Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Para começar a semana de alma leve

Por Luiz Weis em 03/09/2007 | comentários

O texto abaixo é para quem gosta de texto. Saiu ontem no caderno Aliás, do Estado. Tem por título A língua não é a Gisele Bündchen. É da escritora portuguesa Inês Pedrosa, autora, entre outros, do romance Fica comigo
esta noite.

Como diria o também português Saramago, a propósito de outro compatriota, Inês ‘escreve tão bem que dá vontade de lhe bater’.

Guardei o artigo para compartilhá-lo hoje com o eventual leitor que não o tenha lido ontem, porque me ocorreu que poderia ser uma forma de começar a semana de alma leve. Podem crer: é um mel.

A expressão “acordo ortográfico” provoca-me um cansaço fulminante. Quando alguma coisa me decepciona muito, adormeço. Num minuto, esteja onde estiver, o que espanta os próximos, que me conhecem como insone militante. Um psicanalista explicou-me que se trata de uma reacção saudável do inconsciente. Útil, pelo menos, tem sido. Mas nesta questão da ortografia, sempre que abro os olhos, vejo mais uma figura da cultura portuguesa bradando contra “o colonialismo dos ex-colonizados”. Urrando contra a humilhação estatística: 1,4% de alterações para Portugal contra uns míseros 0,5% do Brasil. Como se admite que a Língua-Mãe da velha Lusitânia se vergue à grafia do ingrato e vistoso filho? Ó inclemência! Ó misericórdia – assim se despejam, Atlântico abaixo, anos e anos de namoro oficial e promessas de um radioso futuro comum.

Não sei nem quero saber se essas estatísticas são exactas. Parece-me natural que a norma da língua seja definida a partir da maioria – a democracia tem apresentado, por esse mundo fora, resultados mais simpáticos do que a exacerbação nacionalista. E acontece que, neste mimado Éden europeu com vista para o mar, somos só 10 milhões. Mais ou menos a população da cidade de São Paulo. Também por isso temos, comparativamente, tão poucos problemas, embora gostemos de nos pensar um povo de desgraçados. Essa desiludida ilusão é, aliás, de uma forma muito pragmática, a nossa desgraça – mas enfim: dá-nos a cintilação das lágrimas do fado, a força lírica da literatura e a singularidade melancólica do cinema. Não se pode ter tudo.

Acresce que os discursos acerca da “pureza” da língua original pecam por falta de atenção: quem mantém o puro “açougue” (em vez do contemporâneo “talho” e “cadarço” (em vez do contemporâneo “atacador”) é o Brasil. Um dos estímulos que a literatura brasileira me oferece é esse, do reencontro com palavras antigas que Portugal deixou cair. Por outro lado, quero que a pureza se dane; dos puros não reza a História boas coisas.

O que me encanita, porém, é a ideia de uniformização obrigatória. Por que é que me proibirão de meter um c – curvinho, dengoso e mudo – nos meus afetos? Vocês deixam de me entender por isso? Claro que não – todos os meus livros são publicados no Brasil com a grafia portuguesa, e são brasileiros alguns dos meus mais clarividentes leitores. O romance que agora terminei, integralmente passado na Bahia (com h e com esse português brasileiro chamado padre António Vieira) é escrito no português de Portugal e no português do Brasil, em simultâneo. Não é a globalização que está a tornar o mundo um lugar muito chato; ela é apenas um canal de aproximação universal. O problema é que esse canal está a ser bombardeado por um enxame de regras que matam o livre-arbítrio e a originalidade individual. No interior de uma exortação genérica à Tolerância (tolerância até para com os mais ignominiosos atentados aos direitos humanos, a pretexto do respeito pelas “tradições culturais”) e à Liberdade, insemina-se um discurso parasitário, publicitário e, por conseguinte, altamente eficaz, que nos quer forçar a ser uniformemente belos, saudáveis e jovens. Já não é só porque quem não tiver as medidas certas e não comer vegetais e não correr dez quilómetros está impedido de ter o sucesso que, segundo a cartilha das aparências, conduz à felicidade. Agora, a cartilha estende-se à alma, e pretende agir através da culpa: dizem-nos que se fumarmos, engordarmos e envelhecermos, pesaremos sobre o sistema de saúde e diminuiremos a nossa produtividade, pelo que prejudicaremos o nosso semelhante.

