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Terça-feira, 21 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Palocci aguentará o tranco? Quais outras surpresas a dupla Buratti-Poleto reserva para o ministro?

Por Alceu Nader em 12/11/2005 | comentários

 

Corria o depoimento de Vladimir Poleto, mais um dos ex-assessores do ministro Antonio Palocci na Prefeitura de Ribeirão Preto, no começo da noite de quinta-feira, quando dois dos senadores mais consultados pela grande imprensa – Tasso Jereissati (CE) e Arthur Virgílio (AM), ambos tucanos – declararam basta ao governo Lula, que, para eles, naquele momento, estava acabado e perdera sua última razão para sobreviver às denúncias de corrupção: a continuidade do ministro da Fazenda no cargo. O ex-assessor Poleto, personagem central da história do dinheiro de Cuba contada pela revista Veja, antes mesmo de ser desmascarado pela divulgação surpresa da entrevista que concedera à revista pela internet, já havia sido pego na mentira por suas próprias contradições. A cada tropeço ou sorriso nervoso de Poleto, o que até então era apenas fruto de fantasia da reportagem começou a ganhar outros contornos.

Arthur Virgílio, um de seus mais duros inquisidores, já o havia chamado de ‘figuraço’, antes da voz do repórter Policarpo Jr. abrir a fita registrando hora e dia da semana da entrevista em que Poleto começa negando – ‘não, absolutamente não’ – ter transportado dinheiro para o PT na campanha de 2002, mas, pouco depois, atribui a Ralf Barquete, o falecido ex-secretário municipal de Palocci, a versão do dinheiro cubano que ele teria transportado sem saber. Logo, seria um inocente útil, indecentemente usado pelo falecido amigo para transportar dinheiro escondido em caixas de bebida. Apesar da deslealdade, Poleto não rompeu com Barquete. Pelo contrário: contou com seu apoio para a montagem da ‘central de negócios’ em Brasília, conforme definiu o próprio Poleto no depoimento. A ‘central de negócios’ ocupou uma mansão no Lago Sul, onde Poleto pagou R$ 60 mil adiantados, em dinheiro vivo, por seis meses de aluguel. No depoimento à CPI, reconheceu que a central tinha intenso movimento noturno. As garotas da empresária Mary Corner, promotora tradicional de festas para políticos e empresários da Capital Federal, tornaram-se freqüentadoras assíduas das reuniões da ‘central de negócios’. Por uma delas, apaixonou-se o parceiro de Poleto na empreitada, Rogério Buratti, outro assessor de Palocci e principal algoz do ministro, e com ela vive em Belo Horizonte, cidade da qual partiu o repórter Policarpo Jr. para encontrar-se com Poleto em Ribeirão Preto, para a entrevista apresentada em tempo-real para os senadores.    

Além de atolar-se nas próprias mentiras, o figuraço Poleto estava só. Crivado de perguntas por raposas muito mais peludas do que ele, tinha no senador Eduardo Suplicy (PT-SP) sua única esperança de defesa. Mas a expectativa era vazia. O senador não lhe socorreu; antes, aconselhou-o a consultar seus advogados para decidir qual caminho tomaria a defesa para justificar as contradições de seu depoimento. Outros dois senadores do PT – Tião Viana e Sibá Machado, ambos do Acre – correram de seus gabinetes para a sala da CPI. Mas também não tinham argumentos para defender o indefensável. A principal testemunha do caso do dinheiro cubano mentira deslavadamente para os senadores. Além de cobrir o ministro da Fazenda de suspeitas, concedeu veracidade ao enredo cubano trazido pela revista Veja.

Mas o estrago definitivo que as mentiras de Poleto causaram ao governo Lula não ocuparam as manchetes principais do dia seguinte, ontem. Os jornais ignoraram a decretação do fim do governo Lula e da paciência com as mentiras do ‘acervo’ dos amigos que gravitam em torno do ministro Palocci, segundo a expressão do senador tucano, Tasso Jereissati. Apenas o Jornal do Brasil resvalou na manchete ‘Cai a blindagem de Palocci’ sobre as conseqüências do desastroso depoimento de Poleto. Ao invés de olhar para o Senado, os jornais concentraram a atenção no Palácio do Planalto, na repercussão da entrevista da Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, ao O Estado de S.Paulo, criticando a política econômica e as metas de superávit primário. 

