Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CÓDIGO ABERTO > Desativado

Os verdes não estão com nada

Por Luiz Weis em 02/02/2008 | comentários

Eles devem estar rubros de raiva com o presidente Lula por ter ele comparado o recente surto do desmatamento na Amazônia a um “tumorzinho” ou a uma “coceira”.


 


No primeiro caso, comparou, antes de dizer que se trata de um câncer, precisa fazer uma biópsia.


 


Assim como os criadores de gado e plantadores de soja, o ministro da Agricultura e os governadores de Mato Grosso e Rondônia, Lula não gosta dos números divulgados na semana atrasada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Ministério da Ciência e Tecnologia, que mede mês a mês a metástase amazônica.


 


Aliás, não vi na mídia nenhuma reação tão apropriada às contestações aos dados do Inpe como o comentário irônico do ministro do setor, Sérgio Rezende:


 


“Quando o Inpe informou que o desmatamento diminuía, ninguém duvidou dos números.”


 


O ponto é que os verdes não têm a quem se queixar porque não estão com nada.


 


Se há um assunto sobre o qual o presidente e o mais anti-lulista barão de mídia estão de acordo é a prioridade da produção sobre a preservação – embora falar mal da defesa ambiental, hoje em dia, é pisar no tomateiro. Daí por que os editoriais aparentemente deplorassem a economia de terra arrasada na Amazônia.


 


Vão por mim. É tudo da boca para fora. Menos quando a crise ambiental é pretexto para desancar o governo – cujas culpas em cartório nem precisam ser exageradas.


 


Para a grande imprensa, a produção da agricultura extensiva – o agribusiness que é a menina dos seus olhos – é sagrada. O presidente concorda e acrescenta a produção da agricultura familiar, subsidiada pelo Pronaf.


 


E vamos deixar de conversa fiada: no limite, a imensa maioria da população, se tivesse de fazer uma escolha (simplória) entre economia e ecologia, não pensaria duas vezes. Emprego e renda são as cartas imbatíveis, como o royal straight flush no poquer. Contra elas, o ambientalismo é um mísero par de sete.


 


Confere com o que se sabe: em geral, quanto mais desenvolvido um país e mais bem-informada a sua população, mais verdejante ela tende a ser. Na Alemanha, por exemplo, o cacife eleitoral do Partido Verde faz dele uma força que nenhum dos dois partidões – o social-democrata e o democrata-cristão – pode ignorar na hora de formar o governo e de apresentar projetos de peso.


 


No Brasil, quando Lula desautoriza em público – lembram-se do “bagre” do Rio Madeira? – a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, os mesmos jornais que vivem desancando o presidente ou calam, consentindo, ou tomam abertamente o seu partido.


 


O qual, no caso, é o de quase todos – políticos, capitalistas e assalariados. Não se trata de uma peculiaridade brasileira. Na China, Índia e Rússia, que formam com o Brasil o acrônimo Brics, não dá outra, apesar das denúncias cada vez mais contundentes dos ambientalistas chineses.


 


Ressalve-se uma coisa: apesar de serem o que são as posições da mídia brasileira, o desmatamento tem merecido das redações uma cobertura frondosa – o que não acontece nem na Índia, nem na Rússia, muito menos na China.


 


P.S.


 

Este texto estava pronto para ir ao ar às 9h13 da quinta-feira, 31. Ficou como aquele passageiro, em meio ao apagão aéreo, sem saber quando o seu vôo seria liberado, nem quando terminaria o conserto da pane que fechou o nosso espaço na blogosfera.

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/03/2008 Alexandre Weiss

    É a velha e comum mentalidade terceira mundistas de nossos pioneiros que não são capazes de enxergar a um palmo a sua frente, políticos de terceiro mundo. sociedade de terceiro mundo, pioneiros de terceiro mundo, capitalismo canibal e selvagem. Nós vendemos comodities de baixo valor agregado, enchemos os estômagos do Europeus de carne e soja, como a colônia fornece os produtos primários a sua metrópole. Talvez nossos políticos e agroempreendedores precisam comer menos carne e soja e evoluir e perceber que pagarão um preço alto mais para frente. Lembramos que em plena era do aquecimento global e disputa por recursos naturais que ainda restam, e que haverá guerras pelo controle desses recursos como a água, o agronegócio está indo em sentido inverso e vive outro tempo, os anos 70, depois que envenenarmos nossa terra e nossas águas dizimar outras formas de vida acabar com as últimas áreas verdes que nos dão riquezas mais importante do que o dinheiro a água veremos que tinhamos tudo o que os outros países queriam ter e desperdiçamos e jogamos no lixo pela ignorância imediatista e terceira mundista de nossos políticos e agroempresários que não evoluiram no tempo, enquanto empanturarmos os Europeus de carne e soja sempre seremos a colônia servindo a metrópole e tratados comos cidadãos de segunda classe.

  2. Comentou em 04/02/2008 ubirajara sousa

    Valeu, Ivan Bispo. Gostaria que esse povo que vive malhando declarasse se as madeiras utilizadas nas portas, nas janelas, nos telhados de suas casas, em seus móveis etc são todas certificadas. Gostaria de saber se essas pessoas fazem uso de bicicletas ou pelo menos do tranporte solidário para se locomoverem. Gostaria de saber se utilizam aparelhos eletrodomésticos ecologicamente corretos. Gostaria de saber se, pelo menos, fazem a seleção dos lixos de suas residências. Nada como criticar, principalmente quando se tem um jornal, uma rádio ou uma televisão para ampliar as suas críticas.

  3. Comentou em 03/02/2008 Ivan Bispo

    Só uma pergunta: Quem é o maior culpado, o desmatador ou o comprador da madeira e tudo que é produzido depois do desmate? Será que só o governo consegue estancar o desmatamento? Se todos os critícos deixassem seus carros em casa para utilizar o transporte coletivo e usasse em abundância aquele primeiro R, o da redução, aí sim, teríamos um resultado satisfatório. Só a ação governamental não é suficiente, precisamos urgentemente de ações individuais…. coletivas.

  4. Comentou em 03/02/2008 Carlos N Mendes

    Sempre me alinho à esquerda, mas não há cacife eleitoral que perdoe esse ato de lesa-humanidade do nosso presidente. Quando formos zumbis fuçando a terra atrás de raízes num Brasil ressequido e empobrecido por nosso espírito de gafanhoto – depois de destruir aqui, vai destruir ali – quem sabe eles acordem. Tarde demais, evidentemente. Lula não precisa de Maggi ao ponto de se queimar desse jeito. Em pouco tempo, se prosseguirmos nessa marcha, o preço do leite e verduras frescas subirá tanto que virarão luxo. Pararemos de produzir café. Os apagões serão anuais. O Haiti já teve seu hecatombe ambiental, e é a nação mais pobre das Américas. Que coisa extraordinária o dinheiro faz com as pessoas. Quem destroe hoje a floresta já tem o suficiente para não se preocupar mais com o futuro. Talvez seja um vício, ou então eles não param porque não há ninguém para pará-los. Acorda, presidente. Não puxe o tapete nem do INPE nem da ministra Marina…

  5. Comentou em 03/02/2008 Pedro Meira

    Infelizmente, estamos de volta aos anos 70, cuja mentalidade de desenvolvimento a qualquer preço foi resumida num célebre anúncio do governo goiano que dizia ‘Leve sua Poluição para Goiás’. Só nos preocupamos com a preservação do meio ambiente em momentos de crise ou em função de modismos, como o livro ‘Colapso’, ou o filme do Al Gore (que hoje é incessantemente malhado pelos ‘teólogos’ da religião do progresso a todo custo).

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