Quando Lauro Moreira, o embaixador do Brasil na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa afirma, numa recente edição do JL – Jornal de Letras Artes e Ideias, que o acordo ortográfico permitirá que Machado de Assis venha a ser lido e conhecido em Portugal, sinto-me imediatamente tentada a dar de bandeja as minhas queridas consoantes mudas: que se lixe o encanto das diferenças, ponham o Machado ao colo do povo. Só que a coisa não funciona assim. Para começar, a dificuldade de encontrar Dom Casmurro nas livrarias portuguesas é idêntica à de achar A Capital de Eça de Queirós. A dificuldade de compreensão do português do Brasil em Portugal não passa pela ortografia, nem sequer pela sintaxe – temos décadas de frequência entusiástica de cursos intensivos de telenovelas e canções brasileiras – mas pelo vocabulário. O acordo ortográfico não resolve – e ainda bem – a infinita disparidade vocabular, nem a criativa polissemia da língua.

Caetano Veloso disse tudo no seu último cd, quando cantou: “Estou-me a vir”. Eficácia total: no Brasil ninguém o percebeu, em Portugal ninguém o quis perceber. Cantou na rua o que os portugueses só gritam na cama – e com sotaque português. O atrevido. A belíssima declinação camoniana dos versos seguintes (“E tu como é que te tens por dentro?/ Porque não te vens também?”) foi varrida pelo escândalo. Zut, zut, vade retro, desafios. Há tempos, num debate filosófico através de email, uma amiga brasileira aconselhava-me a ter cuidado com determinado cavalheiro, alegando que “intelectual universitário sempre é um pouco galinha”. Demorámos uns quantos emails a perceber que a mesma “galinha” serve para falar (no Brasil) de um “homem que cisca o tempo todo” (ou seja, que namora indiscriminadamente) e de uma mulher que não está habituada a pensar (em Portugal).

Quando Lauro Moreira diz (ainda no JL): “Que vocês digam ‘eléctrico’ e nós ‘bonde’, maravilha, mas vocês não têm que escrever ‘eléctrico’, mas ‘elétrico’, como nós” , confesso que me arrepio. Mas lendo o texto do acordo desato a rir. É tão grande o cortejo das excepções que o acordo acorda já desacordado. Por exemplo: nas locuções, o hífen cai “salvo algumas exceções já consagradas pelo uso”. E o uso justifica que “cor-de-rosa” permaneça assim, e “cor de vinho” passe a andar sem atrelado. Porque a rosa é mais antiga do que o vinho? Os acentos agudos e circunflexos ficam ao sabor do timbre “aberto ou fechado, na pronúncia culta da língua”. Se ao menos nos oferecessem o estremecimento elegante do trema, que nos permitiria escavar até ao fundo do u os nossos sequestros. Mas não; o português uniformizado não estremecerá. Esquecem que a grandeza do português, seja ele qual for, é feita de um portentoso jogo de cintura. E que se danem as medidas certas.

***

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Todos os comentários

  1. Comentou em 12/09/2007 Luiz Carlos Bernardo

    Onde escreví Barbosa, quis dizer e é Pedrosa, desculpe-me o lapso.

  2. Comentou em 12/09/2007 Luiz Carlos Bernardo

    A insustentável beleza das palavras. Além de irreverente, a Inês Barbosa sabe bailar com as palavras. Notável texto. E nada mais se precisa dizer.

  3. Comentou em 05/09/2007 Alexandra Garcia

    Em tempo: Onde grafei ‘I_minentes’, leia-se E_minentes. Grata

  4. Comentou em 05/09/2007 Alexandra Garcia

    Sr. Weis: Em primeiro, grata pelo esclarecimento, pois sem ele era capaz de eu não perceber que se tratava de uma referência elogiosa ! – Em segundo, se o Saramago se valeu da frase jocosa de um compatriota e endossou a “vontade de bater” na escritora, então, com a devida licença, tanto faz se o elogio é da autoria dele ou não. Em terceiro, eu tentei (mas vejo que não fui feliz), fazer uma blague, afirmando que o Saramago gostaria de bater de fato na escritora, não pelo fato dela escrever bem, mas por ter ela uma posição contrária à dele em termos de reforma ortográfica. Em quarto, devo ser mesmo partidária da referida estupidez “democratizante”, e nesse ponto fico ao lado de iminentes “estúpidos” como os filólogos Evanildo Bechara – http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=310ASP008 – e Antônio Houaiss, de quem eu recomendo a atenta leitura do “Sugestões para uma política da língua”.