Sintomaticamente, o editorial do mesmo O Estado de hoje, sábado, com o título ‘O ministro nas cordas’, descreve:



‘Anteontem, uma autêntica Quinta-Feira Negra, Brasília viveu um daqueles dias de vaca não reconhecer bezerro, como diria o presidente. Se o noticiário da imprensa de ontem oferece versões incoerentes sobre as ações – e, mais do que isso, as intenções – dos principais personagens do drama em cartaz no Planalto, isso talvez se deva menos à incompetência dos jornalistas do que às incertezas desses mesmos protagonistas. Quando Palocci fala em deixar o cargo, será pelo recrudescimento do chamado fogo amigo contra as suas diretrizes, ou pela intensificação do fogo inimigo sobre o papel que terá desempenhado na engorda do caixa 2 do PT? Se há qualquer fundamento nas especulações de que os ataques da companheira sucessora de Dirceu serviriam a Palocci como um pretexto nobre – divergências de orientação sobre os rumos do governo – para sair de cena (embora isso pudesse torná-lo ainda mais vulnerável no âmbito das CPIs), quais seriam as conseqüências para Lula? Como é óbvio, tudo o que o presidente faz gira em torno de duas metas indissociáveis: dar a volta por cima da crise e se reeleger. Para tanto, perder Palocci, como perdeu Dirceu, será um complicador ou um facilitador? E o próprio Dirceu? Depois de 30 meses no Gabinete como o anti-Palocci por excelência, eis que aparece como o seu primeiro patrono.
(…)na quinta-feira, ao depor na CPI dos Bingos, dois dos colaboradores dos tempos de Ribeirão Preto acenderam bombas sob o seu assento. Rogério Buratti garantiu que ele sabia que a tavolagem doou por baixo do pano R$ 1 milhão para a campanha de Lula. E Vladimir Poleto, apesar – ou por causa – de sua indigência mental, entrou em tantos detalhes contraditórios sobre o vôo dos supostos dólares cubanos de Brasília para Campinas que deixou absolutamente claro que tudo, menos bebida – tudo, menos algo legal -, se transportou naquele 31 de julho de 2002 para o PT. (…)


O descrédito de Poleto amplicou o crédito da história trazida pela revista Veja. Mas há ainda muitos indícios obscuros no caso, como esse blog, aliás, apontou quando a revista chegou às bancas.

A gravação de 7m46s divulgada pela revista, apesar da ‘desautorização’ de Poleto, traz algumas pistas. Ele disse que foi coagido pelo repórter. Ao mesmo tempo, confessou aos senadores a empatia imediata com o repórter Policarpo Jr. Afirmou que a gravação foi feita sem sua autorização, mas a abertura da entrevista feita pelo repórter também o desmente. Argumentou que bebera além da conta e que estava com a ‘capacidade de discernimento comprometida’, mas sua voz não na gravação não é pastosa nem seu raciocínio indica variação de altitude provocada pelo álcool. No entanto, apesar da mudança de versões em menos de oito minutos de conversa, ele não confirma a origem do dinheiro.
Leia abaixo, o trecho da gravação que a revista colocou em seu site como ‘as principais partes’ (mantidas em negrito na transcição abaixo):



Veja Hoje é madrugada de sábado. Estou aqui com Vladimir Poleto. Vladimir, você transportou dinheiro para o PT na campanha de 2002?
Poleto – Não, absolutamente não.


Veja Mas há o episódio de que você – a gente já apurou – que você trouxe de Brasília para São Paulo caixas supostamente contendo bebidas e que havia dinheiro…
Poleto – Que eu saiba não.


Veja – O que vc sabe?
Poleto – A única coisa que eu sei é que eu peguei um avião de Brasília com destino a São Paulo com três caixas de bebida, só isso.


VejaDepois que você fez esse transporte você descobriu que… Foi informado do que efetivamente tinha dentro destas caixas…
Poleto – Depois de todo o acontecimento, sim.


Veja – E o que tinha dentro dessas caixas, segundo te disseram?
Poleto – Uma coisa é o que me dizem outra coisa é a realidade…


Veja – E o que te disseram?
Poleto – Que tinha dinheiro numa das caixas. Só isso.


Veja – Quem disse isso?
Poleto – Ralf Barquete.


Veja Como você se sentiu sendo usado para fazer esse transporte.
Poleto – Um absurdo, um absurdo. Eu estive em Brasília para resolver problemas ligados diretamente, não só a minha questão pessoal, mas a outros encaminhamentos, alguns processos de enchentes, no ministério diretamente responsável e vim saber depois que acabei transportando alguns pacotes e num deles havia dinheiro. Só isso!


Veja Você se sentiu usado?
Poleto – Lógico. Evidente. Isso é um descalabro!

Veja – Quanto tempo depois do episódio você ficou sabendo disso, que era dinheiro ao invés de bebida.

Poleto – Depois que eu ganhei uma garrafinha de Havana Club, que me foi presenteado, me falaram. Só isso!


Veja – Qual o valor que foi falado?
Poleto – É…


Veja – Segundo a informação que eu tenho, o valor transportado teria sido 3 milhões de dólares.
Poleto – Não. O valor que me disseram era 1 milhão e 400 mil dólares.

Veja Vindo de Cuba?
Poleto – Não, não sei da onde. A origem eu não sei, apenas que eu acabei transportando num ato de minha infatilidade. Só isso!


