Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Palavras explosivas – e ignoradas

Por Luiz Weis em 01/12/2007 | comentários

A Folha e o Estado de ontem exploraram direito o noticiário das agências internacionais sobre a entrevista do primeiro-ministro Ehud Olmert ao jornal israelense Haaretz, na qual adverte que, sem um Estado palestino, as populações dos territórios ocupados poderão reivindicar o direito ao voto em Israel – como os negros da África do Sul ao tempo do apartheid. “A partir desse momento”, previu, “o Estado de Israel estará acabado”.


O Estadão destacou dos despachos recebidos que “esses comentários são os mais fortes já feitos pelo premiê”. E esclareceu:


“Sua referência ao apartheid foi explosiva, pois as autoridades israelenses têm rejeitado qualquer tipo de comparação com o sistema de segregação racial que vigorou na África do Sul.”


Também a matéria da Folha deu contexto à entrevista do primeiro-ministro, mas de outro ângulo:


“Observadores acreditam que interesse a Ehud Olmert, enfraquecido no plano interno, fazer declarações dramáticas que preparem o terreno para inevitáveis concessões territoriais [no âmbito das conversações com os palestinos, retomadas com a Conferência de Annapolis, na terça-feira] que provocariam a oposição ruidosa dos setores religiosos ou dos radicais da direita laica.”


Pena que nenhum desses jornais – ou qualquer outro diário brasileiro, ao que eu saiba – tenha divulgado as explosivas, ou dramáticas, palavras de Olmert na conferência a que compareceram também representantes dos governos da Arábia Saudita e da Síria, que não reconhecem Israel.


Em dado momento do seu discurso, falando da diáspora palestina, ele disse o que jamais um seu antecessor ousou:


“Por dezenas de anos, muitos palestinos têm vivido em acampamentos, desconectados do ambiente em que cresceram, chafurdando em pobreza, abandono, alienação, amargura e um profundo, incessante senso de privação. Sei que essa dor e privação é um dos mais fundos alicerces que fomentaram o ethos do ódio a nós.”


O comentarista Jonathan Friedland, do Guardian de Londres, assinalou que “isso pode parecer óbvio para o resto do mundo, mas é significativo que um líder israelense tivesse ido tão longe. Marca um distanciamento da negação da realidade histórica que há tanto tempo tem sido uma característica do discurso oficial israelense”.


O fato de os jornalões daqui terem ignorado essa declaração sem precedentes prejudicou apenas os leitores brasileiros. Pior foi a omissão da imprensa americana, a começar do New York Times e do Washington Post, o par de ases da mídia dos EUA.


Mal se pode imaginar o impacto que a divulgação causaria no país do qual Israel é uma espécie de protetorado ou Estado-cliente.


Vai ver, isso explica.

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