  5. Comentou em 04/09/2007 Claudio Weber Abramo

    Boa parte dos comentadores ou não entendeu nada ou entendeu e é partidária da estupidez ‘democratizante’ de uma uniformização cuja motivação é, para dizer o mínimo, obscura. Por exemplo, admite-se que dicionaristas façam parte da tal da comissão na qual se discutem assuntos como essa reforma. Epa! dicionaristas? de ‘dicionário’, a saber, compêndios em que se registram (entre outras coisas) as grafias das palavras? Ah,,,

  6. Comentou em 04/09/2007 Adriana Vianna

    Adorei o texto. Sou a favor da preservação da língua materna tanto por parte de Portugal quanto por parte do Brasil. Que cada país cuide da sua, e das suas reformas necessárias. O que o povo brasileiro precisa (e como tem se tornado pedante repetir isso – porém necessário sempre) é ter escolas orientadas para ensinar o português correto, a todos, sejam quais forem os seus cotidianos, e mais: também uma língua estrangeira. Por que não? Esse, a meu ver, seria um ato de consciência para preservação da cultura da língua. É nessa responsabilidade. Não será por tanto que já não se entendem os que escrevem as nossas leis? Do que é feito a nossa Constituição hoje? Ri de nervoso do advogado ao pé rapado. E os próprios que as fizeram batem cabeça, aos berros. O nosso português materno precisa muito ser respeitado e preservado por questão de sobrevivência mesmo, pois um país tão grande como o nosso, com tantos grupos e guetos diferentes, no mínimo, pela língua deve estar unido inclusive para poder discutir idéias diferentes.

  7. Comentou em 04/09/2007 Antonio Carlos Pinheiro

    Unificação da língua = empobrecimento cultural. A riqueza das culturas mais uma vez está ameaçada pela globalização/pasteurização a que a humanidade caminha. Deixem cada povo se expressar à sua maneira. E viva a diversidade!!!

  8. Comentou em 03/09/2007 Thomaz Magalhães

    Na mosca. É realmente uma delícia de ler. E interessantísima também a posição da Inês Pedrosa sobre a tal reforma ortográfica.

  9. Comentou em 03/09/2007 Alexandra Garcia

    Não é à toa que o Saramago gostaria de bater na Inês Pedrosa. Ele é radicalmente contra tudo o que ela disse acima. Está pouco se importando se eles, os portuguêses, não chegam nem a 10% da população brasileira. Enquanto colonizador e colonizado quer o monopólio da lingua, e tem plena percepção, e nesse particular está certo, de que o domínio da lingua é um perfeito instrumento e exteriorização do poder.

  10. Comentou em 03/09/2007 Gabriel Fernandes

    ‘minha pátria é a língua portuguesa’ (pessoa)

    ‘a língua é minha pátria, e eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria'(caetano)

  11. Comentou em 03/09/2007 Marco Antônio Leite

    Existem duas formas de falar, escrever ou ler um texto na língua portuguesa. Para os ditos ‘cultos’ e ‘intelectuais’ tudo que fazem na língua portuguesa esta corretamente correto. Já os poucos ‘cultos e menos ‘intelectuais’ tudo que fazem na língua portuguesa esta incorreto. Mas uma coisa é certa, a língua do povão é a única que esta certa, pois no cotidiano todos nós nos entendemos ou falar, escrever e ler. Portanto, não significa que deixaremos de viver e conviver com nossos iguais em função disso. Entretanto, falem da forma que falarem sempre estaremos dispostos a entender nossos semelhantes que vivem nas periferias, não nas academias, muitos menos nas redações do meio jornalístico. O português que essa meia dúzia fala e escreve é puramente elitista e excludente.

  12. Comentou em 03/09/2007 haroldo mariano neves

    Prezado Luiz,

    excelente o texto reproduzido. No entanto, havemos de entender, que somos um país de 200 milhões de pessoas, que falam uma língua bem diferente daquela de nossa pátria mãe. Há muito que não falamos como eles, pois, devemos observar, que hoje temos um vocabulário próprio. Aliás, meu caro Luiz, sou até a favor de que se oficialize uma língua brasileira, vez que, se a maioria dos brasileiros forem a Portugal, podemos dizer que quase ninguém por lá, vai entender o que estão pronunciando. e muito menos nós vamos entendê-los. Por exemplo, nossa juventude tem um vocabulário próprio, muito utilizado nas conversas na internet, que até nós mesmos quase não entendemos o que eles estão dizendo, Meus pais, meus avós e muitos parentes daqui de Minas, têm um vocabulário próprio de nossa região, que muitos podem não endender, assim como em outros estados da federação. Por essa razão meu caro, é que temos que oficializar a língua brasileira. Essa do nosso dia-a-dia, que todos nós entendemos. O que você acha? Um abraço, Haroldo.

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