Veja Você fez um favor?
Poleto – Exato.


Veja A pedido de um amigo.
Poleto – Exato.


Veja Que não te disse o que era…
Poleto – Disse que eu tinha que trazer três caixas de bebidas. Só isso!


Veja Você correu risco de vida?
Poleto – Não. O que aconteceu foi que peguei tempestade no ar, só isso! A partir do momento que eu saí de Brasília bateu uma tempestade. Meu destino era São Paulo aí bateu uma tempestade de Campinas até São Paulo. O piloto teve que mudar a proa para Poços de Caldas e depois certificou-se que talvez não tivesse combustível necessário para chegar até São Paulo e eu pedi pra ele arrumar uma outra alternativa de vôo. Ele disse que tinha que pousar ou em Poços de Caldas ou em Campinas. Eu optei que pousássemos em Viracopos.


Veja O que aconteceu quando vocês pousaram em Viracopos?
Poleto – Viracopos? O avião pousou e eu…imediatamente me retirei do avião e disse que jamais entraria naquele avião, pelas penúrias e pelos problemas que passei. E, a partir do momento que o Ralf chegou no aeroporto, eu pedi que ele assumisse o avião e junto com o piloto tomasse os destino necessários. A partir dali, eu voltei para a minha terra natal.


Veja Com relação à mercadoria, você disse que ela foi transportada em um carro blindado.
Poleto – Eu não vi. Eu fiquei em Viracopos. O avião na realidade pousou em Viracopos e tinha um tempo hábil, já que ali não tinha o combustível necessário para aquele avião, tinha que ser em outro aeroporto ali pertinho, então teve que se levantar outra vez, teve que decolar e fazer pouso nas proximidades. E o Ralf tava dentro desse vôo. E o Ralf tomou as ações daí pra frente, com relação aos produtos que estavam dentro do avião.


Veja Você me disse no início da entrevista que esta história poderia comprometer muito, inclusive derrubar o governo. Por quê?
Poleto – Eu? Não. Eu fiquei sabendo da história depois e fiquei muito preocupado. Só isso!


Veja Você acha que foi um inocente útil?
Poleto – Evidente. Isso é uma realidade.


Veja A quem você narrou esta história?
Poleto – Eu? Narrei à minha mulher e ao meu filho, Gregory, de 16 anos, que sabe perfeitamente dessa história.


Veja Você tem a consciência absolutamente limpa de que você não participou de uma maneira efetiva desse transporte de dinheiro, sabendo o que estava fazendo…
Poleto – Lógico, imagina… Jamais iria pegar um vôozinho com um milhão de dólares dentro de um avião e transportar. Isso não é da minha índole.


Veja Vocês estava atendendo a um pedido de um amigo.
Poleto – Lógico.


Veja Você se arrepende disso?
Poleto – Olha, costumeiramente eu não viro as costas para os amigos. É da minha índole. A partir do momento que um amigo me pede ´Vladimir traga’, eu…. Qual o problema se não levar?


Veja De quem era o avião?
Poleto – Não sei


Veja Era um Seneca?
Poleto – Um Seneca. Um Seneca para quatro lugares.


Veja Você me disse que destes quatro lugares, três estavam ocupados com as caixas.
Poleto – Exato e mais o meu.


Veja – Como você descreveria estas caixas. Como elas eram?
Poleto – Uma caixa escrita Red Label, a outra Black Label, a outra Havana Club. Todas do mesmo tamanho, da mesma textura…Idênticas..Só mudando o nome.


Veja – Você imaginou que tinha bebida dentro?
Poleto – É lógico. Conheço muito Black Label, Red Label, mas não conhecia o Havana Club. Mas aí o meu amigo Ralf Barquete me trouxe uma garrafa de Havana e presenteou-me. Disse: Vladimir, aqui tem um Havana Club pra ti.


Veja Foi quando ele te contou a história.
Poleto – Exato.


Veja Foi na casa dele?
Poleto – Não. Na minha.


Veja Isso muito tempo depois?
Poleto – Não. Uma semana depois, por aí.


Veja Isso aconteceu em setembro de 2002?
Poleto – Não me recordo. Eu sei que foi em 2002…


Veja Durante a campanha?
Poleto – Durante a campanha.


Por causa das mentiras ditas aos senadores, Poleto pode ser preso já na semana que vem – e deixa várias peguntas-chave a serem respondidas:

Ele manterá o bico fechado – o que é muito improvável, pelo que já disse – ou continuará abastecendo os jornais com denúncias dirigidas ao ministro da Fazenda, como vem fazendo seu ex-parceiro Rogério Buratti?

O que teria acontecido nas reuniões noturnas da ‘central de negócios’ que motiva Buratti a mirar em Palocci?

Porque o ministro não desqualifica seus acusadores?

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