais faz. E foi aqui mesmo no OI que li mais uma vez há semanas que tinham achado água em marte… É na imprensa que se divulga diariamente, sem o menor escrúpulo, remédios cujos efeitos colaterais säo muito mais graves que o bem oferecido. É via imprensa que o lobby dos transgênicos faz a cabeca de todo mundo com o aval de cientistas pagos, e etc. Mas confesso que já sonhei em propor que alguém deveria pagar pelos crimes decorridos de tais negligências. Mas depois desisti da idéia por causa da pizza…

  12. Comentou em 06/12/2008 Ivan Moraes

    ‘Se é de erro que se trata, chama-se desregulamentação da indústria do dinheiro. Isso é tão gritante que surpreende não ter sido mencionado pelos entrevistadores do banqueiro’: eh prohibido. Lobismo por default, eu diria. Ninguem nos EUA sabe a ‘fonte’ dos apagoes da California, por exemplo. Voce tem que ir atraz pra saber que era chantagem da Enron e diretamente conectada aa ‘desregulamentacao’, porque nao esta em media impressa alguma; no final das contas ia pegar muito mal pros desregulamentadores.

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