Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Outro milionário da web investe em jornalismo digital

Por Carlos Castilho em 17/10/2013 | comentários

Pierre Omydiar, o programador de computadores que se tornou bilionário aos 31 anos após criar o site de comércio eletrônico eBay, colocou 250 milhões de dólares nas mãos do repórter Glenn Greenwald para desenvolver um projeto de financiamento de profissionais free lancer especializados em jornalismo investigativo.

Greenwald foi o responsável pela publicação das informações sigilosas vazadas por Edward Snowden sobre espionagem eletrônica em redes sociais, correio eletrônico e blogs por parte da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA, na sigla em inglês). Snowden trabalhou para a NSA e, em maio de 2013, entregou a Greenwald informações que criaram um escândalo internacional, envolvendo também o serviço secreto britânico. Greenwald mora no Rio de Janeiro.

O novo projeto, ainda sem nome, será mais um numa crescente lista de bem sucedidos empreendedores na web que decidiram investir em jornalismo. Antes de Omydiar, Jeff Bezos, o fundador da livraria virtual Amazon, já havia comprado o jornal The Washington Post, também por 250 milhões de dólares, tirados de sua fortuna pessoal.

O surgimento de mais um ator no complexo campo da informação confirma a substituição gradual das grandes famílias e dos fundos de investimento de Wall Street por empreendedores da era digital numa troca de comando cujas consequências ainda são nebulosas. Outra tendência que está se configurando é a multiplicação de iniciativas baseadas em jornalismo investigativo e alimentadas pelo o que o jargão das redações anglo-saxãs chama de whistleblowers (sopradores de apito), ou seja, autores de denúncias impactantes.

Freedoom Forum Foundation (Fundação para a Liberdade de Imprensa) somou-se, em meados de outubro de 2013, às organizações interessadas em estimular a produção de denúncias sobre uso indevido de recursos públicos e privados ao criar um serviço chamado Secure Drop. Os jornalistas investigativos que desejarem publicar denúncias podem fazê-lo por meio do Secure Drop com garantia de privacidade. Antes de publicar o material, a fundação fará uma checagem das informações recolhidas pelo profissional.

Essas iniciativas sinalizam a direção em que está se movendo o jornalismo na era digital em matéria de planos de negócio. A alternativa mais usada é a dos financiamentos por parte de indivíduos ou organizações sem fins lucrativos. No caso dos milionários digitais, os investimentos são pessoais e não têm relação direta com empresas que acabaram se tornando em ícones da web. No caso de investimentos pessoais, em pelo menos num deles (Pierre Omydiar) a filantropia informativa foi a explicação oficial.

As tendências que se esboçam na busca da sustentabilidade jornalística mostram um perfil bem diferente da preocupação com o retorno rápido do investimento feito, característica dos negócios convencionais da era industrial. Até agora, qualquer negócio na indústria da comunicação jornalística era condicionado pela previsão de lucros no curto prazo. Já quem aposta no jornalismo digital não alimenta grandes expectativas de resultados imediatos.

Isso reflete a mudança de comportamentos e valores entre os velhos e os novos empreendedores na área jornalística. Omydiar e Bezos ficaram ricos sem saber se os seus projetos iam ou não dar certo. É a cultura da web, onde as pessoas primeiro fazem para depois ver o que acontece. A empresa Google é um exemplo clássico. O número de projetos desativados por falta de resultados positivos é no mínimo três vezes maior do que o das iniciativas que deram certo, como o mecanismo de buscas e o sistema de publicidade online.

Na verdade, a convivência mais estreita com o risco e o fracasso não é uma virtude, mas sim uma imposição da realidade. Como o mundo digital e da web ainda está sendo descoberto, o que ignoramos supera o que conhecemos dele, por isso não há outra alternativa senão arriscar – coisa que as famílias e investidores na indústria da comunicação jornalística preferem deixar para o terreno da retórica.

O projeto de Pierre Omydiar e Glenn Greenwald vai concorrer com o Wikinews, de Julian Assange, e o Secure Drop, da Freedoom Forum Foundation, o que seguramente é a garantia de mais vazamentos de informações sigilosas nos próximos meses. 

 

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